25 agosto 2026

A força do diálogo

Que Brasil queremos? Democracia, civilização e dignidade
Padre Fábio/SaibaMais     

Era 1979. Eu tinha onze anos e começava a descobrir que o Brasil em que eu vivia carregava uma ferida chamada ditadura militar. Descobri que havia brasileiros exilados, presos políticos, homens e mulheres perseguidos e torturados por defenderem a liberdade e a democracia. Guardo na memória as imagens dos jornais mostrando a volta de Leonel Brizola, Miguel Arraes, Dulce Maia e de tantos outros homens e mulheres que haviam sido obrigados a deixar o país. Paulo Freire também voltava naquele tempo para rever e reaprender o Brasil, antes de seu retorno definitivo no ano seguinte. Fui conhecendo ainda histórias como a da Irmã Maurina Borges da Silveira, religiosa presa, torturada pela repressão e banida para o México.

Para aquele menino de onze anos, palavras como ditadura, exílio, tortura, presos políticos, anistia e democracia começavam a deixar de ser palavras abstratas e passavam a ter rostos. Talvez tenha nascido ali uma convicção que nunca mais me abandonou: a democracia não é um presente definitivo. É uma conquista que precisa ser cuidada e defendida todos os dias.

Em 1984, eu estava em Fortaleza com meu irmão gêmeo, Fabiano Piúba, e guardo especialmente a memória da praça do Teatro José de Alencar, tomada pela mobilização das Diretas Já. Ali, em meio à multidão que queria recuperar o direito de escolher pelo voto o presidente da República, estavam grandes nomes do campo democrático brasileiro: Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Luiz Inácio Lula da Silva, Luís Carlos Prestes, Dante de Oliveira e Paes de Andrade, entre outras lideranças. Artistas, trabalhadores, estudantes e gente comum também enchiam a praça. O Brasil reaprendia a dizer em voz alta uma palavra que durante tantos anos havia sido sufocada: liberdade.

Depois da derrota da Emenda Dante de Oliveira, a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral também contou com a contribuição decisiva da Frente Liberal, formada por lideranças da direita que romperam com o campo governista e ajudaram a construir a Aliança Democrática. Nomes como José Sarney, Marco Maciel, Aureliano Chaves e Antônio Carlos Magalhães tiveram papel importante naquele processo. É uma lembrança necessária: a redemocratização brasileira também contou com a participação de uma direita democrática, capaz de colocar a defesa da democracia acima das diferenças partidárias.

Vieram depois a transição democrática, a Assembleia Nacional Constituinte e, em 1988, a Constituição que Ulysses Guimarães chamou de Constituição Cidadã.

Por que recordar tudo isso agora? Porque estamos novamente em um ano eleitoral, e há momentos em que uma eleição significa mais do que escolher nomes, partidos ou administradores. Escolhemos também projetos de sociedade, maneiras de compreender a democracia, a economia, os direitos, a convivência entre os diferentes e a própria dignidade da pessoa humana.

Anos depois, já adulto, essa memória deixou de ser apenas aquilo que eu havia visto pelos jornais e passou a ganhar ainda mais rosto e voz. Ao lado de Roberto Monte, no Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, em Natal, pude conviver, ouvir e entrevistar antigos presos e perseguidos políticos, homens e mulheres cujas histórias atravessavam diferentes momentos de violência política no Brasil: a Insurreição de 1935, a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e a ditadura civil-militar iniciada em 1964. Esse contato, vivido ao longo de vários anos, entre o final da década de 1990 e os anos 2000, aproximou-me ainda mais da memória viva daqueles que conheceram a prisão, a perseguição, a tortura e a supressão das liberdades. Não eram mais apenas capítulos de livros de História. Eram pessoas diante de mim, contando o que viveram.

Talvez por isso eu não consiga olhar com indiferença quando os sinais do autoritarismo voltam a aparecer. Vivemos uma quadra mundial marcada pelo crescimento da extrema-direita, de discursos autoritários, da intolerância e de formas de fazer política que transformam o adversário em inimigo.

