24 junho 2026

Nosso futebol já foi o melhor

Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional
Apropriado pelas massas, criou um estilo próprio de jogo e ajudou a transformar o Brasil em potência mundial. Após três Copas conquistadas entre 1958 e 1970, deixou de ser um mero participante periférico para se tornar referência civilizatória no esporte mais popular do planeta
Alexandre Machado Rosa/Fundação Grabois  

O Brasil não nasceu potência do futebol. Tornou-se. E essa transformação exigiu que o esporte fosse arrancado das mãos das elites e apropriado pelas massas populares. Para que o país se transformasse em uma potência respeitável do futebol mundial, foi necessária a popularização radical do esporte em território nacional.

Inicialmente, o futebol foi confinado atrás das cercas dos clubes privados, reproduzindo hábitos sociais elitizados presentes em parte da sociedade inglesa da época. Contudo, diferentemente de modalidades como tênis, hipismo ou golfe, o futebol, na própria Inglaterra, rapidamente se tornou um esporte de massas, apropriado pelos trabalhadores urbanos das cidades industriais. Sua enorme simplicidade material, bastando uma bola e algum espaço livre, sendo organizado por poucas regras, favoreceu sua disseminação entre operários, jovens pobres e setores populares. No Brasil, porém, as elites tentaram inicialmente controlar e restringir o acesso ao novo esporte, retardando sua plena popularização entre as massas proletárias.

Assim como ocorreu na Inglaterra e na Argentina, trabalhadores urbanos, jovens pobres e populações periféricas rapidamente transformaram o esporte em patrimônio coletivo. No Brasil, pipocaram campos improvisados em várzeas, terrenos baldios, praias e ruas de terra. A ideia sustentada pelas elites de um esporte elitizado começou a ruir diante da força da apropriação do novo jogo pelas massas trabalhadoras.

Mesmo com os clubes oficiais ligados às elites proibindo explicitamente a participação de negros e pobres, o primeiro grande craque do futebol brasileiro foi justamente Arthur Friedenreich (1892-1969), considerado o primeiro grande ídolo nacional do esporte. Filho de pai alemão e mãe negra brasileira, Friedenreich tornou-se símbolo da contradição brasileira: um país profundamente racista que, ao mesmo tempo, via emergir no futebol uma linguagem popular impossível de ser contida pelas elites.

Cronistas e jornais na construção do futebol brasileiro

Em meio à invenção das tradições ligadas ao futebol brasileiro, surgiram também os cronistas esportivos. Intelectuais e jornalistas entraram em campo tentando compreender e decifrar a linguagem do novo passatempo popular.

Em 1931, o jornalista Argemiro Bulcão fundou o primeiro diário especializado em futebol, o Jornal dos Sports. Com sua primeira página cor-de-rosa, inaugurou uma nova etapa da crônica e do jornalismo esportivo no país. Em 1936, o diário foi comprado por Mário Filho, que posteriormente emprestaria seu nome ao estádio do Maracanã. Sob seu comando, o periódico tornou-se referência nacional na cobertura esportiva, especialmente do futebol. Ainda na década de 1930, em São Paulo, Thomaz Mazzoni impulsionou A Gazeta Esportiva, consolidando no eixo Rio-São Paulo dois dos principais jornais dedicados ao esporte no Brasil. Cronistas como Nelson Rodrigues e José Lins do Rego assumiram papel crucial durante a campanha pela Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil. Lins do Rego foi um árduo defensor da construção do estádio do Maracan&a tilde;.

Os cronistas perceberam gradualmente que os brasileiros estavam criando uma forma própria de jogar o association football — o futebol de associação, nome oficial dado pelos ingleses. A rigidez tática inglesa deu lugar à improvisação; a força física passou a conviver com a ginga; o jogo coletivo incorporou criatividade, drible e espontaneidade. O futebol brasileiro nasceu da mistura entre culturas populares urbanas, heranças africanas e experiências das classes trabalhadoras.

Intelectuais como Gilberto Freyre perceberam precocemente que o futebol brasileiro não reproduzia mecanicamente o modelo europeu. Em textos clássicos publicados nos anos 1930, Freyre associou o estilo brasileiro de jogar à mestiçagem cultural do país, destacando a ginga, a improvisação e a malícia corporal como expressões legítimas da formação social brasileira, embora essa interpretação muitas vezes tenha sido marcada por idealizações sobre a democracia racial no país. Décadas depois, Mário Filho aprofundaria essa interpretação ao narrar a popularização do futebol entre negros, trabalhadores e setores populares urbanos no célebre livro O Negro no Futebol Brasileiro (1947), obra que se tornaria um dos maiores cl ássicos da historiografia esportiva nacional.

Como diria Eric Hobsbawm, o futebol brasileiro também produziu suas próprias “tradições inventadas”: símbolos, narrativas, heróis e estilos de jogo que ajudaram a consolidar um sentimento coletivo de identidade nacional ao longo do século XX. Não por acaso, o futebol transformou-se em um dos maiores símbolos da identidade brasileira na modernidade.

Do estilo brasileiro ao reconhecimento mundial

Entre 1958 e 1970, o Brasil conquistou três Copas do Mundo em apenas doze anos. Garrincha, Pelé, Didi, Nilton Santos, Tostão, Jairzinho e Rivellino não eram apenas jogadores extraordinários; representavam uma escola de futebol admirada globalmente. O Brasil deixou de ser um mero participante periférico para se tornar referência civilizatória no esporte mais popular do planeta.

Mas, depois de 1970, o país que reinventou o futebol começaria lentamente a perder o controle sobre sua própria criação.

Alexandre Machado Rosa é doutor em Saúde Coletiva. Graduado e mestre em Educação Física, é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).

[Ilustração: Vicente do Rego Monteiro]

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