29 abril 2023

Eclipse da atenção

Para encarar o eclipse da atenção e do desejo

Ansiedade. Pânico. Saturação. Com o frenesi capitalista, o transbordamento é o mal-estar de nossa era. A brutalidade impõe o cotidiano opaco: já não o vemos nem sentimos. Acolher o não-calculável é crucial para resgatar desejos e o cuidado
Amador Fernández-Savater/OutrasPalavras

 

Eu não aguento mais! Esta frase tornou-se constante na correria que é tentar viver o cotidiano — em suas tribulações e belezas. Mas o que, afinal, já não suportamos? O trabalho massacrante? As engrenagens perversas do sistema? A vida precarizada? Ou tudo isso e muito mais?

Nesta entrevista, Amador Fernández-Savater — um ativista e pesquisador espanhol; ou um filósofo pirata, como gosta de se definir – busca compreender esta crise que é pessoal, mas também coletiva. Ele é coorganizador de El eclipse de la atención (ainda inédito no Brasil), livro recentemente publicado que propõe analisar um mal-estar civilizacional: a crescente sensação de transbordamento no capitalismo contemporâneo. Na obra, diversos pensadores – entre eles, Ives Citton, Santiago Alba Rico, Franco Bifo Berardi e o próprio Fernández-Savater – apontam algumas pistas para entendê-la.

A primeira é que atenção é algo diferente de concentração. Se esta requer disciplina e um “esforço laborioso da vontade”, aquela representa a capacidade de enxergar os pequenos detalhes (e potencialidades) do cotidiano, que muitas vezes passam despercebidos. A atenção, portanto, é uma espera ativa que se contrapõe ao imediatismo neoliberal – e requer uma dimensão temporal mais heterogênea que possa dar vazão aos desejos humanos.

A segunda pista é que este eclipse da atenção não é algo apenas cognitivo e “teórico”, mas muito concreto nas mentes e corpos. Expressa-se no déficit de atenção, em transtornos de hiperatividade, síndrome do pânico, em relações ansiosas com novas tecnologias, abuso de psicofármacos etc. Manifesta-se também na precarização da vida, em que profissionais – como os da Saúde e da Educação, por exemplo – se veem impotentes diante da multiplicação de demandas e até no “atravessamento dos limites físicos e biológicos do planeta”, como aponta Fernández-Savater.

E, por fim, a necessidade de encarar a atenção como uma das chaves para as lutas coletivas ao pressupor formas de combater os automatismos cotidianos (no bojo das novas tecnologias) e a profunda crise do cuidado. Afinal, a atenção mostra-se como uma poderosa capacidade de nos olhar e olharmos para o mundo, destaca Fernández-Savater, o que requer “tempo, recursos e contextos institucionais adequados” e acolher o não-calculável para que possamos reativar as forças capazes de transformar o mundo a partir do Comum. Afinal, almejar algo requer estar realmente atento.

E se há desejo há atenção.

O que é e quais são os sintomas do eclipse da atenção?

Poderíamos talvez falar de um sintoma maior: a sensação de transbordamento saturação como um mal-estar de nossa época. Essa sensação, bem física e material, se expressa de muitas maneiras diferentes: pensemos nos ataques de pânico e nos ataques de ansiedade, que são descritos precisamente como uma perda de controle do corpo em que o sujeito sente vontade de morrer; pensemos nas escolas ou centros de saúde que, na Espanha, mas certamente não só, denunciam a falta de tempo e recursos para enfrentar a multiplicação de demandas; pensemos inclusive na travessia dos limites físicos e biológicos do planeta. É, por todos os lados, uma sensação de transbordamento: dos corpos, dos tempos, dos espaços sanitários e educativos, do próprio planeta.

É muito fácil de entender, usando os exemplos que demos antes. Um professor ou profissional de saúde, por mais que se esforce para fazer bem o seu trabalho, é em grande parte condicionado pelas condições de atenção que o habita. Ou seja, o problema da atenção não aponta apenas para uma questão privada e individual, mas também coletiva e, portanto, política. A atenção é um ambiente, um ecossistema, um espaço relacional, como Yves Citton [professor francês de literatura e mídia da Universidade Paris VIII] se propõe a pensar em seu livro sobre uma ecologia da atenção. É preciso não só buscar a reabilitação da atenção em termos individuais, procurando exercê-la de diversas formas, mas também criar melhores “situações de atenção”. Em muitos casos, essas situações passam por tempo, recursos e contextos institucionais adequados. Uma verdadeira luta política.

