Sobre a plenitude
Cícero Belmar
Em junho, uma. Em agosto, a outra.
Minhas irmãs, Socorro e Sílvia, fazem aniversários nesse espaço de três meses.
A proximidade dessas datas me levou a pensar na maturidade, nos conceitos e
preconceitos para com a idade. Quando cada uma das irmãs faz um ano a mais, eu,
que comemoro com elas, também avanço. São muitos janeiros a dezembros; juntos
vimos a passagem das estações; acompanhamos diversas vezes as fases da lua.
A vida vai somando os dias e, em nossa
consciência, tudo fica mais claro. Pelo entendimento que adquirimos sobre o que
significa estar vivo, pela leveza que o tempo nos traz, posso dizer com
segurança que estamos mais jovens do que velhos. Surpreendam-se, o tempo ajuda
– não o contrário – a remoçar. Se não física, mas emocional e espiritualmente.
Vejam, porém, a contradição dos
conceitos. Quando alguém evoca a lembrança da juventude, fala no passado: “Na
minha época”. Por essa lógica, ser jovem seria o que ficou no passado. A
maturidade é um projeto para o futuro? Por falta de resposta, com o avanço da
idade, a melhor opção é se fazer de cínico com o tempo.
Só o presente é jovem. Ainda que os
anos pesem na bagagem, tomar posse de si mesmo, em qualquer tempo presente, é o
que há de mais libertário. De mais rebelde. Ousado e jovem.
Os anos passam e quem continua cheio de
projetos, ideias, disposição, levando uma vida ativa, é uma pessoa que continua
na Flor. Ter idade de cartório é uma coisa que só serve para as burocracias e
para quem precisa preencher documentos.
O conceito do que é “novinho” e do que
é “coroa” muitas vezes depende das exigências do mercado competitivo. Assim
falava Manoelzinho da Venda: felizes os que têm entre 24 a 30 anos porque eles
herdarão a diversão, o prazer e a vaga do emprego. Passou dos 30, complica.
Passou muito disso, espere sentado.
Os meritocratas afirmam que ficar idoso
é uma fase que se obtém quando os anos avançam e que isso é sinônimo de
decadência e de inutilidade. Se tudo é uma questão de conceito, ser jovem
teria a ver, na minha opinião, com a perda dos medos, com a autoconfiança,
alegria, coragem, e com a luta em nome da esperança. Isso só o tempo é quem
traz. O resto a gente sempre resolverá à base de remédios e chazinhos
naturebas, independentemente da idade.
As marcas chegam, com certeza, afinal
ninguém aqui fez um pacto semelhante ao do Dorian. Minhas irmãs não frequentam
academias de ginástica, assim como eu também não. Odeio puxar ferro. Claro,
muitas roupas nem cabem mais em mim por causa da pança. Mas, no meu caso, ainda
rendo um caldo!
Os conservadores costumam ser mais
cruéis com a idade das mulheres do que com a dos homens. Para esses, elas
estariam condenadas a contabilizar, com muita antecedência, privações e danos à
vida. Os conservadores são infelizes e querem que todos sejam também.
Quanto a mim, sou avesso aos conceitos
excludentes sobre ser isso ou aquilo. Há palavras que são usadas para excluir.
Que tal se a gente dissesse que uma pessoa, em vez de velha ou idosa, está na
plenitude?
Leia também: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html

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