Gianni Infantino e Donald Trump
O “FIFA Peace Prize” concedido a Donald Trump tornou-se o
símbolo das contradições da Copa de 2026: entre guerras, fronteiras e apostas,
a FIFA aproximou o futebol das disputas da geopolítica contemporânea
Marco Bettine*/A
Terra é Redonda
A promessa do United
Quando
a FIFA anunciou que a Copa do Mundo de 2026 seria realizada conjuntamente por
Estados Unidos, Canadá e México, apresentou a candidatura sob um nome carregado
de significado político: United 2026. A escolha
ultrapassava uma estratégia de marketing esportivo.
Ela condensava um imaginário cosmopolita fundado na integração regional, na
livre circulação de pessoas e na cooperação entre Estados.
Ao
adotar posteriormente o lema United As One, a FIFA
projetava a imagem de uma América do Norte capaz de relativizar fronteiras
nacionais em favor de um espaço compartilhado de convivência e intercâmbio. O
futebol deixava de representar apenas uma competição esportiva para tornar-se a
linguagem simbólica de uma determinada visão da globalização.
Zygmunt
Bauman sinalizava que a ideia de circulação global é profundamente desigual, a
Copa de 2026 tornou visível essa assimetria: enquanto capitais, plataformas
digitais e mercados atravessam fronteiras com facilidade crescente, pessoas
continuam submetidas a filtros políticos, econômicos e geopolíticos.
A
força simbólica dessa candidatura residia justamente na capacidade de converter
uma decisão organizacional em uma narrativa política. A Copa era apresentada
não apenas como um torneio disputado em três países, mas como um projeto de
integração continental que atribuía ao futebol um papel de mediação entre
sociedades, culturas e fronteiras. A promessa do United não consistia
apenas em realizar a maior Copa da história, mas em oferecer uma representação
otimista da globalização em um momento de crescente fragmentação da ordem
internacional.
Enquanto
o presidente da FIFA Gianni Infantino projetava uma imagem de integração
continental, os Estados Unidos, sob o trumpismo, levantava a bandeira do
programa America
First; do fortalecimento das fronteiras e da restrição aos
fluxos migratórios.
A United também
respondia a uma necessidade interna da própria FIFA. A entidade atravessava uma
das maiores crises de sua história desde que, em 2015, investigações
internacionais revelaram um amplo esquema de corrupção envolvendo dirigentes,
contratos comerciais e o processo de escolha das sedes da Copa do Mundo. O
escândalo não abalou apenas a imagem de seus dirigentes; colocou em questão a
legitimidade da organização responsável por governar o futebol mundial. Em
termos weberianos, tratava-se de uma crise da autoridade institucional. Estava
em jogo a erosão do capital simbólico que permitia à FIFA apresentar-se como
única representante do futebol oficial.
Foi
nesse contexto que, em junho de 2018, durante o 68º. Congresso da FIFA, em
Moscou, a candidatura United 2026 derrotou
Marrocos. A decisão possuía um significado que ultrapassava a definição do país
anfitrião. Ao optar por uma candidatura conjunta, baseada na cooperação entre
três Estados soberanos, a FIFA procurava demonstrar que também ela era capaz de
inaugurar um novo ciclo de legitimidade, transparência e abertura
internacional.
A escolha do United deve ser compreendida, portanto, como parte da estratégia de reconstrução da própria autoridade da FIFA. A candidatura não simbolizava apenas uma forma inovadora de organizar a Copa do Mundo; ela permitia à entidade associar sua renovação institucional a uma narrativa de integração regional, cooperação política e abertura cosmopolita.
A convergência entre
futebol e poder
A
relação entre Gianni Infantino e Donald Trump tornou-se um dos aspectos mais
marcantes da Copa do Mundo de 2026. Longe de representar apenas uma aproximação
pessoal entre o presidente da FIFA e o presidente dos Estados Unidos, essa
relação revela uma convergência de interesses entre a principal organização do
futebol mundial e o poder político da maior potência econômica do planeta.
O
primeiro passo dessa aproximação ocorreu após a escolha da candidatura conjunta
de Estados Unidos, Canadá e México para sediar a Copa de 2026. A partir desse
momento, Gianni Infantino passou a tratar a Casa Branca como parceira
estratégica da organização do torneio. Segundo a New York Magazine, um dos
encontros decisivos entre Gianni Infantino e Donald Trump ocorreu no Salão Oval
e foi articulado por Jared Kushner, genro do presidente norte-americano, e por
Carlos Cordeiro, então presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos. A
partir daí a relação deixou de ser protocolar para assumir um caráter
permanente.
