28 junho 2020

Poetas & letristas


Letra de música é ou não é, enfim, poesia?
Nelson Ascher, na Folha de S. Paulo

Letra de música é poesia? Entra ano, sai ano, a discussão se repete idêntica, inclusive na ausência perpétua de um veredicto consensual. Pelo menos no Brasil.

Faça-se essa pergunta ao mais aberto e experimental dos literatos franceses, e sua resposta inevitável será um indignado "não": nem sequer George Brassens faria jus a um lugar na esfera mais rarefeita da "civilization française".

Um norte-americano chegaria à mesma conclusão, mas por caminhos diferentes, pois no seu universo a poesia não deve pertencer à esfera mercantil da qual a canção de consumo, ainda que composta por Woodie Guthrie ou Bob Dylan, faz parte.

Quanto aos nossos vizinhos hispânicos, desde que a composição seja de protesto, seu autor, Violeta Parra ou Pablo Milanés, podem ser chamados de poetas, sobretudo se, como Victor Jarra, foram vítimas da repressão.

Em nosso país, são dois os campos que se opõem. De um lado, vanguardistas, muito da universidade e a esquerda, em geral, dizem que aquilo que Caetano ou Chico fazem é poesia; de outro, escritores e críticos literária e poeticamente conservadores acham essa idéia escandalosa.

O que ocorre é que a discussão toda está mal posta, já que se trata, antes de mais nada, de um problema de definições.

Dependendo de onde se coloquem os limites da poesia, as letras estarão dentro ou fora deles. Ademais, o que no fundo move os debatedores, a questão do status ou da dignidade cultural, raramente vem à tona.

Quem afirma que letra é poesia quer na verdade promovê-la a uma posição que julga mais elevada. Seus opositores, que acreditam ainda mais intensamente em tal hierarquia, preferem manter separadas as águas, talvez para não turvar a que brota nas fontes do Parnaso.

O caso brasileiro se complica não só devido às relações harmônicas mantidas desde, pelo menos, Vinicius de Moraes, entre poetas, letristas e compositores, como também porque é difícil imaginar critérios esteticamente honestos que não coloquem, durante o último meio século, a nata da MPB acima do grosso da poesia contemporânea.

Mas, afinal, letra é ou não é poesia? A única resposta razoável é: depende. De como, onde, quando e por quê. Identificar sempre ambos os tipos de produção é de fato ruim, só que não tanto para os poetas, quanto para os letristas e compositores.

Por mais que, com a mesma matéria-prima verbal, criem objetos semelhantes, eles trabalham de acordo com limitações e convenções diferentes, respondendo a/ou desafiando tradições que não coincidem de todo.

Por exemplo, a maior parte da poesia brasileira que descende do modernismo tem sido escrita em versos livres e sem rima, de modo que, contraposta a ela, quase toda a MPB, por ser metrificada e rimada, pareceria injustamente tradicionalista. Caetano, quando compõe, pode estar pensando em Noel Rosa e em Drummond. Um poeta atual também, mas provavelmente na ordem inversa.

Há palavras, expressões, recursos que, corriqueiros na poesia, são quase impossíveis de usar na MPB. E vice-versa.

Uma vez que as mesquinhas disputas em torno do prestígio cultural sejam postas de lado, a música popular tem apenas a ganhar se for examinada, julgada e, principalmente, desfrutada nos seus próprios termos, que, embora nem inferiores nem superiores, tampouco são sempre os mesmos que os da poesia.
Poetas sabem o que dizem https://bit.ly/2XypaLe

Homenagem a Luiz Gonzaga



Amizades dão cor à vida https://bit.ly/3eQE5WQ

Complexo e conturbado

Decisão da Justiça sobre Flávio Bolsonaro merece uma investigação
Nada acontece por acaso nesse inquérito sobre anos de apropriação de salários no gabinete do filho do presidente
Janio de Freitas, na Folha de S. Paulo

