Coisa de cinema: Globos dourados para uma arte de
ouro
Enio Lins
DUPLA CONQUISTA brasileira no badalado Globo de Ouro com o filme “O Agente Secreto”. Volta para casa com duas estatuetas na bagagem, fato inédito nessa premiação. Em 1999, Central do Brasil trouxe o Golden Globe de Melhor Filme em Língua Estrangeira; em 2025, foi a vez de Fernanda Torres vir de lá com a premiação de Melhor Atriz. Neste ano, dobrado feito tapioca: Melhor Filme em Língua não-Inglesa e Melhor Ator para Wagner Moura. Sem surpresas, posto filme e ator haviam conquistado antes a crítica e o público mundo afora.
CONQUISTAS MÚLTIPLAS, algumas imateriais, se somam aos dois lauréis d’ouro. O mais importante dos êxitos intangíveis de “O Agente Secreto” no Globo de Ouro é a consagração planetária do cinema brasileiro, reafirmando uma longa tradição cujos pontos altos, anteriores a 2026, são – por ordem de importância – a conquista da Palma de Ouro de Cannes como Melhor Filme para “O Pagador de Promessas” em 1962; Globo de Ouro de 1999 para “Central do Brasil” como Melhor Filme Estrangeiro; Globo de Ouro para Fernanda Torres, em “Ainda Estou Aqui”, em 2025; Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para “Ainda Estou Aqui”, em 2025. Sem falar em “Orfeu Negro”, produção franco-brasileira, filmado no Brasil, que rendeu o Globo de Ouro de 1960 para a França. Essa lista não lista troféus internacionais relevantes como as 11 premiações recebidas por “Central do Brasil” entre 1998 e 1999. Para economizar espaço, não listaremos quantos filmes brasileiros ganharam tantos outros prêmios no Exterior ao longo dos tempos; mas vamos citar apenas “Vidas Secas”, de 1963, filmado em Alagoas, por Nelson Pereira do Santos, que trouxe de Cannes o Prêmio OCIC (Office Catholique International du Cinéma), ganhou o Grande Prêmio Cidade de Valladolid, e premiações outras em Londres, Nova York, Milão e Havana.
OUTRA QUESTÃO RELEVANTE é que “O Agente Secreto”, com seu esmero
técnico/artístico, ao ser premiado pela forma, projeta seu conteúdo
especialíssimo. Isso não é pouca coisa num cenário mundial marcado por arroubos
ditatoriais, agressões internacionais, genocídios. Kleber Mendonça Filho, com
seu talento e visão excepcionais, espalha pelos quatro cantos do mundo uma
visão crítica irretocável, profunda, não-panfletária, sobre os crimes de um
regime ditatorial que delinquiu em perfeita sintonia com todas as modalidades
do crime organizado e da corrupção desenfreada. Expõe o chumbo ainda quente da
covardia dos que bradam “Ustra Vive”, e que se debulham em crocodilescas
lágrimas, pressionando por anistias graciosas que lhes garantam a impunidade
para novas tentativas de golpes de Estado.
DENTRO DO BRASIL, o filme premiado duplamente pelo estadunidense Golden Globe Awards ilumina uma questão doméstica nevrálgica: a luta pelo
equilíbrio regional, confirmando o Nordeste – especialmente a cena pernambucana
– como mais um polo de excelência em cultura e em empreendimentos artísticos
com magnitude internacional. É a afirmação de uma tendência, e de um longo e
árduo trabalho, desenvolvido há décadas, tendo como base a criação
cinematográfica sediada em Recife. Novamente para economizar espaço, lembro
apenas “O Baile Perfumado”, filmado em 1995, ganhador do Grande Prêmio do
Festival Internacional de Brasília de 1996. Se tivesse sido escolhido para
representar o Brasil em Cannes, no Globo de Ouro e Oscar, voltaria com mais de
um prêmio no alforge. Estamos falando de um filme feito há 30 anos! Sob a
direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, com consultoria de Frederico
Pernambucano de Melo, e tocando o Mangue Beat como trilha sonora, projetou
particularidades únicas sobre o tempo do cangaço que, em termos da Sétima Arte,
ainda não foi igualado. Não falamos, portanto, sobre acasos, ou sorte. É
talento, arte, foco, persistência, ousadia. E vem mais por aí!

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