23 agosto 2026

Uma crônica de Cícero Belmar

Sobre a plenitude
Cícero Belmar 

Em junho, uma. Em agosto, a outra. Minhas irmãs, Socorro e Sílvia, fazem aniversários nesse espaço de três meses. A proximidade dessas datas me levou a pensar na maturidade, nos conceitos e preconceitos para com a idade. Quando cada uma das irmãs faz um ano a mais, eu, que comemoro com elas, também avanço. São muitos janeiros a dezembros; juntos vimos a passagem das estações; acompanhamos diversas vezes as fases da lua.

A vida vai somando os dias e, em nossa consciência, tudo fica mais claro. Pelo entendimento que adquirimos sobre o que significa estar vivo, pela leveza que o tempo nos traz, posso dizer com segurança que estamos mais jovens do que velhos. Surpreendam-se, o tempo ajuda – não o contrário – a remoçar. Se não física, mas emocional e espiritualmente.

Vejam, porém, a contradição dos conceitos. Quando alguém evoca a lembrança da juventude, fala no passado: “Na minha época”. Por essa lógica, ser jovem seria o que ficou no passado. A maturidade é um projeto para o futuro? Por falta de resposta, com o avanço da idade, a melhor opção é se fazer de cínico com o tempo.

Só o presente é jovem. Ainda que os anos pesem na bagagem, tomar posse de si mesmo, em qualquer tempo presente, é o que há de mais libertário. De mais rebelde. Ousado e jovem.

Os anos passam e quem continua cheio de projetos, ideias, disposição, levando uma vida ativa, é uma pessoa que continua na Flor. Ter idade de cartório é uma coisa que só serve para as burocracias e para quem precisa preencher documentos.

O conceito do que é “novinho” e do que é “coroa” muitas vezes depende das exigências do mercado competitivo. Assim falava Manoelzinho da Venda: felizes os que têm entre 24 a 30 anos porque eles herdarão a diversão, o prazer e a vaga do emprego. Passou dos 30, complica. Passou muito disso, espere sentado.

Os meritocratas afirmam que ficar idoso é uma fase que se obtém quando os anos avançam e que isso é sinônimo de decadência e de inutilidade.  Se tudo é uma questão de conceito, ser jovem teria a ver, na minha opinião, com a perda dos medos, com a autoconfiança, alegria, coragem, e com a luta em nome da esperança. Isso só o tempo é quem traz. O resto a gente sempre resolverá à base de remédios e chazinhos naturebas, independentemente da idade.

As marcas chegam, com certeza, afinal ninguém aqui fez um pacto semelhante ao do Dorian. Minhas irmãs não frequentam academias de ginástica, assim como eu também não. Odeio puxar ferro. Claro, muitas roupas nem cabem mais em mim por causa da pança. Mas, no meu caso, ainda rendo um caldo!

Os conservadores costumam ser mais cruéis com a idade das mulheres do que com a dos homens. Para esses, elas estariam condenadas a contabilizar, com muita antecedência, privações e danos à vida. Os conservadores são infelizes e querem que todos sejam também.

Quanto a mim, sou avesso aos conceitos excludentes sobre ser isso ou aquilo. Há palavras que são usadas para excluir. Que tal se a gente dissesse que uma pessoa, em vez de velha ou idosa, está na plenitude?

Leia também: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html 

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