Muitos pesquisadores apontam que vivemos uma epidemia de deficit de atenção, assim como de outros transtornos mentais – e, muitas vezes, medicados com muitos fármacos. Como pensar a saúde mental em nosso tempo a partir de outras perspectivas?

Pensando primeiro que toda saúde mental é precária e que aspirar a uma saúde mental que seja definidora pressupõe uma fortificação do sujeito (à base de comprimidos e diferentes formas de anestesia) que pode revelar-se fatal. O reprimido regressa de forma ainda mais temerosa e a morte se instala no coração de quem quer viver sem nenhum sobressalto. Nossas “feridas” nos fazem sofrer, sem dúvida, mas ao mesmo tempo são uma fonte de energia, de transformação que trata de interrogar e elaborar. Não se trata de proteger-se deixando o que desestabiliza de fora, o que nos leva à procura de todo o tipo de bodes expiatórios, mas de aprender a saber-fazer com a nossa própria loucura – porque todos somos mais ou menos loucos, o que é sabido desde Freud.

A precarização da vida, a pandemia e a digitalização da sociedade são apontados como os principais fatores para esse eclipse de atenção. Você concorda com esse diagnóstico?

Há um círculo vicioso: de um lado, o transbordamento que traz consigo a vitória da lógica do lucro sobre qualquer outro valor social. As vidas individuais, os centros de saúde primários, as escolas e o próprio planeta são explorados, precarizados e “não dão conta”. Por outro lado, os automatismos: todos os tipos de padrões, protocolos e algoritmos que organizam a nossa vida, como os únicos dispositivos capazes de “estar à altura” da eficiência e da velocidade exigidas por essa máquina de extração de lucro imediato em que vivemos. A eficiência que esses automatismos buscam é, muitas vezes, apenas a eficiência da performance, a eficiência do mundo das coisas. Transbordamento, crise dos cuidados e da atenção, automatismos: é o círculo vicioso do qual temos que pensar como sair.

Diante do ritmo frenético que nos é imposto, qual a importância do Cuidado e da Serenidade como formas de resistência ao neoliberalismo?

Fundamentalmente, Simone Weil [1909-1943, filósofa francesa que analisou o cotidiano das fábricas] fala de atenção como “capacidade de esperar”. Ela diferencia atenção e de concentração: a atenção não é um esforço laborioso da vontade, mas um estado de abertura e disponibilidade. Ao mundo, aos outros e à situação em que habitamos. Não requer tanto trabalho ou uma disciplina penosa, como relacionamento com desejo e alegria. Se há desejo há atenção, prestamos atenção ao que desejamos. Não consiste tanto em “focar-se” ou “centrar”, mas em esvaziar-se de preconceitos para poder acolher algo desconhecido e não previsto de antemão. Essa “espera ativa” implica um tempo radicalmente heterogêneo ao imediatismo capitalista. Um tempo de processo, um tempo de elaboração, o tempo de “ver, compreender e decidir” de que falava Jacques Lacan.

Em seu artigo sobre Marcuse (traduzido e publicado por Outras Palavras), você aponta que o as potencialidades de libertação humana estão nos pequenos detalhes – e que, muitas vezes, elas passa despercebidas. Como é possível nos atentar a estes momentos?

Precisamos necessariamente dessa “passividade ou expectativa ativa”. Não se precipitar, ter pressa, não ter opinião sobre tudo, não saber sempre de antemão qual é a posição correta, mas nos abrirmos ao inesperado. Essa abertura pode nos permitir detectar potencialidades, senti-las com o corpo. É preciso uma renúncia ao controle, à imposição da nossa vontade, de nossas intenções, para acolher o não-calculável, o não-previsível e o não-controlável. Sempre há potencialidades, sempre há recursos, e o mundo nos pede um voto de confiança (“acredite no mundo”, disse Deleuze).

Como reaprender a desejar?

Não é possível; não há receita, não há técnica. O desejo às vezes é contagioso em um bom encontro. De repente uma nova fonte de sentido se abre lentamente no calor de um encontro e nossa vida muda imperceptivelmente. Uma amiga minha saiu abatida de um período terrível e injusto que passou na prisão, por quase três anos. Aos sair, ela conheceu uma pessoa, um cara apaixonado pelo cinema. Eles assistiam filmes juntos, conversavam sobre filmes. Aos poucos foi nascendo nela uma nova sensibilidade, uma nova pele. Um novo mundo de possibilidades, objetos, de registro do mundo. Agora ela mesma é uma cineasta e conseguiu filmar este período em que ela passou na prisão. Ela conseguiu vencer as forças que queriam quebrá-la, graças a um desejo contagiante – e, por que não, pelo amor.