Com
o retorno de Donald Trump à presidência, essa proximidade tornou-se ainda mais
explícita. Gianni Infantino passou a defender publicamente que a realização de
uma Copa do Mundo em território norte-americano exigia cooperação direta com a
Casa Branca. Em entrevista ao The Guardian, afirmou
manter “uma ótima relação” com Donald Trump e declarou que, sem o apoio do
governo norte-americano, seria praticamente impossível organizar um evento da
dimensão da Copa do Mundo.
Ao
longo de 2025 e 2026, a relação ganhou forte dimensão simbólica. Gianni
Infantino participou da cerimônia de posse de Donald Trump, reuniu-se diversas
vezes com o presidente na Flórida e na Casa Branca, apresentou-lhe os
principais troféus da FIFA e, durante um desses encontros, declarou: “Faremos
isso juntos, senhor presidente”, em referência à organização dos grandes
torneios da entidade em solo norte-americano.
O
gesto mais emblemático dessa aproximação ocorreu durante o sorteio final da
Copa de 2026, quando Donald Trump recebeu de Gianni Infantino o primeiro FIFA Peace
Prize, uma homenagem que provocou intenso debate internacional
diante das controvérsias envolvendo a política bélica e migratória do governo
norte-americano.
Essa
aproximação expressa uma convergência de interesses mais ampla. A FIFA
necessitava do apoio do Estado norte-americano para garantir segurança,
infraestrutura, logística, concessão de vistos e estabilidade institucional
para o evento esportivo. Donald Trump, por sua vez, identificou na Copa uma
oportunidade singular de ampliar sua projeção internacional e converter o
enorme capital simbólico do futebol em capital político.
Nesse sentido, a Copa de 2026 deixou de ser apenas um megaevento esportivo para tornar-se também um espaço de negociação entre esporte, Estado e poder, evidenciando como o futebol contemporâneo passou a integrar, de forma cada vez mais explícita, as estratégias de projeção geopolítica dos governos e das organizações esportivas globais.
Da promessa cosmopolita ao
endurecimento das fronteiras
A
narrativa construída em torno do United 2026 começou a
desfazer-se poucos anos após a escolha da sede. A candidatura que simbolizava
integração regional, circulação e cooperação passou a conviver com um cenário
internacional marcado pelo fortalecimento do nacionalismo, pelo endurecimento
das políticas migratórias e pela crescente centralidade da segurança nacional.
Em lugar da abertura prometida pela FIFA, a preparação da Copa passou a ser
condicionada por disputas geopolíticas que extrapolavam o universo do esporte.
O
retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos acelerou esse
processo. Sua administração retomou políticas de nacionalismo econômico,
ampliou tarifas comerciais, revisou acordos com Canadá e México, fortaleceu as
operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e
endureceu as restrições de entrada para cidadãos de dezenas de países. Em junho
de 2026, ao afirmar que os Estados Unidos não dependeriam economicamente de
seus dois vizinhos, Trump reafirmava uma concepção de soberania incompatível
com a ideia de integração continental celebrada pela candidatura United.
Nesse
contexto, também se transformou a relação entre a FIFA e a Casa Branca. Sob a
presidência de Gianni Infantino, a entidade abandonou a distância institucional
que historicamente procurava manter em relação aos governos nacionais e passou
a construir uma afinidade eletiva com o presidente norte-americano. O FIFA
Peace Prize – Football Unites the World é somente uma
demonstração da subjugação da FIFA aos desejos do presidente insano. A
homenagem provocou críticas internacionais tanto pela ausência de critérios
transparentes quanto pelo contraste entre a retórica da paz e a política bélica
dos Estados Unidos, marcada pela escalada das tensões com o Irã e pelo
endurecimento das políticas migratórias.
As
consequências desse novo contexto rapidamente passaram a afetar a própria
organização do torneio. Segundo a Amnesty International,
mais de 500 mil pessoas foram deportadas em 2025, enquanto as prisões
realizadas diretamente nas ruas aumentaram onze vezes, o número de crianças
mantidas em centros de detenção do ICE multiplicou-se por seis e a capacidade
do sistema de detenção aproximou-se de 90 mil pessoas. Ao mesmo tempo, o Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos solicitou investigações
independentes após o registro de dezenas de mortes sob custódia migratória,
enquanto relatórios da Human Rights Watch e
da Physicians
for Human Rights denunciaram violência física, confinamento
prolongado e graves deficiências no atendimento médico aos detidos.
