Unidos
pelo entulho
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Alguém já disse - na verdade, milhares de pessoas dizem isso - que a rivalidade entre times brasileiros de futebol enseja mais amor, alegria, revolta, ódio e tristeza do que uma guerra entre dois países. Muito além do racional. Pura e cega emoção. Fanatismo.
Silvio Guimarães,
meu colega de turma na antiga Faculdade de Medicina da UFPE, quando presidia o
Sport Clube do Recife, não faz muito tempo, teve seu gabinete invadido por um
velho amigo que lhe atirou ao peito a carteira de sócio rubro-negro, semidestruída,
e aos gritos protestou porque um patrocinador do clube havia pintado seus
anúncios no estádio da Ilha do Retiro em cores vermelho e branco. Ora, isso é
coisa de alvirrubro, do arquirrival Clube Náutico Capibaribe! Inadmissível. Que
a logomarca da empresa se transmutasse em vermelho e preto ou não tinha acordo.
Salvo engano meu, o
acordo foi feito e mudaram-se as cores da logomarca, pelo menos no estádio do
Leão da Ilha. E o sócio continuou sócio.
Também ouvi falar
que um corintiano apaixonado teria ido às lagrimas porque um filho, vítima de
infecção intestinal, teria defecado verde. Como admitir em sua própria família
esse absurdo, merda na cor do Palmeiras, jamais!
Mas eis que, dias
atrás, vi na TV que boa parte da metralha resultante da demolição do
Parque Antarctica, do Palmeiras, serviu como matéria prima na construção da
futura arena do Corinthians, em Itaquera, na forma de brita reciclada. Isto sem
conhecimento prévio dos diretores dos dois clubes, segundo informa a empresa
envolvida no caso.
E
agora? Aceitarão os corintianos esse supremo sacrilégio, que os fará pisar
no solo sagrado de sua própria arena sabendo que nos alicerces há material
outrora pertencente ao Palestra Itália? Pelo andar da carruagem, quer dizer, da
construção, já não há mais o que fazer. A obra já tem pouco mais de 90%
realizada. Termina em dezembro.
Bobagem! - diz o
amigo Epaminondas, com quem comento o assunto, ele próprio americano fanático,
incapaz da menor concessão ao adversário ABC, nas pelejas norte-rio-grandenses.
– Torcedor tem jeito pra tudo, amigo. Pois a turma do timão, em São Paulo, pode
dizer que, nas arquibancadas, pulará sobre farelos de concreto alviverdes. Com
força e com ódio.
Talvez sim. Em
matéria de futebol, mais ainda de confronto entre torcidas enfezadas, todo
argumento é válido, a mais grotesca sublimação assume ares de tese
fundamentada, racional e correta.
Aqui mesmo na heroica
terra do Frei Caneca, o Santa Cruz amarga há alguns anos a terceira divisão do
futebol brasileiro. Suprema humilhação para a grande nação tricolor, campeã de
público nos estádios, vencendo até para os grandes times do Rio e de São Paulo.
Errado. A nação
tricolor torce sim para voltar à chamada divisão de elite do futebol nacional,
mas enquanto isso comemora três títulos consecutivos no campeonato estadual. E
ainda tripudia sobre torcedores do Sport e do Náutico: no século 21, só o
santinha conseguiu ser tricampeão. E estamos conversados.
Crônica
de outubro de 2013
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Leia também: "Palavras fora de lugar" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_7.html

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