Quando mente e corpo não se entrosam’ https://bit.ly/3xU4Cxx

Arte é vida

 

Romero Andrade Lima

A dupla face da moeda https://bit.ly/3mlWMJ0

Enio Lins opina

O mofino nega o dito e escrito e corre da responsabilidade

Enio Lins www.eniolins.com.br

 

Taí uma atitude que não pode ser negada ao falso Messias e a quem lhe tem devoção: não temem o ridículo. O mito não vacila em falar as maiores estupidezes, contradizer-se, dizer o dito pelo não dito, ameaçar e correr em seguida.

Jair mentindo é um mantra
, uma marca. Em seu depoimento à PF, anteontem, o meliante se superou em desfaçatez ao dizer que postou uma de suas inúmeras provocações sem saber, pois estava doidão, “por efeito de remédios [com morfina]”.

Como bem salientou
 o colunista Matheus Pichonelli (UOL), o mito “dá a entender que estava ‘doidão’ por todo mandato”. É isso, pois Jair espalhou ataques criminosos semelhantes ao longo dos recentes quatro anos e por toda sua carreira.

Ameaças de golpe,
 ameaças a vida alheia, ameaças ao processo eleitoral, ameaças aos poderes constituídos... Jair é um ameaçador contumaz, desmentindo-se quando interpelado. Desde sempre, vide o caso da reportagem publicada na Veja em 1987.

Vamos lembrar:
 em 1987, Jair declarou à Veja que explodiria bombas contra o próprio Exército, e entregou um esboço feito por ele mesmo à repórter. Detido e interpelado pela Justiça Militar, choramingou, renegou o dito e o desenhado.

Julgado
, foi absolvido sem unanimidade dos jurados. Logo depois do veredicto (e de sua saída do Exército) o resultado da perícia nos papéis confirmou que era Jair quem tinha escrito o rascunho terrorista – mas ele já havia fugido da farda.

Durante a pandemia
, já presidente, negou ter zombado das pessoas com falta de ar (por causa do Covid), apesar das dezenas de filmagens mostrarem ele próprio se deixando filmar imitando o sufocamento das vítimas do Coronavírus.

Tática velha
 associada a uma estratégia viciada do tipo “covardia acima de tudo, gatunagem em cima de todos”, na sequência: 1) Jair ameaça, tenta ganhar no grito, ruge; 2) se o alvo reage, Jair foge, nega o ato, mia e se faz de vítima.

Jair é treinado para mamar.
 Se derem bobeira, mete a mão e leva. Mas, de grande, até hoje só deu certo a armação da autofacada, pois os golpes para ser ditador paramilitar têm dado errado. Responsabilizado pelo 8 de janeiro, “amorfinou-se”.

Pressão midiática sobre o governo Lula https://bit.ly/3LhuREL

China: recuperação celerada

Recuperação econômica da China melhor do que o esperado
Global Times

 

A principal liderança da China afirmou a recuperação econômica positiva do país até agora este ano, ao mesmo tempo em que reconheceu novos desafios durante uma reunião convocada pelo Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCC) na sexta-feira, enviando o que especialistas disseram ser um sinal sólido de que a China continuará a apoiar a recuperação econômica com políticas expansivas.

A reunião também enfatizou mais uma vez as principais tarefas do governo no estágio atual para estimular o crescimento econômico, incluindo a expansão da demanda e a consolidação da autossuficiência científica, ao mesmo tempo em que enfatizou que a China aprofundará as reformas, expandirá a abertura de alta qualidade e se protegerá contra riscos em áreas-chave.

A reunião, presidida pelo presidente chinês Xi Jinping, analisou a situação econômica atual e o trabalho econômico. Ele disse que todos os departamentos e setores em várias regiões coordenaram bem a situação doméstica e internacional, prevenção/controle epidêmico bem coordenado e desenvolvimento econômico/social, e desenvolvimento e segurança bem coordenados, de acordo com um relatório da Agência de Notícias Xinhua.

