Bela e sonora, porém maltratada
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Ouvi agorinha um repórter de rádio dizer que "para quem 'opita' por pagar
o imposto parcelado..." e senti a incômoda pressão sobre meus tímpanos.
É o que acontece diariamente com profissionais da comunicação, dos quais se
deve esperar, no mínimo, alguma intimidade com a gramática e o vernáculo.
Mas o descuido é grande. Nem sei se nos cursos de comunicação se corrige a
deficiência dos futuros profissionais nessa matéria.
Deviam cuidar disso.
A bela e sonora língua portuguesa brasileira é muito maltratada. Por gente de
todas as esferas da sociedade.
Por exemplo, o mesmo que cronistas e narradores esportivos fazem — o uso
abusivo e indiscriminado do gerúndio —, igualmente é vício cultivado em toda
parte.
Quantos governantes e gestores públicos não ouvimos dizer "estaremos
fazendo", ao invés de "faremos"?
Essa coisa feia e desnecessária é praticada por governadores, prefeitos,
secretários, ministros e até presidentes — como o horripilante Michel Temer —,
além de técnicos de futebol, cientistas de diversas áreas e assim por diante.
Coisa muito feia também é o uso inadequado do verbo haver, com essa perfusão de
"houveram" tais e quais acontecimentos, etc., que rigidamente não vem
a ser um erro, mas se faz horrendo quando se pode muito bem dizer, corretamente
e bonito, "houve".
O saudoso governador Miguel Arraes certa vez me contou que recebera uma
comissão de professores da rede estadual e ficara horrorizado com os vícios de
linguagem, como este, praticados pelos nossos mestres!
Fernando Sabino dizia escrever tendo sobre a mesa um dicionário e uma
gramática, pois aqui e acolá se via às voltas com erros ou vícios de linguagem
que tornariam suas ótimas crônicas desprezíveis, se não corrigidos a tempo.
Não se trata de repetirmos o hábito do escritor mineiro. Até porque basta hoje
recorrer ao Google, essa ferramenta ao alcance de todos os que usam o
smartphone, ou seja, a quase totalidade da população do país.
Epa! Enquanto escrevo, ouço uma das emissoras de rádio do Recife e acabo de
escutar que os ouvintes que "quiserem opinarem" poderão
"usarem" o Twitter ou o WhatsApp.
Sinceramente, se a jovem de voz suave e atraente tivesse dito que "os
ouvintes que quiserem opinar poderão usar..." eu até me animaria a dar
algum palpite sobre o assunto em tela.
Mas não farei isso de forma alguma! Quem tanto agride a língua materna não
merece o prestígio da minha modesta opinião.
Ora, se comunicação ocorre quando um fala e o outro entende, por que não nos
comunicarmos corretamente respeitando o nosso idioma?
Tomara que essa gente não faça como o editor do falecido Diário da Noite, do
Recife, que certa vez tacou essa manchete: "Padre viaja com raiva e não
sabe".
Nem um erro gramatical nem de sintaxe. Mas uma construção infeliz sob todos os
títulos, pois o leitor fora levado a acreditar que o tal padre sofria de
demência, quando na verdade o dito cujo havia sido mordido por um cão
hidrofóbico e tomara um ônibus para o Rio de Janeiro sem nem imaginar o risco
que corria, supondo que o referido cão fosse sadio.
Posso acrescentar uma queixa?
Ei-la: insuportável é o uso exagerado de estrangeirismos, que levam a que a
velha e útil "entrega em domicílio" tenha se convertido em
"delivery".
Quem vai a um shopping center, então, se depara com um verdadeiro tsunami de
expressões em inglês nas vitrines das lojas.
Ao bom estilo de velho Policarpo Quaresma — personagem central do clássico
romance de Lima Barreto —, protesto silenciosamente evitando fazer compras onde
se pratica esse tipo de macaquice.
E fico bem comigo mesmo. Pelo menos isso.
"Mãos dadas", poema de Carlos Drummond de Andrade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_11.html

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