Entre o hai-kai e a poesia minimalista
Luciano
Siqueira*
Eis o que nos oferta Renato Siqueira ao emergir de mergulhos na alma e ao
proclamar em público inquietações, dores, dúvidas, desejos: um misto de hai-kai
e poesia minimalista.
A palavra curta, direta. Às vezes óbvia, na maior parte das vezes
surpreendente.
Um verso simples, objetivo, curto — que ora afaga, ora inquieta.
Invariavelmente, a simplicidade e o uso contido da linguagem. Como uma
espécie de resistência tímida a se revelar por inteiro.
Entretanto, ousadia em experimentar um gênero poético que se introduziu
em nossa literatura por mãos consagradas, como Carlos Nejar, os irmãos Haroldo
e Augusto de Campos e Paulo Leminski, antecedidos por Cecília Meireles e Carlos
Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Murilo Mendes, Oswald de Andrade.
A mesma simplicidade preserva quando se arrisca no poema minimalista,
provavelmente inspirado em autores como a indiana-canadense Rupi Kaur; os
norte-americanos Ezra Pound e Anne Sexton; o irlandês Samuel Beckett e o
sueco Tomas Tranströmer. Ou em gente do primeiro time da poesia
brasileira: Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, Hilda Hilst e clássicos como Adélia
Prado, Carlos Drummond de Andrade e Manuel de Barros.
O verso contido — como um choro discretamente compartilhado:
então pode ser
que você me
veja
com seus olhos
com outros
olhos
com os olhos dos
outros
com meus olhos
ou nem me veja
Ou como grito:
amor
com
corda
no pescoço
não é
amor
concorda?
Ou ainda:
não viveu direito
quem passou pela vida
com apenas um coração
E quando ousa:
é dela um olhar oculto e esquivo
que não permite que
lhe vejam
mas que a faz tudo
ver e registrar
é dela correr desesperadamente
para longe e assim se
aproximar
tanto mais daquilo
que a faz esquivar
é dela não se permitir gostar
para não sofrer e
assim sofrer
por não se permitir
gostar
é dela não dividir o
tempo
com ninguém e assim
ter
todo o tempo do mundo
para chorar
Tal como a citada Rupi Kaur, Renato antes se revela no Instagram e agora se
compromete em livro. Gesto que carrega em si forte simbologia: a comunicação
digital instantânea, superficial e fragmentária não dispensa, antes reclama o
diálogo "presencial", olhos nos olhos — a transição da postagem
imediata e pontual à forma livro, perene e definitiva.
*Texto de apresentação - Renato Sq. ”Apenas uma possibilidade”. Artêra editorial, Curitiba-PR, 2024.
Você pode adquirir pelo do site da Editora Appris, Amazon, ou pelas livrarias 'Curitiba', 'Martins Fontes', 'Livraria da Vila', 'Livraria da Travessa' e 'Livraria Leitura' ou ainda diretamente com o autor instagram.com/renatosq.escritor
*
Leia: Os clarins de Momo se aproximam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/minha-opiniao_24.html
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