Os
efeitos dessa reconfiguração tornaram-se imediatamente perceptíveis. Na véspera
da abertura da Copa, ao ser questionado sobre as dificuldades para obtenção de
vistos, Donald Trump afirmou que sua administração trabalhava para garantir a
entrada das “pessoas certas” (the right people) nos
Estados Unidos. A declaração rompeu simbolicamente com um dos pressupostos
históricos da Copa do Mundo: a ideia de que o torneio constitui um espaço
excepcional de circulação internacional.
A
percepção de que a Copa havia se tornado parte desse cenário extrapolou
rapidamente os meios acadêmicos e passou a ocupar o centro da cobertura da
grande imprensa internacional. Na reportagem “How the World Cup Became a Front Line
for the U.S. Immigration Debate” (“Como a Copa do Mundo se tornou a
linha de frente do debate migratório nos Estados Unidos”), o The
Washington Post mostrou que comunidades migrantes passaram a
temer operações do ICE nas cidades-sede e organizaram redes de assistência
jurídica para torcedores estrangeiros.
O
jornal The
Guardian foi ainda mais contundente ao publicar o artigo “Welcome
to Trump’s World Cup, a depressingly angry version of football uniting the
planet” (“Bem-vindos à Copa de Trump, uma versão deprimente e
raivosa do futebol que une o planeta”). O próprio título sintetiza a inversão
simbólica do torneio: o evento que a FIFA apresentou como um projeto de
integração continental passou a ser interpretado como um dos principais palcos
de projeção política do trumpismo.
Dias
depois, o mesmo The Guardian voltou ao tema na
reportagem “We
Want Fans to Know the Risks: US Immigrant Rights Groups Mobilize Across World
Cup Host Cities Amid ICE Fears” (“Queremos que os torcedores
conheçam os riscos: grupos de defesa dos direitos dos imigrantes se mobilizam
nas cidades-sede da Copa diante do temor de ações do ICE”), revelando que
organizações comunitárias estruturavam redes de acolhimento e resposta rápida
para visitantes sujeitos a detenções e abordagens migratórias.
Paralelamente,
mais de 120 organizações da sociedade civil divulgaram um inédito Travel
Advisory (“Alerta de Viagem”), advertindo turistas e
torcedores sobre riscos de perfilamento racial, inspeções de aparelhos
eletrônicos, detenções arbitrárias e deportações. O contraste dificilmente
poderia ser maior: enquanto a FIFA promovia a Copa como uma celebração da livre
circulação e do encontro entre povos, parte significativa da imprensa
internacional descrevia um torneio em que atravessar a fronteira podia se
tornar tão decisivo quanto atravessar a linha do meio-campo.
Nenhum
episódio simbolizou melhor essa mudança do que a participação do Irã. Embora a
FIFA tenha assegurado o ingresso dos atletas e das delegações oficiais,
familiares, jornalistas e torcedores permaneceram submetidos às restrições
impostas pelo governo norte-americano, enquanto a equipe iraniana passou a
operar sob protocolos especiais de deslocamento entre México e Estados Unidos.
A
situação tornou-se ainda mais dramática porque o torneio coincidiu com a
ampliação do envolvimento militar norte-americano no conflito contra o Irã.
Estimativas internacionais apontavam para milhares de mortos, mais de dois mil
civis entre as vítimas e milhões de deslocados. Pela primeira vez, uma seleção
chegava à Copa cercada não apenas por expectativas esportivas, mas pelas
consequências imediatas de uma guerra conduzida pelo principal país anfitrião.
O
contexto regional tornava essa situação ainda mais dramática. Desde o início de
2026, os Estados Unidos ampliaram seu envolvimento direto na ofensiva militar
contra o Irã, ao lado de Israel, autorizando ataques a instalações estratégicas
e aprofundando sua participação no conflito. Estimativas divulgadas por
organismos internacionais e centros independentes de pesquisa apontavam para
mais de 3.600 iranianos mortos, dos quais mais de 2.100 civis, além de aproximadamente
3,2 milhões de pessoas deslocadas em consequência dos bombardeios e das
operações militares. A guerra projetava sua sombra sobre um torneio concebido
precisamente para celebrar a integração entre povos.
