Elementos para uma Geografia do Desespero na
Metrópole
A proposta de uma
Geografia da Insanidade e Geografia do Desespero surge a partir do interesse em
provocar incômodo e estranheza
Giam C. C. Miceli/Le Monde Diplomatique
Partindo
desse ponto, e tentando entender de que maneira essa produção daquilo que não é
são, por parte da metrópole e das relações nela desenvolvidas, se traduz e se
aprofunda no que poderíamos chamar de Geografia do Desespero, o que pode ser
considerada um desdobramento da Geografia da Insanidade, daí a proposta de
apresentar os textos em sequência.
Os elementos daquilo que chamo de
Geografia da Insanidade – a interpretação e a análise científica partindo dos
objetos e das relações em um espaço determinado, o espaço da metrópole,
destacando os elementos que não produzem uma sanidade – resultam naquilo que
poderíamos chamar de Geografia do Desespero que, dentro da proposta aqui
apresentada, pode ser entendida como aspectos negativos que internalizamos após
vivenciarmos experiências espaciais na metrópole de um modo geral. Para
melhorar o entendimento, duas observações são fundamentais:
· Tais aspectos negativos não se fazem presentes apenas nas metrópoles;
· A metrópole não desperta apenas sentimentos negativos.
O propósito, aqui, consiste em ir além
de uma análise funcionalista e morfológica do espaço metropolitano, apontando
para como a tríade segregação-deslocamento-precarização pode produzir
consequências negativas nas vidas das pessoas. Como é que, mesmo com todos os
avanços no campo da medicina, da psicologia e da ciência como um todo, a
humanidade está batendo recordes de pessoas afetadas por ansiedade, depressão,
síndrome de burnout, estresse, dentre tantas outras doenças negligenciadas em
momentos pretéritos? Não podemos culpar somente as metrópoles por isso, mas o
fato é que as metrópoles, enquanto espaços excessivamente cansativos e
desgastantes, além de uma era marcada por incertezas em quase todas as
dimensões da vida, têm sua parcela de culpa.
A grande questão é que a tríade
segregação-deslocamento-precarização, sobretudo em espaços congestionados, onde
os trajetos exigem que se enfrente enormes distâncias nas piores condições
possíveis, contribui com a piora de sensações e sentimentos. E, convenhamos,
isso não deixa de ser uma questão de classe. Na cidade capitalista,
principalmente na metrópole capitalista, o preço da terra varia de acordo com a
disponibilidade de recursos, sobrando, para os mais pobres, uma excruciante
relação entre distância e tempo. Nesse centro capitalista, vive mais quem
conseguir comprar sobrevida.
É importante refletir sobre como todo
esse quadro de precariedade acaba afetando o íntimo das pessoas, sobretudo das
que acabam sendo desfavorecidas em várias dimensões. A ideologia da
meritocracia, por exemplo, em um quadro de precarização da vida, certamente
promove sensações negativas na era dos coaches. Afinal, basta
querer, desembolsar alguns milhares de reais por um curso ou mentoria, se
esforçar e conseguir. Caso contrário, foi falta de esforço.
É impossível que um indivíduo assuma a
culpa por uma questão sistêmica e consiga sair ileso. Todas as estratégias de
acomodação e aceitação daquilo que supostamente não tem jeito – sempre tem –
acabam por, no fim das contas, individualizar um problema que é coletivo e
estrutural. Falta de perspectiva, depressão, ansiedade, burnout, esses e tantos
outros problemas de saúde – física e mental – possuem relações com uma vida,
muitas vezes sem muitas esperanças, na metrópole.
Para além desse processo de transformar
em pontual e individual aquilo que é estrutural e coletivo, não há como não
mencionar uma ideologia meritocrática associada ao neoliberalismo que acaba por
transformar tudo que há de mais básico em mercadoria. Então, a pessoa que se vê
como incompetente, incapaz, desqualificada – e ela assim se vê devido a um
discurso criado exatamente com esta finalidade -, na condição de pessoa
supostamente incompetente, incapaz e desqualificada, acaba por não conseguir
ter acesso a “mercadorias” como saúde, educação, lazer, moradia, dentre tantas
outras.