Com políticas macro antecipadas e sinérgicas, a "pressão tripla" de demanda reduzida, choques de oferta e expectativas enfraquecidas foi atenuada, enquanto o crescimento econômico foi melhor do que o esperado, a demanda do mercado está se recuperando gradualmente, o desenvolvimento econômico mostrou um impulso ascendente e operação econômica teve um bom começo, disse a reunião.

Por outro lado, a reunião também apontou que a atual melhora no desempenho econômico da China é principalmente restauradora, com fraco dinamismo doméstico e demanda insuficiente. Também enfatizou que a transformação econômica nacional enfrenta novos obstáculos, e promover um desenvolvimento de qualidade ainda requer a superação de muitas dificuldades e desafios.

Tian Yun, um veterano macroeconomista chinês, disse que a reunião classificou a atual situação econômica como positiva, mas não totalmente livre de riscos, já que uma recuperação sólida em muitas indústrias domésticas, comércio exterior por exemplo, ainda está para acontecer, talvez no terceiro ou quarto trimestre deste ano.

"Acho que um sinal transmitido durante a reunião é que a China não se conterá em políticas de apoio para o período atual, apesar do crescimento econômico melhor do que o esperado no primeiro trimestre. Em vez disso, a direção política ainda se concentrará em apoiar a economia para continuar sua rápida recuperação", disse Tian ao Global Times na sexta-feira.

A reunião também enfatizou que a China deve implementar o espírito da Conferência Central de Trabalho Econômico do ano passado, combinando a eficácia das políticas com o estímulo à vitalidade das entidades empresariais para formar uma forte força motriz para promover o desenvolvimento de alta qualidade.

Expansão da demanda e inovação científica

Durante a reunião, os formuladores de políticas enfatizaram novamente uma série de missões importantes que o país deve assumir para impulsionar ainda mais a tendência de crescimento econômico. O primeiro trabalho mencionado é acelerar a construção de um sistema industrial moderno apoiado na economia real, mostrou o relatório da Xinhua.

Para detalhar esse ponto, a reunião observou que a China precisa consolidar a base da autossuficiência tecnológica e do autoaperfeiçoamento e cultivar novas forças motrizes para o crescimento. A reunião mencionou em particular que a China precisa consolidar e expandir as vantagens de desenvolvimento de veículos de nova energia, bem como atribuir importância ao desenvolvimento de inteligência artificial universal

Esta é outra ocasião em que os formuladores de políticas enfatizaram a importância de promover a autossuficiência tecnológica em uma reunião de alto nível. Durante uma recente reunião da Comissão Central para o Aprofundamento Abrangente da Reforma sob o 20º Comitê Central do PCCh, os principais líderes também pediram o fortalecimento da posição principal das empresas na inovação sci-tech, que foi considerada um movimento crucial para aprofundar a reforma científica e tecnológica estrutural e alcançar alto padrão de autoconfiança e força em ciência e tecnologia.

A reunião de sexta-feira também enviou um sinal de apoio à economia de plataforma, dizendo que a China incentivaria as empresas de economia de plataforma a se desenvolverem de maneira saudável e padronizada, além de incentivar as principais empresas de economia de plataforma a explorar a inovação.

Os especialistas observaram que, à medida que a economia da China passa de um período de rápido crescimento para um período de desenvolvimento de alta qualidade, a inovação científica e tecnológica se tornou uma "âncora" importante para a China impulsionar esse modo de desenvolvimento.

Além do desenvolvimento tecnológico, a reunião também enfatizou que restaurar e expandir a demanda é fundamental para sustentar uma recuperação econômica prolongada. Ele observou que as políticas fiscais proativas precisam ser fortalecidas, enquanto as políticas monetárias prudentes precisam ser precisas e poderosas.

De acordo com o encontro, o país vai melhorar ainda mais o ambiente de consumo e promover o consumo de serviços como o turismo. Em particular, a reunião observou que a China deve promover o desenvolvimento estável e saudável do mercado imobiliário.

A reunião também apontou que a China deve eliminar as barreiras legais e regulatórias e as barreiras ocultas que afetam a concorrência leal e o desenvolvimento comum de empresas sob vários sistemas de propriedade, e o país continuará a aumentar a confiança das entidades empresariais e a ajudar as empresas a recuperar sua vitalidade.

Zhou Maohua, economista do Everbright Bank, disse ao Global Times na sexta-feira que a recuperação do consumo doméstico ainda está atrás da produção e da oferta. Por exemplo, o investimento imobiliário ainda estava encolhendo no primeiro trimestre, indicando demanda doméstica insuficiente. Enquanto isso, a inflação no exterior continua alta, o que também aumenta a incerteza da demanda externa da China, disse ele.

