As críticas ao programa Bolsa Família
A tentativa de deslegitimar programas sociais
serve como cortina de fumaça para ocultar os reais obstáculos ao crescimento,
como a política de juros que asfixia investimentos
Roberto
Vital Anav*/A Terra é Redonda
1.
Recentemente, um animador de programas de TV, com grande audiência
– que chegou a cogitar lançar-se à Presidência da República – afirmou, durante
o 5º. Fórum Esfera no Guarujá (SP), que o Programa Bolsa Família falha em gerar
estímulo para que as famílias superem a pobreza e que os beneficiários criariam
“atalhos” para continuar recebendo o benefício.
A declaração repercutiu na mídia e nas redes sociais, reacendendo
antiga polêmica. Esta se prolonga desde a criação do Programa há mais de duas
décadas. O debate, no início, era normal, em vista da novidade do programa e
das visões filosóficas e programáticas diversas existentes sobre o combate à
pobreza extrema. Na atualidade, dados abundantes permitem sair do terreno
genérico, do aplauso acrítico e do ataque meramente opinativo para a avaliação
fundamentada.
Alguém com a responsabilidade de exercer influência sobre milhões
de telespectadores, ainda mais tendo cogitado disputar a gestão presidencial,
tem obrigatoriamente que dominar as numerosas informações existentes para
avaliar um programa já consolidado há tempo.
No entanto, a fala de Luciano Huck não demonstrou qualquer
conhecimento de fartos dados disponíveis. O que se ouviu foram apenas opiniões
baseadas em preconceitos arraigados em amplos segmentos da elite social
brasileira contra os mais pobres – infelizmente, repetidos por parcela
expressiva da classe média que gosta de espelhar-se na tosca burguesia
brasileira.
Teria sido muito fácil ao apresentador, até valendo-se de seus
numerosos auxiliares, coletar dados e informações disponíveis a qualquer
cidadão com interesse em informar-se sobre as políticas públicas existentes no
Brasil. Um exemplo recente é o estudo “Filhos do Bolsa Família”, realizado pela
Fundação Getúlio Vargas (FGV), órgão acadêmico e de pesquisas de grande
prestígio e respeitabilidade, para o Ministério do Desenvolvimento e
Assistência Social.
Em breve síntese, o estudo demonstrou que mais de 60% dos
beneficiários de 2014 deixaram o programa até 2025. A razão foi a conquista de
melhores fontes de renda e, portanto, o abandono da condição precária que
habilita ao programa. A saída foi mais elevada para os que eram adolescentes em
2014: 68,8% na faixa de 11–14 anos e 71,3% na faixa de 15–17 anos. Também se
constatou a saída expressiva do Cadastro Único e aumento da inserção no mercado
formal, o que indica maior autonomia e mobilidade socioeconômica por parte
desses beneficiários.
Por outro lado, fatores geoeconômicos (regiões com atividades
econômicas mais e menos dinâmicas), nível escolar da família, etnia, gênero,
condições de moradia, continuam a diferenciar os resultados, tornando o
programa ainda essencial para aqueles mais prejudicados pelos atributos
citados. Ou seja, a um só tempo, observa-se o efeito positivo e os desafios que
ainda devem ser enfrentados para atingirmos melhores resultados.
O que não se observa no estudo é justamente a estagnação
generalizada na pobreza, atribuída por Luciano Huck e muitos dos críticos do
programa.
2.
Nota-se, em muitas críticas, o inconformismo com o fato de muitos
beneficiários recusarem trabalhos que pagam salários irrisórios, uma vez que já
recebem baixos valores pelo programa e não teriam vantagem financeira
significativa na troca. O que essas críticas indicam é um mecanismo auto
revelador sobre seus autores: a sombra persistente do escravagismo, do qual
fomos um dos últimos países a sair. Segundo esses críticos, os cidadãos muito
pobres deveriam expressar gratidão a quem lhes oferecesse o equivalente a um
prato de comida em troca de trabalho exaustivo.
Não cogitam, os inconformados críticos, de testar se ofertas mais
compensadoras de remuneração e jornada não gerariam outra atitude. O resultado
apurado pelo estudo da FGV permite afirmar que sim, ao menos em grande parte
dos casos. O programa torna as pessoas um pouco (muito pouco, na verdade), mais
seletivas, recusando salários de fome. Mas isso, para pessoas presas à mentalidade
de que os pobres só merecem esmola ou trabalho semiescravo, seria um privilégio
inaceitável.
Ocorre também um efeito completamente desconsiderado pelos mesmos
críticos, embora simples de entender. O PBF ativa o consumo das famílias
beneficiárias. O consumo amplia a demanda e com ela, a produção e o emprego. Em
certas regiões do país, economias de microrregiões e até mesorregiões são
fortemente influenciadas pelos beneficiários do programa. Porém, mesmo em
localidades mais distantes o efeito acaba chegando sobre a produção de bens
populares (agrícolas e industriais), além do comércio.