E aí, diante dos elementos aqui
elencados – segregação, deslocamento, precarização, meritocracia,
neoliberalismo – algumas perguntas passam a ganhar ainda mais sentido. Como se
manter saudável gastando horas ao realizar o trajeto casa-trabalho-casa, com
salário baixo e péssimas condições de trabalho? Como não se desesperar
assumindo um fracasso forjado por agentes e discursos, em um contexto de alto
custo de vida e necessidade de sustentar-se? Como ter alguma saúde em um país
em que os setores conservadores, elitizados e elitistas bombardeiam, em uma
escala assustadora, toda e qualquer política social que tenha o objetivo de
corrigir males provocados no/por um país escravocrata, colonizado e com traços
severos de colonialidade? Como conviver com a culpa de não conseguir garantir o
básico para a família?
Observem que eu desloco, de modo
proposital, os elementos de uma possível Geografia da Insanidade para uma
possível e plausível Geografia do Desespero. Isto ocorre a partir do momento em
que realizo uma alteração na escala de análise. A Geografia enquanto ciência
que busca observar, descrever, analisar e explicar fenômenos espaciais, pode
ser seguida por algum termo que seja alvo de enfoque. Daí expressões como
“Geografia Urbana”, “Geografia Agrária”, “Geografia da Indústria”, dentre
tantos outros campos de análise e de pesquisa. A proposta de uma Geografia da
Insanidade e Geografia do Desespero surge a partir do interesse em provocar
incômodo e estranheza. E as perguntas do parágrafo anterior surgem da
necessidade de exercitarmos a empatia, a capacidade de assumir o lugar de
outras pessoas. Não há como negar: é um texto para incomodar, para trazer certo
sufocamento e para trazer péssimas sensações. A ideia é essa.
Diante disso, o que chamo, no texto
anterior, de Geografia da Insanidade, tem muito mais a ver com a configuração
da metrópole capitalista que, ainda sem detalhar muito, apresenta aspectos
relevantes da dinâmica socioespacial. O que chamo de Geografia do Desespero já
tem relações com as manifestações desses aspectos relevantes no âmbito do
indivíduo e da forma como cada pessoa experimenta o espaço, o que, no caso do
capitalismo, possui relação direta com a renda, que por sua vez, possui relação
direta com local de moradia e com tudo aquilo que cada local de moradia pode
oferecer.
Aproveito para sugerir um exercício de,
em primeiro lugar, autoconhecimento. Observe quais sensações o espaço ao seu
redor desperta. Podemos sentir intimidade, vínculo, afeto, medo, angústia,
aflição, dentre outras. O importante é assumir a postura de desnaturalizar tais
sensações para que nelas possamos prestar a devida atenção. É um exercício de
alteridade e empatia, pois é importante sinalizar que, da mesma forma que a
ideologia meritocrática e discursos de setores conservadores empurram para os
mais pobres uma culpa que não é deles, essa mesma ideologia e esses mesmos
discursos confortam os mais ricos, de modo que sejam isentos de qualquer
responsabilidade, por mais exploradores que sejam eles. De que modo nos
relacionamos com o espaço ao redor?
O espaço enquanto dimensão composta por elementos concretos e, também, como evidenciado ao longo do texto, por relações as mais diversas, está presente em nossas vidas, e a forma como experimentamos esse espaço acaba por estabelecer relações com o que nós somos e como nos formamos ao longo da vida. Existem pessoas empáticas, existem pessoas individualistas, existem pessoas solidárias, existem pessoas egoístas. Isso tem a ver, também, com nossas vivências espaciais e com a forma com que cada pessoa experimenta (ou não) uma Geografia do Desespero.
Giam C. C. Miceli é professor da Geografia da Educação Básica.
[Foto: Sascha Kohlmann]
Leia: Comunicação digital entre a virtude e a culpa e a luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/minha-opiniao_13.html
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