A mais recente decisão da Justiça sobre Flávio Bolsonaro, favorecendo-o contra a investigação que mais abala seu pai, merece ela mesma uma investigação. Nada acontece por acaso nesse inquérito sobre anos e anos de apropriação de salários no gabinete de Flávio quando deputado estadual.
Em torno desse tema, emergem interações com milícias, exóticos negócios imobiliários e outros indícios. Todos do tipo que, nas ocorrências de combinação entre submundo e política, em geral são causa de ameaças, chantagens e subornos.
Os desembargadores Mônica Oliveira e Paulo Rangel têm comprovado conhecimento do acórdão do Supremo contra o qual votaram para transferir o inquérito, do juiz de primeira instância ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça-RJ. Como desejado por Flávio. E com possível anulação de tudo até agora apurado por decisões do juiz Flávio Itabaiana, como movimentações financeiras anormais e a reveladora prisão de Fabrício Queiroz.
Em tentativa anterior da defesa de Flávio, Mônica Oliveira negou a transferência do caso. Como fixado pelo Supremo para o investigado que deixou a função privilegiada com instância especial. Hoje senador, Flávio não pode ter os privilégios dos deputados estaduais. Paulo Rangel deixou em livro seu apoio à norma contra a qual votou agora. Contradições tão acintosas, em oposição também à relatora Suimei Cavalieri (Flávio foi favorecido por dois votos a um), precisam de mais do que recurso ao Supremo para repor o respeito à norma, lá mesmo decidida e já aplicada.
Há mais do que a razão óbvia para estranheza e suspeição. A reviravolta expõe a Justiça ao mesmo comprometimento moral, e quem sabe legal, a que militares da reserva e da ativa estão expondo o Exército, como participantes diretos ou indiretos nos danos ao país causados pelo quarteto Bolsonaro e seus contribuintes. Os conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público, no entanto, notabilizaram-se, até agora, por sua tolerância com ilegalidades nas respectivas áreas, muitas delas gravíssimas como violação e nos efeitos. Resta contar, sem exagero, com o reencontro iniciado entre o Supremo e sua dívida com o país que tanto lhe dá.
Por sua conta, procuradores da República dão ao procurador-geral, Augusto Aras, um sinal da justa indignação que grassa entre eles: sua maioria sente, e repele, o incipiente reaparecimento de um Geraldo Brindeiro, o procurador-geral de Fernando Henrique batizado de engavetador-geral, símbolo de indignidade na Procuradoria e no governo de então.
Os procuradores elegem agora para o Conselho Superior do Ministério Público Federal o colega Mario Bonsaglia, o mais votado pela classe e preterido por Bolsonaro para substituir o dúplice Rodrigo Janot. Como reforço da mensagem, Nicolao Dino, já conselheiro, foi reeleito. Foi outro dos mais votados que Bolsonaro preteriu pelo sem voto Augusto Aras.
O primeiro teste pós-sinal já bate na porta de Aras, o relutante. Não há dúvida de que Ricardo Salles, ministro contra a preservação ambiental, já fez mais do que o necessário para responder por vários crimes de responsabilidade. Providência pedida à Procuradoria-Geral da República por nove ex-ministros do Meio Ambiente.
Ricardo Salles, invenção política de Geraldo Alckmin, é condenado por improbidade administrativa. Credencial que foi o mais provável motivo, à falta de qualquer outro, para ser o escolhido de Bolsonaro com a missão de destruir reservas indígenas, propagar o garimpo ilegal e os recordistas desmatamentos e incêndios amazônicos. Quase ignorado pela imprensa, abaixo de Bolsonaro é o maior causador de danos ao Brasil nas relações econômicas, diplomáticas e culturais do Brasil com o exterior.
Mas o próprio Bolsonaro iniciou nova fase: entrou em confinamento verbal. Desde a prisão de Queiroz, o que é uma prova irrefutável, e mesmo uma forma confessional, do perigo que agora lhe vem dessa longa ligação pessoal e funcional. Com novo dispositivo e novas figuras para remendar sua imagem, borrada por Wassef, Queiroz e o fugitivo Weintraub, Bolsonaro seguiu a recomendação de uma visita bem popularesca ao Nordeste. E foi celebrar, até com variadas mímicas de entusiasmo, um feito para a vida nordestina. A irrigação com águas do São Francisco. Obra de Lula e Dilma.
Governo Bolsonaro tem crescentes fragilidades https://bit.ly/2MwcqOP

Fotografia: O olhar de Mari Laime

Foto: Mari Laime







Bandeira erguida

28 de junho – Dia do Orgulho LGBTI. Uma luta de todos nós. Uma bandeira que se ergue em toda parte. Aqui na Plaza de Mayo, Buenos Aires, Argentina (Foto: LS) https://bit.ly/2BhGY4V

Memória viva

A memória se faz em fragmentos que acumulamos ao longo da vida. Há instantes em que um fato fortuito junta alguns desses fragmentos e nos faz recuar no tempo. Na manhã de hoje, de máscara, me veio à lembrança Durango Kid — personagem do cinema faroeste norte-americano e de revistas em quadrinhos, surgido nos anos 40 —, que marcou a minha infância,  no gibi e nas matinês de domingo no Cine São João, na Lagoa Seca, em Natal.

Resistência

Apoio a democracia chega a 75% e bate recorde em meio a ameaças de Bolsonaro. Pesquisa Datafolha mostra que maioria dos entrevistados prefere atual regime, enquanto apenas 10% veem ditadura como aceitável. (FSP)