15 fevereiro 2025

Futebol: ciência & arte

Muitos treinadores desdenham da evolução da ciência esportiva
É negacionismo científico achar que a verdade está sempre no que acreditam
Tostão/Folha de S. Paulo 

A grande magia do futebol é unir arte e ciência, o planejamento e a imprevisibilidade, a certeza e a incerteza. Se o árbitro tivesse expulsado o zagueiro Lyanco após pisar no braço de Dudu, no clássico entre Cruzeiro e Atlético-MG, a história da partida tinha tudo para ser diferente por causa da grande vantagem de ter um jogador a mais. A maioria das pessoas opinou a favor da expulsão de Lyanco, no que concordo.

Gabigol foi expulso merecidamente. Ele mostrou mais uma vez o seu descontrole emocional, pois foi expulso outras vezes nos últimos anos atuando pelo Flamengo.

Até os 30 minutos do primeiro tempo, quando o jogo estava 0x0 e cada equipe tinha 11 jogadores, havia um equilíbrio, sem brilho. A única clara chance de gol foi do Cruzeiro, perdida por Gabigol. Após a expulsão do atacante, o Atlético-MG pressionou, como se esperava, e venceu por 2x0. Cássio falhou no primeiro gol.

Até os 30 minutos, quando Cruzeiro e Atlético-MG tinham o mesmo número de jogadores, os dois times mostraram que precisam evoluir se quiserem ter chances de ganhar um grande título, como o Brasileirão. Hulk, mais uma vez, foi o destaque do jogo, com dois gols. Ele une talento e força física, consequência de seu porte físico e seriedade profissional.

Cuca foi brilhante ao trocar um zagueiro por mais um atacante, além de recuar um dos meio-campistas para iniciar as jogadas de trás, já que o Cruzeiro tinha apenas Mateus Pereira mais adiantado. É o que o ex-treinador Militão poderia ter feito quando o Botafogo ficou com um jogador a menos desde o início, na final da Libertadores.

A enorme importância dos treinadores na formação, comando, escalação e condutas durante as partidas é inquestionável. No entanto, em jogos especialmente equilibrados, detalhes esporádicos, imprevisíveis, mudam a história de uma partida, como a expulsão de um jogador, um erro do árbitro e dezenas de outros fatores.

Quando o time vence por causa de um detalhe ocasional, o técnico é bastante elogiado pelas condutas. Quando o time perde, ele é criticado, mesmo por ações que não tenham nenhuma importância. Comentaristas, muitas vezes com ótimos argumentos, tentam achar uma única razão estratégica para explicar as atuações e resultados, como se o treinador fosse o único responsável pela vitória ou pela derrota. Para os analistas, justificar a história do jogo por fatores inexplicáveis seria negar a ciência. O acaso e a ciência andam juntos.

Uma das dificuldades frequentes dos técnicos é conviver durante as partidas com o imprevisível, com o que não foi planejado nem ensaiado. Entram em pânico. Uma das grandes virtudes de um treinador é ser capaz de, diante de surpresas que ocorrem durante o jogo, tomar atitudes não programadas.

Nas duas últimas eliminações do Brasil nas Copas, em 2018 e 2022, para a Bélgica e para a Croácia, seleções que não estavam entre as favoritas, fatores imprevisíveis contribuíram bastante para as derrotas do time brasileiro.

Muitos treinadores, geralmente os veteranos, mesmo atualizados, preferem as condutas baseadas em suas experiências positivas do que na evolução da ciência esportiva.

É o negacionismo científico, o pensamento mágico, de achar que a verdade está sempre no que acreditam.

Futebol: quando os veteranos perdem a ambição https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/futebol-gloria-passageira.html

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