Sem carnaval de rua
Machado de Assis
Quando eu li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir não é só le propre de 1'homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à maneira de deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.
Não veremos Vulcano estes dias, cambaio
ou não, não ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas. Não
sairão as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as
roupas de veludo e cetim. A única veste que poderá aparecer, é cinta espanhola,
ou não sei de que raça, que dispensa agora os coletes e dá mais graça ao corpo.
Esta moda quer-me parecer que pega; por ora, não há muitos que a tragam.
Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religião começa por um pequeno
número de fiéis. O primeiro homem que vestiu um simples colar de miçangas, não
viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a moda pegando,
até que vieram atrás das miçangas, conchas, pedras e outras. Daí até o capote,
e as atuais mangas de presunto, em que as senhoras metem os braços, que
caminho! O chapéu baixo, feltro ou palha, era há 25 anos uma minoria ínfima. Há
uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chapéus altos em toda a parte,
nas portas, vidraças, balcões, cabides, dentro das caixas, tudo chapéus altos.
Anos depois, passando por ela, não vi mais um só daquela espécie; eram muitos e
baixos, de vária matéria e formas variadíssimas.
Não admira que acabemos todos de cinta
de seda. Quem sabe não é uma reminiscência da tanga do homem primitivo? Quem
sabe se não vamos remontar os tempos até ao colar de miçangas? Talvez a
perfeição esteja aí. Montaigne é de parecer que não fazemos mais que repisar as
mesmas cousas e andar no mesmo círculo; e o Eclesiastes diz claramente que o
que é, foi, e o que foi, é o que há vir. Com autoridades de tal porte, podemos
crer que acabarão algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, matéria
simples, na mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para pede com
graça uma quadrilha ou uma polca. Oh! a polca das miçanga. Há de haver uma com
esse título, porque a polca é eterna, e quando não houver mais nada, nem sol,
nem lua, e tudo tornar às trevas, últimos deus ecos da catástrofe derradeira
usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador: Derruba,
meu Deus, derruba!
Como se disfarçarão os homens pelo
carnaval quando voltar a idade da miçanga? Naturalmente com os trajes de hoje.
A Gazeta de Notícias escreverá por esse tempo um artigo, em que dirá:
Pelas figuras que têm aparecido nas
ruas, terão visto os nossos leitores Onde foi, séculos atrás, já não diremos o
mau gosto, que é evidente, mas a violação da natureza, no modo de vestir dos
homens. Quando possuíam as melhores casacas e calças, que são a própria
epiderme, tão justa ao corpo, tão sincera, inventaram umas vestiduras
perversas, falsas. Tudo é obra do orgulho humano, que pensa aperfeiçoar a
natureza, quando infringe as suas leis mais elementares. Vede o lenço; o homem
de outrora achou que ele tinha uma ponta de mais, e fez um tecido de quatro
pontas, sem músculos, sem nervos, sem sangue, absolutamente imprestável, desde
que não esteja a da pessoa. Há no nosso museu nacional um exemplar dessa
ridicularia. Hoje, para dar uma idéia viva da diferença das duas civilizações,
publicam um desenho comparativo, dous homens, um moderno, outro dos fins do
século XIX; é obra de um jovem por um dos redatores desta folha, o nosso
excelente companheiro João, amigo de todos os tempos.
Que não possa eu ler esse artigo, ver
as figuras, compará-las, e repetir os ditos do Eclesiastes e de Montaigne, e
anunciar aos povos desse tempo que a civilização mudará outra vez de camisa!
Irei antes, muito antes, para aquela outra Petrópolis, capital da vida eterna.
Lá ao menos há fresco, não se morre de insolação, nome que já entrou no nosso
obituário, segundo me disseram esta semana. Não se pode imaginar a minha
desilusão. Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, não morreríamos
nunca de semelhante cousa. Há anos deram-se aqui alguns casos de não sei que
moléstia fulminante, que disseram ser isso; mas vão lá provar que sim ou que
não. Para se não provar nada, é que o mal fulmina. Assim, nem tudo acaba em
cajuada, como eu supunha; também se morre de insolação. Morreu um, morrerão
ainda outros. A chuva destes dias não fez mais que açular a canícula.
De resto, a morte escreveu esta semana
em suas tabelas, algumas das melhores datas, levando consigo um Dantas, um José
Silva, um Coelho Bastos. Não se conclui que ela tem mais amor aos que
sobrenadam, do que aos que se afundam; a sua democracia não distingue. Mas há
certo gosto particular em dizer aos primeiros, que nas suas águas tudo se funde
e confunde, e que não há serviços à pátria ou à humanidade, que impeçam de ir
para onde vão os inúteis ou ainda os maus. Vingue-se a vida guardando a memória
dos que o merecem, e na proporção de cada um, distintos com distintos, ilustres
com ilustres.
Essa há de ser a moda que não acaba. Ou
caminhemos para a perfeição deliciosa e terna, ou não façamos mais que ruminar,
perpétuo camelo, o mesmo jantar de todas as idades, a moda de morrer é a mesma
... Mas isto é lúgubre, e a primeira das condições do meu ofício é deitar fora
as melancolias, mormente em dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e liguemos
assim o princípio e o fim da crônica. A razão de o não termos este ano, é
justa; seria até melhor que a proibição não fosse precisa, e viesse do próprio
ânimo dos foliões. Mas não se pode pensar em tudo.
Leia: Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html
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