Como o povo brasileiro transformou o futebol em
símbolo nacional
Apropriado
pelas massas, criou um estilo próprio de jogo e ajudou a transformar o Brasil
em potência mundial. Após três Copas conquistadas entre 1958 e 1970, deixou de
ser um mero participante periférico para se tornar referência civilizatória no
esporte mais popular do planeta
Alexandre
Machado Rosa/Fundação Grabois
O Brasil
não nasceu potência do futebol. Tornou-se. E essa transformação exigiu que o
esporte fosse arrancado das mãos das elites e apropriado pelas massas
populares. Para que o país se transformasse em uma potência respeitável do
futebol mundial, foi necessária a popularização radical do esporte em
território nacional.
Inicialmente,
o futebol foi confinado atrás das cercas dos clubes privados, reproduzindo
hábitos sociais elitizados presentes em parte da sociedade inglesa da época.
Contudo, diferentemente de modalidades como tênis, hipismo ou golfe, o futebol,
na própria Inglaterra, rapidamente se tornou um esporte de massas, apropriado
pelos trabalhadores urbanos das cidades industriais. Sua enorme simplicidade
material, bastando uma bola e algum espaço livre, sendo organizado por poucas
regras, favoreceu sua disseminação entre operários, jovens pobres e setores
populares. No Brasil, porém, as elites tentaram inicialmente controlar e
restringir o acesso ao novo esporte, retardando sua plena popularização entre
as massas proletárias.
Assim
como ocorreu na Inglaterra e na Argentina, trabalhadores urbanos, jovens pobres
e populações periféricas rapidamente transformaram o esporte em patrimônio
coletivo. No Brasil, pipocaram campos improvisados em várzeas, terrenos
baldios, praias e ruas de terra. A ideia sustentada pelas elites de um esporte
elitizado começou a ruir diante da força da apropriação do novo jogo pelas
massas trabalhadoras.
Mesmo com
os clubes oficiais ligados às elites proibindo explicitamente a participação de
negros e pobres, o primeiro grande craque do futebol brasileiro foi justamente
Arthur Friedenreich (1892-1969), considerado o primeiro grande ídolo nacional
do esporte. Filho de pai alemão e mãe negra brasileira, Friedenreich tornou-se
símbolo da contradição brasileira: um país profundamente racista que, ao mesmo
tempo, via emergir no futebol uma linguagem popular impossível de ser contida
pelas elites.
Cronistas e jornais na construção do futebol
brasileiro
Em meio à
invenção das tradições ligadas ao futebol brasileiro, surgiram também os
cronistas esportivos. Intelectuais e jornalistas entraram em campo tentando
compreender e decifrar a linguagem do novo passatempo popular.
Em 1931,
o jornalista Argemiro Bulcão fundou o primeiro diário especializado em futebol,
o Jornal dos Sports. Com sua primeira página cor-de-rosa, inaugurou
uma nova etapa da crônica e do jornalismo esportivo no país. Em 1936, o diário
foi comprado por Mário Filho, que posteriormente emprestaria seu nome ao
estádio do Maracanã. Sob seu comando, o periódico tornou-se referência nacional
na cobertura esportiva, especialmente do futebol. Ainda na década de 1930, em
São Paulo, Thomaz Mazzoni impulsionou A Gazeta Esportiva,
consolidando no eixo Rio-São Paulo dois dos principais jornais dedicados ao
esporte no Brasil. Cronistas como Nelson Rodrigues e José Lins do Rego
assumiram papel crucial durante a campanha pela Copa do Mundo de 1950,
realizada no Brasil. Lins do Rego foi um árduo defensor da construção do
estádio do Maracan&a tilde;.
Os
cronistas perceberam gradualmente que os brasileiros estavam criando uma forma
própria de jogar o association football — o futebol de
associação, nome oficial dado pelos ingleses. A rigidez tática inglesa deu
lugar à improvisação; a força física passou a conviver com a ginga; o jogo
coletivo incorporou criatividade, drible e espontaneidade. O futebol brasileiro
nasceu da mistura entre culturas populares urbanas, heranças africanas e
experiências das classes trabalhadoras.
Intelectuais
como Gilberto Freyre perceberam precocemente que o futebol brasileiro não
reproduzia mecanicamente o modelo europeu. Em textos clássicos publicados nos
anos 1930, Freyre associou o estilo brasileiro de jogar à mestiçagem cultural
do país, destacando a ginga, a improvisação e a malícia corporal como
expressões legítimas da formação social brasileira, embora essa interpretação
muitas vezes tenha sido marcada por idealizações sobre a democracia racial no
país. Décadas depois, Mário Filho aprofundaria essa interpretação ao narrar a
popularização do futebol entre negros, trabalhadores e setores populares
urbanos no célebre livro O Negro no Futebol Brasileiro (1947), obra que se tornaria um dos
maiores cl ássicos da historiografia esportiva nacional.
Como
diria Eric Hobsbawm, o futebol brasileiro também produziu suas próprias
“tradições inventadas”: símbolos, narrativas, heróis e estilos de jogo que
ajudaram a consolidar um sentimento coletivo de identidade nacional ao longo do
século XX. Não por acaso, o futebol transformou-se em um dos maiores símbolos
da identidade brasileira na modernidade.
Do estilo brasileiro ao reconhecimento mundial
Entre
1958 e 1970, o Brasil conquistou três Copas do Mundo em apenas doze anos.
Garrincha, Pelé, Didi, Nilton Santos, Tostão, Jairzinho e Rivellino não eram
apenas jogadores extraordinários; representavam uma escola de futebol admirada
globalmente. O Brasil deixou de ser um mero participante periférico para se
tornar referência civilizatória no esporte mais popular do planeta.
Mas,
depois de 1970, o país que reinventou o futebol começaria lentamente a perder o
controle sobre sua própria criação.
Alexandre Machado Rosa é doutor em
Saúde Coletiva. Graduado e mestre em Educação Física, é professor do Instituto
Federal de São Paulo (IFSP).
[Ilustração: Vicente do Rego Monteiro]
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