O auge e o início da
decadência do futebol brasileiro
A crise estrutural do futebol
brasileiro não começou recentemente, mas teve suas origens ainda nos anos 1970,
justamente no período em que o Brasil alcançava o auge de seu prestígio
esportivo com a conquista do tricampeonato mundial na Copa do México
Alexandre
Machado Rosa/Portal Grabois
A crise estrutural do
futebol brasileiro começou a se manifestar ainda na década de 1970. E isso
constitui um dos maiores paradoxos da história esportiva nacional, pois foi
justamente no auge simbólico da conquista da Copa do Mundo de 1970 que o
futebol brasileiro iniciou um lento processo de decadência técnica,
institucional e cultural.
Um dos impulsionadores do
início da decadência foi a ditadura militar apropriar-se politicamente daquela
conquista como instrumento de propaganda nacionalista. O regime utilizou a
euforia popular para fortalecer a ideia de um “Brasil grande”, moderno e
vitorioso, ocultando a repressão política, a censura e a violência de Estado. O
futebol passou a ser tratado como questão estratégica de governo. A derrubada
de João Saldanha do
comando da seleção em 1970 era o indício de que algo não estava indo bem.
Contudo, a seleção
tricampeã no México representou o ápice do chamado “futebol-arte”. O Brasil
construiu sua identidade futebolística a partir da genialidade individual,
consagrada na figura de Pelé, o Rei do Futebol. O país se consagrou
mundialmente pela capacidade de produzir jogadores habilidosos, criativos e
imprevisíveis, capazes de decidir partidas em jogadas de improviso, dribles
rápidos e soluções intuitivas.
Após 1970, a interferência
política na Confederação Brasileira de Desportos (CBD) intensificou-se. A
preparação para a Copa do Mundo de 1974 foi marcada por excessiva rigidez
disciplinar, militarização da comissão técnica e obsessão por métodos físicos
inspirados em modelos europeus. O resultado foi uma seleção excessivamente
rígida taticamente, menos criativa e distante da liberdade técnica que havia
encantado o mundo quatro anos antes. O Brasil terminou apenas em quarto lugar,
enquanto o planeta assistia ao surgimento do “Carrossel Holandês” liderado por
Johan Cruyff.
A Copa de 1974 representou
uma ruptura simbólica importante. O futebol brasileiro passou a ser visto como
tecnicamente ultrapassado diante da evolução tática europeia. O chamado
“futebol total” holandês revolucionou conceitos de ocupação de espaço,
intensidade física e movimentação coletiva. A partir daquele momento,
dirigentes, técnicos e parte da imprensa esportiva passaram a defender uma
espécie de “europeização” do futebol nacional.
Iniciou-se então uma
tentativa contraditória de abrasileirar esquemas europeus sem compreender
plenamente suas bases culturais e organizacionais. O problema não residia
propriamente na assimilação de inovações táticas internacionais, mas na
incorporação acrítica de modelos que frequentemente ignoravam as
características históricas e culturais do futebol brasileiro. O resultado foi
um conflito permanente entre identidade e pragmatismo. O Brasil começou a
abandonar progressivamente elementos centrais de sua tradição futebolística. A
improvisação, o drible, a criatividade e a liberdade técnica foram trocadas em
nome de um futebol mais físico, defensivo e mecanizado.
A crise aprofundou-se com o encerramento da chamada “Era Pelé”. Quando o maior
jogador da história despediu-se da Seleção Brasileira em 1971, encerrava-se
também um ciclo simbólico de confiança nacional no futebol como expressão
máxima da genialidade brasileira. Sem Pelé, o país perdeu não apenas um craque,
mas um eixo organizador de sua identidade esportiva.
Ao mesmo tempo, os
problemas estruturais do futebol brasileiro tornavam-se mais evidentes. Os
campeonatos nacionais eram desorganizados, inchados e frequentemente
subordinados a interesses políticos regionais. A ausência de planejamento
financeiro consolidava administrações amadoras e patrimonialistas nos clubes.
Presidentes agiam como donos das instituições, reproduzindo práticas
clientelistas profundamente arraigadas na cultura política brasileira.
O cenário econômico
nacional também contribuiu para o processo de decadência. O chamado “Milagre
Econômico” chegou ao fim em meio à crise internacional do
petróleo e ao aumento da inflação. A recessão da segunda metade da década de
1970 afetou diretamente o consumo popular, inclusive a frequência aos estádios.
O futebol deixava gradualmente de ser espaço central de convivência das classes
trabalhadoras urbanas.
Paralelamente, o aumento da
violência nos estádios afastava famílias e ampliava a sensação de insegurança.
A precariedade da infraestrutura, a ausência de políticas de segurança pública
e o crescimento das torcidas organizadas sob lógica de confronto contribuíram
para deteriorar o ambiente do futebol brasileiro.
Enquanto isso, a Europa iniciava um amplo processo de modernização esportiva. Clubes europeus passaram a investir em ciência do esporte, categorias de base, gestão profissional e infraestrutura. O Brasil, ao contrário, permaneceu preso ao improviso administrativo e à dependência da genialidade individual de seus jogadores.
[Ilustração: Gustavo Rosa]
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Anarquia
criativa e racional no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/futebol.html

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