O futuro não é destino
Seleção e os times brasileiros priorizam as estocadas,
os lances individuais e a pressa de chegar ao gol. Existe uma carência de bons
laterais, falta um craque no meio campo e na posição de centroavante
Tostão/Folha de S.
Paulo
Neste momento
de decepção, de mais um fracasso da seleção brasileira, pois criamos uma enorme
expectativa muito acima da realidade, surgem os discursos românticos,
ilusórios, perdidos no tempo, de que o futebol brasileiro precisa voltar às
origens, aos anos 60 e 70, e passar a jogar o futebol arte, de dribles,
improvisações, sem disciplina tática. Dribles é que não faltam. Precisamos
associa-los ao jogo coletivo, de mais trocas de passes e de domínio da bola e
do jogo. A seleção brasileira e os times brasileiros priorizam as estocadas, os
lances individuais e a pressa de chegar ao gol.
Outro discurso
equivocado é o de que temos muitos craques, mas faltam estratégias mais
eficientes. Precisamos melhorar a maneira de jogar e aumentar o número de
craques. Há muitos bons jogadores, alguns especiais, como Vinicius
Junior, porém, existe uma carência de bons laterais, falta um craque
no meio campo e na posição de centroavante.
O futebol
brasileiro necessita de uma grande mudança no planejamento, na execução do que
foi programado e na formação de atletas. O antigo chavão de que no Brasil nasce
um craque em cada esquina já era. Quem não se prepara, não sabe fazer.
Casemiro, que
teve grandes momentos em sua carreira, nos clubes e na seleção, certamente
estará fora das próximas convocações. O Brasil precisa de mais leveza no meio
campo, de meio-campistas que atuam de uma intermediaria a outra, que marcam e
iniciam os ataques com ótimos passes.
O ideal no
futebol é unir e alternar as precisas trocas de passes e o talento do meio
campo da Espanha com a agressividade, a habilidade, velocidade e técnica dos
atacantes da França.As duas seleções farão uma das semifinais, um jogaço. A
Espanha não se afoba, não muda o seu jeito de jogar nas dificuldades. Contra a
Bélgica, continuou trocando muitos passes até sair o gol da vitória por 2x1.
Quando escrevo
que não há mais motivos para dividir o meio campo entre os camisas 5, 8 e 10
enfatizo que eles não precisam ter posições fixas nem uma única função. Mas,
quando uma equipe possui um craque como Olise da França, que joga da
intermediaria para o gol, é uma grande vantagem. Os craques são mais
importantes do que o desenho tático.
Receio que no
futuro, a história conte que havia um país do futebol que tinha um rei, Pelé, e
um grande número de craques fenomenais que jogavam o futebol bonito,
espetacular e eficiente. O mundo parava para ver o Brasil atuar. Porém, por
causa da desorganização, da ganância, da incompetência, da corrupção, dos
otimistas prepotentes, da globalização e da evolução dos outros países, o
futebol brasileiro tornou-se igual a tantos outros e abaixo das principais
potências. É preciso reagir. O futuro não é destino. O futuro é o que será
construído.
Participei,
com 19 anos, de um período ainda pior da seleção brasileira, a desclassificação
na primeira fase da Copa de 1966 após o Brasil ser campeão em 1958 e 1962.
Alguns jogadores presentes em 1966 fizeram parte da seleção de 1970 que
encantou o mundo.
Jovens, como
Rayan, Endrick, além de Estevão e Rodrygo, contundidos, têm grandes chances de
brilhar em 2030.
Após a
eliminação em 1966, Carlos Drummond de Andrade,o poeta maior, na bela poesia:
"Aos atletas", escreveu: "...a hora dura do esporte, sem a qual
não há premio que conforte, pois perder é tocar alguma coisa mais além da
vitória, é encontrar-se naquele ponto onde começa tudo a nascer do perdido,
lentamente".
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