Presságio
Fernando Pessoa
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar
p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que
sente
Não sabe o que há de
dizer.
Fala: parece que
mente...
Cala: parece
esquecer...
Ah, mas
se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o
olhar,
E se um olhar lhe
bastasse
P'ra saber que a estão
a amar!
Mas quem sente muito,
cala;
Quem quer dizer quanto
sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder
contar-lhe
O que não lhe ouso
contar,
Já não terei que
falar-lhe
Porque lhe estou a
falar...
[Ilustração:
Leia também: "Céu de confeiteiro", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01758261591.html

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