Olhem-se no espelho da pátria
A desconexão entre os atletas milionários e a realidade
social do país converte o futebol de paixão coletiva em um espetáculo de
vaidades e alienação cívica
Luiz Marques*/A Terra é Redonda
1.
Na
música Nos
bailes da vida (1981), composta pela dupla Fernando Brant e
Milton Nascimento, se destacam os versos “Todo artista tem de ir aonde o povo
está / Se foi assim / Assim será”, que se tornou um hino para todos os músicos
na década de oitenta. Chama atenção para a necessidade da perseverança na
profissão. “Cantar era buscar o caminho / Que vai dar no Sol”.
O
subcomandante Marcos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN, 1994)
não se apresenta como comandante. Este é o povo, na tradição nascida com os
jacobinos. Assume o nome de um missionário com militância na região de Chiapas
para homenagear vítimas da repressão policial. Comunica-se através de metáforas
comuns nas relações entre os indígenas. Revela a importância de uma identidade
com o local para conquistar o seu apoio.
O
filme Invictus (2009),
dirigido por Clint Eastwood, sobre Nelson Mandela (Morgan Freeman) e o capitão
da seleção de Rugby François Pienaar (Matt Damon), é um manual de psicologia da
política aplicado ao esporte. O título remete a um poema de Willian Ernest
Henley cujos versos finais (“Sou o senhor do meu destino. Sou o condutor de
minha alma”) inspira o líder da luta contra o Apartheid nos vinte e
sete anos em que esteve preso.
A
narrativa aborda o modo como o presidente da África do Sul procura influenciar
o representante do time para que seu elenco desenvolva um espírito de
resiliência e uma consciência coletiva para enfrentar os desafios da Copa
Mundial de Rugby. A seleção formada na quase totalidade por jogadores brancos é
levada até um campo de areão na periferia, onde mantêm contato com crianças
pretas pobres que os veem na condição de ídolos. Passam a entender sua
responsabilidade no processo de unificação da população sul-africana.
O
prefeito recém-eleito de Nova York (2026) Zohran Mamdani após a jornada de
trabalho volta para casa a pé, caminhando pelas ruas para não perder o contato
com os moradores da cidade. Combate a excessiva institucionalização, imposta
pelas funções no cargo, preservando o sentimento de pertencimento aos hábitos
de um cidadão comum na labuta diária pelo pão.
2.
Não
se trata de amalgamar os indivíduos em um comunitarismo. Indivíduos são
indivisíveis e irredutíveis uns aos outros. Tampouco se trata de fazê-los uma
peça de um organismo social. Sua vocação é a independência. Indivíduos não
podem e não desejam se dissolver em um holismo (holos, um tudo). Seus fins
particulares devem ser respeitados, ou não teríamos arte e literatura.
Indivíduos
possuem uma personalidade. Porém, isso não implica o elogio ingênuo das
ideologias personalistas ou solipsistas que se opõem à vida social por fechar
cada um em uma concha isolada. Também não conduz, por qualquer lógica, à
aceitação da existência conformista num círculo privado.
A
configuração do individualismo com frequência combina o tipo sociológico (vide
condomínios murados) e o político (pela adesão à extrema direita). As inflexões
nacionais afirmativas da individualidade distinguem, por exemplo, as formas
alemãs (educação interior de si), inglesas (a privacy, o self-ownership),
francesas (a universalidade na igualdade) e brasileiras. A saber, a primazia
dos familiares e amigos às expensas do interesse geral, sintetizada por Sérgio
Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, no
“homem cordial”.
O
neoliberalismo, por seu turno, mistura as tradições clássicas no
liquidificador, para injetar a dinâmica do empreendedorismo empresarial na
subjetividade dos indivíduos. O objetivo é competir e lucrar individualmente, o
que é vivenciado como uma “vitória” na corrida pelo sucesso. Então os
indivíduos se desgarram dos propósitos compartilhados que exigem solidariedade.
3.
O
distanciamento afetivo e emocional da seleção em face do povo brasileiro está
caracterizado na esquete de Marcelo de Adnet, disponível na internet no day
after da eliminação dos canarinhos. É deprimente a ostentação
econômica e a falta de cultura cívica dos atletas, que sequer em catástrofes
(enchentes, secas) sentem empatia com os vulneráveis. A maioria não hesita em
fazer o pacto fáustico com as Bets, agravando os
problemas de saúde pública.
A
mídia corporativa bate cabeça. Apoiou a contratação do “melhor técnico do
mundo” (leia-se do Real Madri) que, aos sessenta e quatro anos, nunca treinara
uma seleção nacional. Carlo Ancelotti desconhece a aldeia. Descobriu que não
tinha batedor de escanteio, já nos Estados Unidos. Sua contratação deve-se à
síndrome de vira-lata que, a priori, desvaloriza os
talentos nativos e supervaloriza o Prometeu que vem do Norte para salvar os
medíocres.
No
segundo tempo contra a Noruega mexeu no esquema tático para colocar em campo…
Neymar. Estava zero a zero. A partir daí o Brasil não se encontrou mais na
partida, e tomou dois gols dos vikings. O curioso é
que contra o Japão, Carlo Ancelotti não fez essa alteração, e ganhou. Agora
atendeu a um misterioso clamor. Seria uma atitude digna e ética se o “Mister”
pedisse a demissão na CBF. Sua aventura expôs nossas deficiências, não nossas
virtudes. Arrivederci.
Para
completar, Neymar na folga durante a “maior copa de futebol” compra um relógio
de luxo, por hum milhão de dólares. O “pequeno cafajeste”, na expressão do jornalista
Juca Kfouri, que há tempos um ex-jogador em atividade é a referência preferida
de parcela significativa da crítica especializada, na imprensa. Por seis meses
pautou debates sobre se deveria ou não ser convocado. Não deveria, conclui-se.
Na confusão que provoca ao fim do fiasco, sai de fininho e abandona os
companheiros. Faz de conta que não é com ele.
A
safra geracional futebolística fica pior sem visão de brasilidade e
instituições que invistam em valores republicanos para formar jogadores-cidadãos,
com um envolvimento na realidade social e política da nação. É preciso que os
apáticos representantes de chuteiras se olhem no espelho da pátria para se
reinventar na vida e nos estádios. O dinheiro não compra dignidade.
*Luiz Marques é professor de Ciência
política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ex-Secretário de
Estado da Cultura (Governo Olívio Dutra).
[Ilustração: Hubert Andrew Freeth]
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