Um dado mais atualizado permite agregar percepções adicionais
sobre o efeito benéfico do PBF. O Brasil atingiu, pela primeira vez na sua
história, o nível muito alto de desenvolvimento humano, de acordo com o
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Ultrapassamos, finalmente, o
limite de 0,8 para o Índice de Desenvolvimento Humano, patamar que caracteriza
os países desse nível mais elevado. E o PBF tem forte influência nessa
conquista.
A economista Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de
Desenvolvimento Humano do escritório do PNUD no Brasil, que participou da
elaboração da pesquisa, afirmou: “Quando a gente desagrega os dados por décimo
de renda, ou seja, os 10% mais pobres, depois os 20% mais pobres, [onde há
maior] importância desses programas: nesses décimos de renda é onde você vê a
melhoria dos indicadores de educação, nesse período”. “É o programa Bolsa
Família que retira uma quantidade enorme de crianças do mundo do trabalho e dá
a elas a condição da escola –e a obrigatoriedade, também, de estar na escola,
porque senão esse programa é interrompido”. (UOL, 26/5/26)
3.
Registre-se que aqui também, nos dados do IDH, verifica-se tanto o
efeito benéfico do PBF e de outras políticas públicas – em especial, o SUS -,
quanto os desafios que permanecem, para atingirmos efetivamente patamares mais
desenvolvidos.
O IDH possui três componentes: longevidade – resultado direto das
condições de saúde da população –, educação e renda. O primeiro é o mais
elevado dos três; sofreu forte queda na pandemia, mas voltou a se recuperar.
Com todas as dificuldades do SUS, alvo de persistente desfinanciamento, com
maior intensidade nos mandatos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, é notável como
evoluiu a expectativa de vida dos brasileiros ao longo deste período de
existência de um dos maiores programas públicos de saúde do mundo.
Nos últimos anos, a educação teve papel de maior liderança no
crescimento do IDH. Enquanto isso, a renda tem sido o fator de inércia: não
cresceu no período pós-impeachment e voltou a crescer, porém lentamente, desde
a saída da pandemia.
Este último fator (renda) possui raízes mais profundas nos
desafios que o Brasil luta para enfrentar, ainda com resultados insuficientes.
A desindustrialização e a concentração em atividades de baixo valor agregado –
apesar do acervo de pesquisadores científicos e centros de pesquisas,
universidades etc. –, evidencia que a perda de diversidade e complexidade
econômica tem pesado muito na estagnação ou evolução muito lenta da renda. Em
todo caso, trata-se de questões desvinculadas do suposto “problema” de
programas sociais como o Bolsa Família.
Talvez, uma reflexão menos preconceituosa e mais disposta a
encarar e sugerir respostas aos verdadeiros desafios existentes pudesse trazer
mais luz ao debate. Problemas reais, como a baixa renda decorrente de uma
economia reprimarizada, um sistema de saúde subfinanciado (embora parcialmente
recuperado a partir de 2023) e a incontestável necessidade de elevar em muitos
graus a qualidade do ensino público básico, além de alcançar a universalização
do ensino médio, devem ser amplamente debatidos.
Eles envolvem todo um conjunto de temas, a começar pela política
monetária que asfixia o investimento público (motor do crescimento econômico
brasileiro ao longo do século XX) e o próprio orçamento público, afetando as
políticas sociais. O que requer refutar cabalmente o falso (para nossa
situação) argumento de que o combate à inflação requer taxas astronômicas de
juros. Ao contrário, elas deprimem a demanda e desestimulam a produção e o
investimento, além de sobrecarregar a dívida pública.
Dessa forma, gera-se perverso círculo vicioso argumentativo:
exige-se cortar os gastos sociais para baixar a dívida, mantendo intacto o dreno
dos impostos pagos pela sociedade para beneficiar a oligarquia financeira
parasitária, com lucros do financiamento da mesma dívida, sem contribuir em um
centavo para a produção de bens e serviços. E aí, a crítica sem fundamento a um
dos maiores programas assistenciais do mundo serve de instrumento auxiliar
dessa estratégia regressiva e antipopular.
Infelizmente, não parece nada realista esperar postura não
preconceituosa e aberta aos problemas reais, por parte do ex-quase candidato a
Presidente do Brasil e aos (infelizmente, muitos) que opinam infundadamente
sobre tema tão relevante ao país.
*Roberto
Vital Anav,
economista, é pós-doutorado em história econômica pela Universidade de São
Paulo (USP).
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O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html

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