"Restaurar a demanda doméstica tornou-se o ponto crucial para estabilizar os fundamentos econômicos da China, bem como o ponto crucial para impulsionar a 'circulação econômica externa e interna'", observou ele.

Ele também previu que a China continuará a usar ferramentas financeiras para apoiar áreas-chave sob a premissa de manter uma liquidez de mercado razoável e abundante.

O diferencial da China no mundo globalizado https://bit.ly/3YXKhmR

Humor de resistência: Miguel Paiva

 

Miguel Paiva

Em cima do lance https://bit.ly/3mlWMJ0


28 abril 2023

El Niño: ameaças

Os possíveis efeitos do El Niño forte previsto por cientistas para 2023

Ángel Bermúdez/BBC



A última vez que o El Niño se formou foi em 2016 — e seus efeitos foram sentidos em todo o mundo.
Esse fenômeno climático contribuiu para o aumento recorde das temperaturas globais, a perda de florestas tropicais, o branqueamento de corais, a geração de incêndios florestais e o degelo polar.
Agora os cientistas acreditam que o fenômeno vai acontecer novamente — e alertam sobre a possibilidade de um El Niño forte se formar nos próximos meses. Além disso, está ocorrendo um aquecimento "acentuado e inesperado" dos oceanos — e, combinados, esses eventos poderiam levar as temperaturas globais a níveis recordes entre 2023 e 2024.
Mas o que sabemos sobre esse fenômeno e por que é preocupante?

Eventos extremos

O El Niño é um fenômeno climático natural — não causado pela atividade humana — do qual há referências desde, pelo menos, o final do século 19.
"El Niño é basicamente uma mudança na força e direção dos ventos alísios que sopram do leste para o oeste no Oceano Pacífico, o que faz com que a água quente encontrada na parte ocidental do Oceano Pacífico se mova para a região central e oriental do Pacífico", explica Ángel Adames Corraliza, professor de ciências atmosféricas da Universidade de Wisconsin, nos EUA, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.
Mas não se trata de uma mudança inofensiva.
O especialista afirma que o movimento dessas águas quentes provoca um aumento significativo das temperaturas oceânicas na área central e a leste do Pacífico .
"As altas temperaturas oceânicas são mais propícias a fortes chuvas e inundações. E isso tem consequências para o ciclo hidrológico na costa oeste da América do Sul, especialmente no Peru e no Equador. Há inclusive efeitos diretos na circulação atmosférica que provocam mudanças nas condições climáticas e no clima em geral tanto na América do Norte quanto na América do Sul e também em outras partes do mundo", diz ele.


Adames afirma que isso gera preocupação, principalmente porque um El Niño forte — como o que está sendo previsto para este ano — costuma estar associado a eventos meteorológicos extremos.
"Estamos falando da possibilidade de vermos eventos climáticos extremos que não tendem a acontecer normalmente, porque o El Niño basicamente altera o clima. Então vemos coisas que não são habituais em diferentes regiões. Isso é motivo de preocupação", observa.
Esse fenômeno climático faz com que, por exemplo, em regiões que costumam ser particularmente chuvosas, como o norte da Austrália, ocorram secas e incêndios; enquanto em lugares como a costa oeste da América do Sul, cujo clima é seco e conhecido por seus desertos, ocorram fortes chuvas.
"O primeiro impacto que se vê é o aquecimento da costa do Peru. Neste ano, se o recorde não foi batido, está prestes a ser. Está extremamente quente e temos visto chuvas com uma intensidade e força que não se vê normalmente, exceto quando você tem essas temperaturas muito altas, causando inundações, deslizamentos de terra, mortes e perdas de recursos materiais terríveis", diz Adames.
Ele explica que o desenvolvimento do El Niño, especialmente se as temperaturas oceânicas continuarem a subir, costuma levar a uma temporada de furacões mais ativa no Pacífico oriental e central.
"Durante os anos de El Niño, há um risco maior de furacões para a costa oeste do México e para o Havaí. Frequentemente vemos furacões ou tufões que atravessam o oceano, e ocorrem furacões mais intensos na região mais ao sul do Oceano Pacífico ocidental. Em contrapartida, a atividade de furacões no Oceano Atlântico diminui", diz ele.
Adames afirma que, embora ainda seja algo em estudo, há indícios de que o El Niño tende a provocar secas no Caribe durante o verão no hemisfério norte, afetando lugares como Cuba, República Dominicana e Porto Rico.

