30 novembro 2025

Economia global em transição

O centro de gravidade da economia mundial se desloca para a Ásia
Os EUA tentaram usar pressão econômica e militar para manter uma posição dominante na Ásia, mas a ascensão da China e a agenda da região tornaram isso cada vez mais difícil.
Tricontinental   

No último dia de outubro de 2025, líderes das 21 nações do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) se reuniram na cidade de Gyeongju, na República da Coreia (Coreia do Sul), para a 33ª cúpula da organização. Desde sua fundação em 1989, em Canberra, Austrália, a APEC tem promovido a construção de uma zona de “comércio livre e aberto” — um conceito delineado pelas Metas de Bogor, que surgiram da cúpula realizada na Indon&eacu te;sia em 1994.

A APEC é um produto de seu tempo. Primeiro, surgiu como um instrumento do Conselho de Cooperação Econômica do Pacífico do Japão, com o objetivo de construir cadeias de suprimentos regionais após o Acordo Plaza (1985), que valorizou o iene em relação ao dólar. Segundo, foi concebida durante a Rodada Uruguai (1986-1994) do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt), que terminou com a formação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa foi a era da liberalização comercial, quando os Estados Unidos e seus parceiros do G7 — imbuídos da sensação de que a História havia chegado ao fim e que todos os países girariam em torno dos EUA para sempre — pressionaram outras nações  a abrirem suas economias para as corporações do Atlântico Norte e do Japão. Os EUA esperavam qu e o Tratado de Maastricht (1993), que criou a União Europeia, levasse a um acordo de livre comércio transatlântico (embora isso nunca tenha acontecido) e que o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) (1994) vinculasse o Canadá e o México aos EUA perpetuamente.
 

Durante anos, os EUA participaram das cúpulas da Apec e pressionaram por uma área de livre comércio que permitisse às suas corporações dominar a região. As Metas de Bogor, de 1994, tinham esse objetivo, mas fracassaram por diversos motivos – incluindo o receio interno de que o crescente poderio industrial da Ásia superasse a competitividade dos EUA. Em 2005, quatro países (Brunei, Chile, Nova Zelândia e Singapura) assinaram o Acordo de Parceria Econômica Estratégica Transpacífica (TPEP), que adicionou mais oito países (Austrália, Canadá, Japão, Malásia, México, Peru, EUA e Vietnã) até 2013. Mas foi muito pouco, e muito tarde. A crise financeira de 2008 abalou o Sul Global, que passou a reconhecer a fragilidade das economias do Atlântico Norte e a necessidade de construir uma alternativa de comércio e desenvolvimento Sul -Sul.

Em 2007, às vésperas da crise financeira, a China já era a terceira maior economia do mundo. Em 2010, ultrapassou o Japão e se tornou a segunda. Hoje, a China é o maior parceiro comercial da maioria dos países da região Ásia-Pacífico, incluindo 13 dos 21 países da Apec. Após a crise financeira de 2008, os países da Bacia do Pacífico deixaram de priorizar um acordo de livre comércio com os EUA. E quando o presidente dos EUA, Donald Trump, retirou seu país da Parceria Transpacífica em 2017, os países restantes continuaram as negociações sem a presença de Washington. Dez dos onze signatários do Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica, que surgiu dessas negociações, eram membros da Apec. 

Em uma cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) em 2011, alguns membros discutiram a possibilidade de um acordo de livre comércio com foco na Ásia. As negociações prosseguiram com a certeza de que os dez membros da Asean – mais a China e a Índia – formariam uma importante rede comercial. A Índia acabou desistindo, mas todos os dez países da Asean, assim como a China, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia, permaneceram no processo. Em 2020, esses países assinaram a Parceria Econômica Abrangente Regional (RCEP) — o maior bloco comercial do mundo, com quase um terço da população mundial (2,3 bilhões) e 28% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Em comparação, a União Europeia representa cerca de 18% do PIB mundial, enquanto o Nafta representa aproximadamente 30% do PIB mundial. A RCEP alcançou uma forma de “comércio livre e aberto” — o que a APEC aspirava atingir com suas Metas de Bogor – enquanto os EUA permaneceram isolados.

Mas os EUA mantêm pelo menos dois instrumentos para exercer poder na região Ásia-Pacífico: a Apec, menos um fórum econômico e mais um instrumento para os EUA disciplinarem seus aliados asiáticos, e a Rimpac [Rim of the Pacific], seu braço militar. Esta foi criada em 1971 como parte da arquitetura da Guerra Fria contra a União Soviética, mas se transformou em um mecanismo para exercer poder naval contra a China e outros países que buscam soberania. A Rimpac, organizada pelo Comando Indo-Pacífico da Marinha dos EUA e sediada no Havaí, agora inclui ativos militares israelenses. Isso deve criar problemas para membros como Colômbia, Chile e Malásia, que adotaram posições firmes contra o genocídio israelense em curso contra os palestinos. Todos os países da Apec participam da Rimpac, exceto China, Rússia e Vietnã (a China participava até ser excluída em 2018).

A sobreposição entre os membros da Apec e da Rimpac revela a tentativa dos EUA de exercer hegemonia por meio do consenso econômico (por meio da APEC, que coordena os circuitos econômicos do capitalismo) e da coerção militar (por meio da Rimpac, que garante as condições militares para essa ordem econômica). Embora a Apec pareça tratar apenas de investimentos, cadeias de suprimentos e economia digital, ela é, na verdade, um mecanismo para garantir que os EUA — com pelo menos 260 bases militares e instalações rotativas, da Base Aérea da Raaf em Darwin, na Austrália, à Base Aérea de Kadena, no Japão, e com as manobras militares da Rimpac — permaneçam a potência dominante na região. A estratégia dos EUA para conter a China está agora firmemente ancorada na dinâmica Apec-Rimpac. In capazes de contestar a prosperidade econômica da China e de seus vizinhos, os EUA recorrem a campanhas de pressão militar e diplomática.

A cúpula na Coreia do Sul foi marcada por manifestações em massa lideradas por sindicatos de trabalhadores da indústria e agrícolas, grupos de direitos humanos e organizações estudantis. Também houve focos de apoiadores ultranacionalistas do ex-presidente Yoon Suk Yeol (2022–2025), do Partido do Poder Popular (de direita), que declarou lei marcial em 2024. Mas esses grupos não representaram a maior parte das manifestações, que visam a criação de uma economia centrada nas pessoas na Coreia do Sul e se opõem à tentativa de usar a cúpula da APEC para consolidar a elite política do país, que permanece abalada pela queda de Yoon.

[Se comentar, identifique-se]

Contradições aguçadas no mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/palavra-do-pcdob.html 

Nenhum comentário: