28 março 2025

Minha opinião

Apenas pirotecnia 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 

Politicamente acuado e na iminência de uma pesada condenação pelo Superior Tribunal Federal, o ex-presidente Jair Bolsonaro ocupa parte do seu tempo praticando mera pirotecnia como que para disfarçar a angústia de réu envolvido até o pescoço. 

Dentre várias afirmações desconexas, diz que gostaria de ter um debate frente a frente com o ministro Alexandre de Moraes a propósito das acusações que pesam contra ele. 

Obviamente, algo impensável. 

Afinal, não se trata de arenga entre torcidas de futebol. Trata-se da provável punição de um ex-presidente da República por haver ostensivamente atacado as instituições e liderar atabalhoada trama golpista. 

Agora, cabe ao réu defender-se judicialmente e não alimentar a ridícula pretensão de reeditar o "cercadinho", de onde dizia diatribes quando presidente.

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Leia: Parece cena de ópera bufa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/minha-opiniao_25.html

EUA em curva decadente

Reagan, Trump e a “destruição inovadora”
A década de 70 do século passado, os EUA sofreram uma série de reveses militares, econômicos e geopolíticos: foram derrotados na Guerra do Vietnã; surpreendidos pela Guerra do Yom Kippur e pela criação da OPEP e a subida dos preços internacionais do petróleo; e foram surpreendidos uma vez mais pela Revolução do Aiatolá Khomeini, no Irã, em 1979; seguida pela “crise dos reféns” americanos que foram mantidos presos durante 444 dias na embaixada dos EUA em Teerã, culminando com a invasão soviética do Afeganistão, em dezembro de 1979.
José Luís Fiori/Observatório Internacional do Século XXI 

Muitos analistas falaram naquele momento de uma “crise final da hegemonía americana”. Frente a essa situação de declínio relativo de poder, entretanto, os EUA destruíram a ordem mundial que haviam criado depois da Segunda Guerra Mundial e adotaram uma nova estratégia internacional, com o objetivo de manter sua primazia mundial.

Primeiro, aceitaram a derrota, renderam-se e assinaram um acordo de paz com o Vietnã; ao mesmo tempo, abandonaram o padrão-dólar que haviam imposto ao mndo em Bretton Woods, em 1944; em seguida, pacificaram e reataram relações com a China; e enterraram definitivamente seu projeto econômico desenvolvimentista, impondo uma abertura e desregulação financeira da economia internacional, enquanto iniciavam uma nova corrida armamentista, conhecida como a 2ª. Guerra Fria, que culminou com a derrocada da União Soviética.

Um verdadeiro tufão conservador e neoliberal, que começou no governo de Richard Nixon e alcançou sua plenitude durante o governo de Ronald Reagan, mudando radicalmente o mapa geopolítico do mundo e transformando de forma irreversível a face do capitalismo mundial.

Agora de novo, na segunda e terceira décadas do século XXI, os EUA vêm sofrendo novos e sucessivos reveses militares, econômicos e geopolíticos. Foram derrotados no Afeganistão e obrigados a uma retirada humilhante da cidade de Cabul, em agosto de 2021; estão sendo derrotados de forma inapelável na Ucrânia; sofreram uma perda significativa de credibilidade moral em todo mundo, depois do seu apoio ao massacre israelense dos palestinos da Faixa de Gaza; vêm sofrendo um processo acentuado de desindustrialização e sua moeda, o dólar vem sendo questionado por seu uso como arma de guerra contra países concorrentes ou considerados inimigos dos seus interesses; e por fim, os EUA têm perdido posições importantes na sua competição tecnológico-industrial e espacial com a China, e na sua disputa tecnológico-militar com a Rússia.

Neste momento, uma vez mais, o governo norte-americano de Donald Trump está se propondo refazer sua primazia através de uma nova mudança radical de sua estratégica internacional, combinando doses altíssimas de destruição, com algunas propostas disruptivas e inovadoras no campo geopolítico e econômico, partindo de uma posição de força e sem pretensões éticas ou missionárias, e orientando-se apenas pela bússola dos seus interesses nacionais.

A principal consigna de campanha de Donald Trump -“fazer a América grande de novo”- já é por si mesma, um reconhecimento tácito de que os EUA estão enfrentando uma situação de crise ou declínio que precisa ser revertida. E suas primeiras medidas são todas de natureza defensiva: seja no caso da sua política econômica mercantilista, seja no caso da “barreira balística” que ele está se propondo construir em torno do território americano. E o mesmo se pode dizer de suas agressões e ameaças verbais, que tem sido dirigidas contra seus vizinhos, aliados e vassalos mais próximos e incondicionais.

De qualquer maneira, o mais importante tem sido o ataque avassalador e destrutivo de Donald Trump e seus auxiliares mais próximos, contra as regras e instituições próprias da orden internacional constru ída pelos EUA, como resposta à sua crise dos anos 70 do século passado. E contra os últimos vestígios da orden mundial do pós-Segunda Guerra, como no caso das Nações Unidas e do seu Conselho de Segurança.

Com ênfase particular no ataque e destruição americana do multilateralismo e do globalismo econômico que se transformaram na principal bandeira americana do pós-Guerra Fria. Neste capítulo das “destruições”, deve-se sublinhar também o ataque seletivo e estratégico do governo Trump contra todas as peças de sustentação interna -dentro do próprio governo americano- do que eles chamam de deep state, a verdadeira base de sustentação e locus de planejamento das guerras norte-americanas.

No plano internacional, entretanto, a grande revolução -se prosperar- será efetivamente a mudança da relação entre os EUA e a Rússia, que vem sendo proposta pelo governo de Donald Trump.

Uma inflexão muito profunda e radical, muito mais do que foi a reaproximação entre os EUA e a China, na primeira metade dos anos 70. Porque, de fato, no século XX, os EUA herdaram uma inimizade, competição e polarização geopolítica construída pela Grã Bretanha contra a Rússia, desde o momento em que se consagrou a vitória dos russos e dos ingleses contra a França de Napoleão Bonaparte, no Congresso de Viena, de 1815.

Desde então, os russos foram transformados pelos ingleses em seus “inimigos necessários”, e serviram como princípio organizador da estratégia imperial inglesa. Uma realidade histórica que foi depois consagrada pela teoria geopolítica do geógrafo inglês Halford Mackinder, segundo a qual o país que controlasse o coração da Eurásia, situado entre Moscou e Berlim, controlaria o poder mundial.

Por isso, os ingleses lideraram a Guerra da Criméia, entre 1853 e 1856, contra os russos; e de novo lideraram a invasão da Rússia depois do fim da Primeira Guerra Mundial; e cogitaram fazer o mesmo logo depois da Segunda Guerra. Uma obsessão de Winston Churchill que acabou cedendo lugar ao projeto de construção da “cortina de ferro” e da OTAN.

Essa obsessão inglesa foi repassada aos norte-americanos depois da Segunda Guerra Mundial e esteve na origem da Guerra Fria. A partir de então, os EUA e a GB (junto com seus aliados da OTAN), construíram uma gigantesca infraestrutura militar -material e humana- destinada a “conter os russos” e, se possível, derrotá-los estrategicamente. A última tentativa foi feita agora na Guerra da Ucrâniae fracassou uma vez mais.

E se o projeto atual de Donald Trump de aproximação da Rússia prosperar, ele estará sucateando toda essa infraestrutura junto com todas as demais alianças americanas construídas a partir de 1947, com vistas à esta “guerra final” contra os russos.

Nao e pouca coisa muito pelo contrário, e muitos líderes euro-atlânticos que tentaram romper essa barreira ficaram pelo caminho. Podendo-se prever, inclusive, a possibilidade de algum tipo de atentado ou auto-atentado, a partir do próprio mundo anglo-saxão, com o objetivo de barrar esta mudança de rumo norte-americana.

Sim, porque está sendo rompida e enterrada a aliança estratégica anglo-saxônica, que foi fundamental para a dominação ocidental do mundo, desde a Segunda Guerra Mundial, desmontando-se ao mesmo tempo, como um castelo de cartas, o projeto da OTAN, o G7, e talvez a própria União Europeia.

Mas nada disto encerra a competição interestatal pelo poder global. O projeto de Trump diminui a importância da Europa e diminui a importancia da fronteira europeia da Rússia, deslocando as linhas de fratura da geopolítica mundial para o Ártico e para o Sul do Pacífico. Mas a própria cobiça de Trump com relação ao Canadá e à Groenlândia explicita seu projeto de construção de uma grande massa territorial equivalente à russa, justo em frente à fronteira norte e ártica da própria Rússia.

E ao mesmo tempo, o projeto de negócios conjuntos entre russos e norte-americanos, que vem sendo insistentemente anunciado, sobretudo na região do Polo Norte, aponta para um possível distanciamento futuro e “pelo mercado” da Rússia com relação à China, para não permitir que se consolide uma aliança estratégica inquebrantável entre Rússia e China, ou mesmo entre Rússia e Alemanha. Porque a China seguirá sendo no Século XXI, o principal competidor e adversário dos EUA, neste planeta e no espaço sideral.

A estratégia americana de “destruição inovadora” terá -desta vez- o mesmo sucesso que teve no século passado, com Richard Nixon e Ronald Reagan?

É difícil de saber, porque não se sabe quanto tempo durará o projeto de poder de Donald Trump e seus seguidores. E em segundo lugar não se conhece o impacto mundial de uma política econômica mercantilista e defensiva, praticada pela maior economia do mundo. O nacionalismo econômico foi sempre uma arma dos países que se propõem “subir” na hierarquia internacional, e não de um país que não quer “descer”.

De qualquer  maneira, do ponto de vista geopolítico o projeto Trump pode estar apontando na direção de um grande acordo “imperial” tripartite, entre EUA, Rússia e China, como também pode estar apontando para o nascimento de uma nova ordem multipolar que lembra, de certa forma, a história europeia do século XVIII.

Com a grande diferença que agora o “equilíbrio de forças” do sistema envolvería uma competição entre potências atômicas de grande dimensão, quase impérios, como é o caso dos EUA, da China, da Rússia, da Índia, e da própria Uniao Europeia , caso ela consiga se reorganizar e rearmar sob a liderança da Inglaterra ou da Alemanha. E, em menor escala, da Turquia, do Brasil, da Indonésia, do Irã, da Arábia Saudita e da África do Sul.

Um mundo difícil de ser administrado, e um futuro impossível de ser previsto.

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Leia: As tarifas aduaneiras de Trump salvarão os EUA? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/trump-e-guerra-tarifaria.html 

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União Europeia lançará comitê de crise para responder a guerras e emergências climáticas. Por que só agora?

Leia: Futebol hoje é ciência e arte https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/futebol-ciencia-arte.html 

Palavra de poeta

Ausência
Vinícius de Moraes 

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

[Ilustração: Ferdinand Hodler]

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Leia: Comunicação digital entre a virtude e a culpa e a luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/minha-opiniao_13.html 

27 março 2025

Ronald Freitas opina

Crescem os desafios que o Governo Lula 3 precisa superar
Instabilidade política, entraves estruturais e embates ideológicos dificultam avanços do terceiro mandato de Lula, mesmo com programas sociais e crescimento econômico.
Ronald Freitas/Portal Grabois www.grabois.org.br

Como se apresenta a realidade atual - À medida que o tempo passa e vai se realizando o terceiro governo do presidente Lula — já se vão 26 meses, de um total de 48 —, a espera de que o governo deslanche em realizações e popularidade é crescente no campo democrático e progressista do país. Mas o que fatos vêm demonstrando é que, embora o governo tenha obtido êxitos em reconstruir parte do arcabouço burocrático, que ordena segmentos do Estado brasileiro – como a reativação da criação de programas sociais estruturantes, por exemplo, bolsa família, minha casa minha vida, mais médicos –, e criado novos como “pé-de-meia”, bem como procurado retomar programas de reanimação industrial, com o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Programa Nova Indústria Brasil (NIB), e encaminhado para discussão e apr ovação do Legislativo temas de largo alcance econômico, político e social – como Reforma Tributária, Flexibilização do teto de gastos, com o título de novo arcabouço fiscal etc. – o seu governo patina e, segundo as últimas pesquisas, perde aprovação da sociedade.

Uma análise isenta e desapaixonada dessa realidade é um desafio que se coloca para o campo progressista e democrático, do nosso espectro político, mormente para os setores de esquerda.

Na economia, convivemos com uma situação paradoxal: de um lado, o PIB cresce, o desemprego cai a níveis muito baixos, a indústria passa a contribuir de forma mais significativa para a formação do PIB, etc. E, de outro lado, a inflação é crescente, há aumentos de preços, principalmente de itens básicos de consumo popular, que são sentidos no bolso da população, principalmente a de baixa renda quando vai fazer suas compras.

Na política, a disfuncionalidade das instituições do Estado, particularmente com o papel hoje jogado pelo Legislativo, é um fator inibidor da realização de políticas públicas que promovam o desenvolvimento da Nação e simultaneamente diminuam o fosso social entre as classes e camadas sociais. O atual poder Legislativo transformou-se em uma arena de disputas, pouco republicanas, pela apropriação do dinheiro público, por meio das tão faladas emendas parlamentares.

Na esfera social, aumentam as desigualdades, trazendo no seu bojo mais miséria para os já desvalidos e o aumento da criminalidade para toda a sociedade, gerando um clima de insegurança social que atinge indiscriminadamente cada cidadão e cidadã.

E esse cenário acima descrito, trabalhado pela oposição de direita e extrema-direita de forma eficiente, particularmente no que diz respeito aos modernos instrumentos de comunicação social, leva a maioria da sociedade a uma sensação de abandono pelo poder público (leia-se governo Lula). Essa sensação de abandono pelo governo e descrença na política, (como o locus público onde se deve mediar os conflitos existentes na sociedade), pela maioria da população, está na base do espaço que se abre para o surgimento e atuação de políticos de extrema-direita, de perfil messiânico e de visão neofacista de governo.

Este cenário, levemente esboçado nos parágrafos anteriores, é uma apertada síntese da situação conjuntural que atravessamos.

Aspectos da situação estrutural

É numa abordagem mais aprofundada da realidade, que procura examinar os fundamentos da situação descrita – à qual chamamos de estrutural –, é que se encontram os caminhos para que sejam elaboradas e executadas propostas que nos levem à superação de tão desafiador cenário.

No terreno da política, stricto sensu, a meu ver devemos abrir com a sociedade um debate, onde possamos mostrar que, com a atual forma de como o Estado Nacional Brasileiro está organizado e administrado, será impossível levar à frente um projeto de desenvolvimento nacional soberano e com inclusão social. Na atualidade o Estado brasileiro passa por um período de controle do alto capital bancário e financeiro, do alto capital do agronegócio e de setores da alta burocracia estatal (civil e militar), todos eles associados, em diferentes escalas, com os interesses do capital imperialista internacional, que são empecilhos estruturais para que possamos levar adiante um programa nacional de desenvolvimento soberano e socialmente inclusivo, como o país necessita.

Urge discutirmos com a sociedade um projeto de REFORMA POLÍTICA, que reorganize o Estado Nacional. Para tanto, faz-se urgente a elaboração de um Plano Nacional de Desenvolvimento, que defina as prioridades nacionais estratégicas em todos os campos de nossa vida social. Seja no terreno das tecnologias de ponta hoje em desenvolvimento, seja no terreno da modernização de infraestrutura logística, urbana e rural, seja no terreno da segurança pública, com destaque para o combate ao crime organizado de qualquer natureza, seja no terreno educacional em todos os níveis, seja no terreno da ciência e tecnologia, etc. Para isso, torna-se imperativo restabelecer e mesmo estabelecer um reequilíbrio entre os poderes fundamentais da República, devolvendo ao Executivo a capacidade de executar o orçamento da Nação, em função desse Plano Nacional, e de se r o indutor da implementação das políticas públicas desse Plano derivadas.

Na área econômica, é necessária uma mudança profunda nos rumos conceituais e teóricos que regem a economia do país. Hoje predominam, de forma quase absoluta, os princípios orientadores da economia neoliberal, na qual o Estado é reduzido a um mero apêndice do grande capital nacional e internacional, financeiro ou não. É preciso abrir na sociedade um debate sobre que tipo de Economia Política é necessário para que possamos levar à frente uma Política Econômica a serviço da implementação do Plano Nacional de Desenvolvimento acima referido.

Para isso é imprescindível implementar um debate crítico acerca do fio orientador de nossa Economia Política, que está sintetizado no chamado Consenso de Washington, baseado nos dez pontos elaborados pelo economista John Williamson, em 1989, impostos mundo afora pelo FMI, Banco Mundial e o governo americano: disciplina fiscal, redução dos gastos públicos, reforma tributária, juros de mercado, câmbio livre, abertura comercial, eliminação de restrições ao investimento estrangeiro direto, privatização de estatais, desregulamentação, direito à propriedade intelectual.

Necessitamos elaborar um Plano de desenvolvimento baseado numa visão basicamente antagônica à estabelecida pelo Consenso de Washington, ou seja: Ter o Estado como indutor do desenvolvimento por meio de incentivo ao surgimento e desenvolvimento de empresas públicas e privadas. Onde o governo não paute sua política econômica pela austeridade, derivada da disciplina fiscal e da limitação dos gastos públicos, necessários para promover o crescimento econômico. Onde a política cambial esteja a serviço do desenvolvimento nacional, e não ao do livre-cambismo exigido pelo sistema financeiro internacional. Onde, sem discriminação, haja espaço para atuação de capitais estrangeiros, desde que devidamente regulados, e destinados ao setor produtivo da economia e não a especulação financeira. Onde sejam revertidas as privatizações de áreas estratégicas, como as do setor de energia elétrica, de telecomunicações, de informática; de empresas importantes da cadeia de Óleo & Gás. E que a lisura e moralidade no uso do dinheiro público sejam um princípio orientador da administração, em todos os níveis e instâncias, e não um mero instrumento de justificativa para “cortar gastos”, ditos supérfluos, para pagar os juros escorchantes de uma dívida pública, no fundamental imposta ao Estado por meio de seus agentes no governo.

No ambiente político-social, é urgente construir mecanismos de mobilização da base da sociedade que, devidamente organizada e engajada em torno das propostas do Plano Nacional de desenvolvimento, seja o esteio do governo, principalmente do Executivo, no processo de implementação das propostas de mudanças. Para isso torna-se imperativo rever as reformas trabalhistas e sindicais implementadas, pelos governos Temer e Bolsonaro, que levaram à desorganização das massas trabalhadoras – dessa maneira, fragmentando-as e, em certo sentido, anulando o seu poder de pressão política sobre os governos e patrões – a fim de verem seus interesses preservados e ampliados. Além disso, está diante de nós o desafio de criar novos instrumentos de mobilização que contemplem as novas formas de trabalho, derivadas de inovações tecnológicas, que per mitem uma superexploração do trabalho por meio do fenômeno chamado de uberização.

Também é da maior importância termos, no governo, um setor de comunicações que, ao lado de dominar eficazmente os novos meios de comunicação de massas, tenha como fator central a disseminação de conteúdos que exaltem a importância de construirmos um Brasil soberano, desenvolvido e socialmente mais justo, despertando na sociedade como um todo, mas principalmente nas suas camadas de base, um sadio sentimento de que defender a Nação e sua soberania e defender a implementação de políticas econômicas que tenham como foco aumentar o poder e a soberania nacionais são atitudes ideológicas fundamentais para que possamos ter êxito na superação dos impasses estruturais, e dos empecilhos conjunturais que nos conduzem a um beco sem saída. E, além disso, conscientizando o conjunto da sociedade, e em particular as mass as trabalhadoras que, sem essa superação, não serão extintas as profundas chagas sociais que existem entre nós.

Mas… e a correlação de forças? Como torná-la favorável a atingir esses objetivos?

Essa é uma questão central da política. Só se faz avançar projetos políticos, seja progressista, seja regressista, se os defensores de cada um deles tiver força política capaz de levá-los adiante (isso é aparentemente acaciano, mas…). E, nas condições atuais da política nacional, os ventos da correlação de forças não são favoráveis à implementação das ideias e propostas expostas acima. Porém, essa mera constatação não pode ser um escudo para circunscrevermos nossa ação política aos limites impostos pela correlação de forças hoje existente no Brasil e mesmo no mundo.

Vivemos um período de grande instabilidade geopolítica, em escala mundial, que repercute — e continuará repercutindo — em nossa política interna, na qual inúmeros indicadores nos mostram uma tendência de aguçamento das contradições entre o imperialismo e povos e nações soberanos, e mesmo contradições interimperialistas que criam uma situação de instabilidade em escala mundial, onde o uso da força para resolver, ou tentar resolvê-las, expressa-se no ambiente de guerras localizadas — seja na Ucrânia, seja no Oriente Médio, seja na África —, que podem se generalizar em um novo conflito de escala mundial.

Diante de um cenário desse tipo na cena externa e de nossas condições de crise interna, convém nos prepararmos desde logo para ter que viver num mundo mais instável e inseguro – o que torna necessária a implementação de um Projeto Nacional de Desenvolvimento soberano, democrático e socialmente mais justo, que nos capacite a enfrentar eventuais conflitos militares mais intensos que, no limite, podem atingir nossas fronteiras.

Nesse sentido, iniciar um debate em torno de como viabilizar um Projeto de Construção de um Brasil desenvolvido, soberano e socialmente mais justo, cujo conteúdo extrapole os limites impostos pelo capital financeiro nacional e internacional, bem como os limites da visão de uma social-democracia mitigada, é um desafio inadiável que as forças progressistas, democráticas e de esquerda devem se impor.

Ronald Freitas é membro do Comitê Central do PCdoB e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Estado e Instituições da FMG.

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Leia: O principal problema do governo é político, mas será superado”, diz líder do PCdoB https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/palavra-de-renildo.html

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Além do horizonte visível https://bit.ly/3Ye45TD 

Humor de resistência

 

Enio

Leia: Tentativa de “apropriação” de Haddad https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/minha-opiniao_8.html