Às vezes, essa seca pode se estender até a América Central -— do Panamá a Honduras, em particular —, além de causar ondas de calor na região amazônica.
"Em geral, os impactos tendem a ser mais de calor e seca para a América Latina, mas os maiores efeitos tendem a ocorrer na encosta ocidental dos Andes e nas montanhas que predominam na América Latina. Então, estamos falando de Lima e de todas as grandes cidades daquela região costeira no lado do Pacífico da América do Sul que tendem a sofrer grandes impactos em termos de chuvas e calor", aponta Adames.

Reforço do aquecimento global

Embora o El Niño tenha uma origem natural não relacionada ao aquecimento global causado pelas atividades humanas, ele pode contribuir para o aumento das temperaturas no planeta.


Este fenômeno climático é caracterizado por uma liberação de calor do Oceano Pacífico para a atmosfera, por meio da qual é distribuído.
"Os anos em que ocorre El Niño tendem a ser mais quentes do que o normal, então, se tivermos um El Niño possivelmente recorde neste ano, ou seja, extremamente forte, estamos falando de um aquecimento significativo da atmosfera que vai se somar ao aquecimento global causado pelo ser humano", adverte Adames.
"A segunda metade deste ano — e mais provavelmente o ano que vem — será um período extremamente quente, com muitas ondas de calor, porque estamos falando de um aquecimento do El Nino, além do aquecimento causado pelo ser humano. Portanto, é possível que 2024 ou o fim de este ano seja um dos mais quentes que já vivemos desde que se tem registro", acrescenta.
O Serviço Meteorológico dos Estados Unidos (NWS, na sigla em inglês) emitiu um alerta para El Niño, porque há indícios de que é provável que se desenvolva nos próximos meses.
De acordo com o NWS, há 62% de chance de que esse fenômeno se desenvolva entre maio e julho deste ano. Eles também estimaram em 40% a probabilidade de que seja um El Niño "forte".
Ángel Adames afirma que abril é um momento muito difícil de antecipar o aparecimento deste fenômeno, mas destacou que há vários sinais que sugerem que ele vai acontecer.
Em primeiro lugar, ele aponta para as altas temperaturas registradas ao longo da costa do Peru.
Ele explica que há uma série de boias colocadas na região equatorial do Pacífico para medir a temperatura não só na superfície, mas também nas profundezas do oceano, e neste momento todas indicam um aquecimento que estaria sendo registrado desde a costa do Peru até quase chegar à costa de Nova Guiné.
"Então estamos falando de um aquecimento maior", observa.
Um segundo indicador seria uma mudança ocorrida há algumas semanas na direção dos ventos alísios para oeste.
"Normalmente, quando os ventos mudam de direção, isso acelera o deslocamento de águas quentes em direção à região leste do Pacífico, e isso é uma indicação muito forte de que o El Niño está se desenvolvendo", destaca.
O último indicador são os modelos de previsão do clima.
"Neste momento, a grande maioria deles está indicando que estamos caminhando para um El Niño forte", acrescenta.
A poluição ambiental e a perda do olfato bit.ly/3mpfOQX

Minha opinião

Enroscado, inepto e defensivo

Luciano Siqueira

 

O Jair Bolsonaro de hoje na essência é o mesmo que despresidiu o Brasil por quatro nefastos anos.

Mas com uma diferença determinada pela mudança de papéis — ou de postos.

Antes, sob a proteção do cargo, agressivo contra as instituições e arrogante diante de opositores. Não ligava coisa com coisa, mas falava pelos cotovelos com a arrogância dos despreparados.

Agora, fora do poder e às voltas com um colar de processos judiciais, lhe é dada a função de presidente de honra (quanta honra!) do seu partido de ocasião, o PL, e a expectativa de que assuma a liderança da extrema direita oposicionista. De fato e não apenas simbolicamente.

Mas dele nada sai de consistente, enquanto assiste o dinamismo do novo governo em matéria de políticas internas e da ação diplomática internacional.

São esses talvez os dois pilares do desequilíbrio e da inanição do ex-presidente: as contas a prestar perante a Justiça e o sucesso gradativo da gestão do presidente Lula.

Nesse cenário, 2 mg de morfina parece pouco para que alcance um mínimo de tranquilidade e recupere o sono.

Pressão midiática sobre o governo Lula https://bit.ly/3LhuREL