Ao final, o contraste era inevitável. A Copa concebida para simbolizar uma América do Norte integrada realizava-se sob a sombra de fronteiras militarizadas, deportações em massa, guerras, restrições à mobilidade e crescente polarização política. O lema United As One permanecia como linguagem oficial da FIFA; a experiência concreta do torneio, entretanto, apontava em outra direção.
A esfera pública do
futebol em disputa
Os
acontecimentos que cercaram a Copa de 2026 revelam uma transformação que
ultrapassa a politização de um megaevento esportivo. O que se modifica é a
própria posição da FIFA na ordem internacional contemporânea. Durante décadas,
a entidade apresentou o futebol como patrimônio da humanidade, mobilizando uma
linguagem fundada na paz, na integração, na diversidade e na cooperação entre os
povos. Esses valores não desapareceram. Permaneceram como discurso oficial da
instituição.
O
que mudou foi sua função política. Em vez de operarem apenas como princípios
normativos, passaram a integrar uma estratégia de produção de legitimidade em
um cenário marcado pela crescente convergência entre Estado, mercado e
comunicação global.
A
autoridade da FIFA nunca dependeu exclusivamente de sua capacidade de organizar
competições, mas da crença socialmente compartilhada de que representa um bem
cultural universal. É precisamente esse reconhecimento que confere à entidade
uma influência que ultrapassa o campo esportivo. Quando a FIFA, por meio de
Gianni Infantino, aproxima sua imagem institucional da administração de Donald
Trump, concede ao presidente norte-americano o prêmio da paz e evita confrontar
publicamente políticas migratórias e ações militares que contradizem sua
retórica de integração, ela coloca esse patrimônio simbólico a serviço da
construção de legitimidade de um projeto necropolítico.
É
nesse ponto que a leitura habermasiana se torna interessante. A Copa do Mundo
constitui uma das maiores esferas públicas transnacionais da contemporaneidade,
reunindo bilhões de pessoas em torno de símbolos compartilhados e de uma
experiência comunicativa de alcance global. Sua legitimidade decorre justamente
da pretensão de universalidade. Entretanto, como argumenta Jürgen Habermas,
nenhuma esfera pública permanece imune à colonização pelos sistemas (poder e
dinheiro).
A
Copa de 2026 evidencia esse processo. A aproximação entre FIFA e governo
norte-americano, somada à crescente centralidade do mercado global das apostas
esportivas, mostra que a comunicação orientada pelo entendimento passa a ceder
espaço às racionalidades estratégicas do Estado e do mercado.
Essa
reconfiguração também pode ser compreendida à luz de Antonio Gramsci. A
hegemonia não se estabelece apenas pela coerção, mas pela capacidade de
construir consenso e naturalizar determinadas representações da realidade. Ao
preservar a retórica da integração enquanto silenciava diante das fronteiras
militarizadas, das guerras, das deportações e das restrições à mobilidade
internacional, a FIFA contribuiu para produzir uma imagem conciliadora de uma
ordem profundamente desigual.
Essa
lógica aproxima-se da crítica formulada por Guy Debord à sociedade do
espetáculo. O espetáculo não elimina as contradições; reorganiza-as em imagens
capazes de produzir adesão. O lema United As One, as
cerimônias oficiais, os discursos sobre paz e diversidade e a celebração da integração
continental permaneceram como imagens centrais da Copa de 2026. Ao mesmo tempo,
fronteiras militarizadas, deportações, guerras, restrições migratórias e
financeirização do torneio deixavam de ocupar o centro da narrativa oficial.
A
FIFA deixa de ser exclusivamente a organizadora do maior espetáculo esportivo
do planeta para afirmar-se como um ator capaz de distribuir reconhecimento,
produzir legitimidade e intervir na disputa contemporânea pela hegemonia.
O
paradoxo da Copa de 2026 reside exatamente aí. O torneio concebido para
celebrar uma América do Norte unida acabou expondo, com rara intensidade, as
fraturas da ordem internacional contemporânea. Entre fronteiras militarizadas e
promessas de integração, entre guerras e discursos de paz, entre a comunicação
global do esporte e sua crescente financeirização, a Copa mostrou que o
universalismo do futebol não desapareceu, mas tornou-se um terreno permanente
de disputa.
Talvez
seja essa a principal novidade histórica desta edição: o futebol deixou de ser
apenas um espelho da geopolítica para converter-se em um dos espaços onde a
própria geopolítica passa a ser produzida, legitimada e contestada.
*Marco Bettine é professor da
Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP).
Qual
a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo

Nenhum comentário:
Postar um comentário