E aqui faço uma ressalva indispensável: não estou me referindo à direita democrática. Ser de direita não significa ser fascista, autoritário, intolerante ou inimigo dos direitos humanos. A direita democrática pertence legitimamente ao campo da democracia, assim como a esquerda e o centro. Democracia é pluralidade, divergência, alternância de poder, respeito à Constituição e às instituições.

Eu acredito no diálogo. Quero dialogar com quem pensa como eu e também com quem pensa diferente de mim. Minha crítica, portanto, não é à direita. Refiro-me à extrema-direita, sobretudo quando ela ultrapassa os limites do conservadorismo democrático e assume características neonazifascistas: desprezo pelas instituições, culto à força, fabricação de inimigos, violência política, racismo, misoginia, homofobia, intolerância religiosa e ódio ao diferente.

Há também uma escolha econômica. Podemos construir uma sociedade em que o mercado e a iniciativa privada estejam a serviço da vida e do bem comum, garantindo direitos sociais e trabalhistas, combatendo a fome e a desigualdade, fortalecendo educação, saúde e proteção social. Ou podemos aceitar um ultraliberalismo econômico exclusivista e excludente, no qual direitos são tratados como obstáculos, a desigualdade é naturalizada e a dignidade humana acaba submetida à lógica ilimitada do lucro.

Não se trata de negar o mercado ou a iniciativa privada. Trata-se de afirmar algo elementar: a economia deve servir à pessoa humana, e não a pessoa humana servir à economia.

Quando o lucro perde seus limites éticos, sofre o trabalhador, sofre o pobre e sofre também a natureza. A mesma lógica que descarta pessoas transforma rios, florestas, mares e territórios em simples mercadorias. Não existe verdadeira justiça social sem justiça ambiental. O grito dos pobres e o gemido da criação nascem, muitas vezes, da mesma lógica de exploração.

Mais perigoso ainda é quando a exclusão econômica se encontra com a cultura do ódio. O pobre é desprezado; a mulher, diminuída; o negro, discriminado; pessoas LGBT, transformadas em alvo; religiões diferentes, hostilizadas. A misoginia, o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância religiosa se espalham intensamente pelas redes sociais e já atravessam as telas para atingir pessoas concretas nas ruas, nos locais de trabalho, nas comunidades e até nos espaços religiosos.

A palavra que desumaniza pode preparar o terreno para a violência que fere.

É nesse sentido que falo em dois projetos e uso uma expressão forte: civilização ou barbárie. Não como ataque à direita democrática. Não como demonização de quem pensa diferente. Não como slogan partidário. Mas como uma pergunta ética.

Civilização é reconhecer o outro como pessoa. Barbárie é transformar o diferente em inimigo. Civilização é garantir direitos. Barbárie é naturalizar a exclusão. Civilização é conviver com as diferenças. Barbárie é alimentar o ódio. Civilização é submeter a economia à dignidade humana. Barbárie é sacrificar pessoas e natureza no altar da ganância. Civilização é democracia. Barbárie é flertar com o autoritarismo.

Tenho hoje cinquenta e oito anos. Aquele menino de onze anos que viu pela televisão os exilados retornarem ao Brasil ainda vive em mim. E aquele adolescente que, ao lado do meu irmão gêmeo, Fabiano, viu uma praça de Fortaleza tomada pela esperança democrática também continua aqui.

Nossa geração viu este país reaprender a votar. Viu multidões pedirem eleições diretas. Viu nascer uma Constituição que colocou a cidadania no coração da República.

Depois de tudo isso, não podemos tratar a democracia com indiferença.

A democracia é imperfeita. Precisa ser criticada, corrigida e aprofundada. Mas é dentro dela que podemos lutar por mais justiça, mais liberdade, mais igualdade, mais direitos e mais dignidade. Fora dela, cresce a noite.

Neste ano eleitoral, portanto, talvez antes de perguntarmos em quem votar, devêssemos fazer uma pergunta ainda mais profunda:

Que Brasil queremos?

Um Brasil do medo ou da esperança? Do ódio ou da fraternidade? Da exclusão ou da justiça social? Da intolerância ou do diálogo? Da devastação ou do cuidado com a Casa Comum? Da barbárie ou da civilização?

Eu faço a minha escolha: democracia, dignidade humana, justiça social, liberdade, diálogo e fraternidade. Sempre.

Imagem produida por IA

A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html 

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