01 setembro 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

Filósofos de botequim
Abraham B. Sicsu    

Chegam cedo, aposentados, se encontram pelo menos duas vezes por semana, nas quartas e nos sábados, sem marcar, sem agendar. Apenas aparecem.

Os pedidos são sempre os mesmos, cervejas e cuba libres. Um pratinho de mortadela e queijo em cubinhos. Mas esperam as dez da manhã. Não podem ser entendidos como alcoólatras.

Dizem-se pensadores, refletem sobre as venturas e desventuras da humanidade. Sempre têm soluções geniais. Se os escutassem, o mundo estaria salvo.

Seu Tom que a Deus tudo entrega, Sergito e seu ceticismo, Marcão e sua simpatia, as viagens de Clovinho, Leandro com a visão conciliadora, Tricolor que mais escuta do que fala. Junto-me ao “clube” trazendo questionamentos, tristeza e descrença que os jornais do dia me apresentam. Muito fácil minha posição.

Uma música de Chico Buarque, Roda Viva, aparece ao fundo. Faz parte do cenário:

“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu

A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar
Mas,  eis que chega a roda-viva e carrega o destino para lá”.

O vazio nos apoquenta. Queremos muito mais do que acreditar no que vemos e ouvimos, queremos entender suas razões. E não é fácil, um mundo em que existe uma lógica, em que há uma natureza que se comporta de uma maneira que pode ser previsível e bela, sempre ameaçada por lunáticos tresloucados.

Surgem as interpretações. Começa-se pela Física e Matemática. Ex-professores se manifestam. Uma constatação nada trivial. Deus era perfeccionista. Uma linguagem que o homem aperfeiçoou, que tem suas bases no raciocínio humano, a Matemática, pode através de equações refletir com muita precisão os fenômenos físicos que ele desenhou.

As Leis da Física, em seus princípios gerais, acabam se enquadrando em sentenças matemáticas como se o Universo fosse calculado e organizado segundo uma lógica onde não há espaço para fenômenos disruptivos, fenômenos que mudam sua concepção.

Se isso parece pouco discutido, diz o grupo, por que o imprevisto, o não imaginado, não desestrutura a ordem universal e as leis do universo, não traz, de tempos em tempos, um mundo sob uma lógica completamente inimaginável e nada predizível? Para melhor ou pior. Muito complexo, melhor deixar no ar.

Mas, o homem tenta. Desestruturar o que parece bem bolado e bem estruturado, é sua vocação. Não se contenta com admirar o belo, com sentir a perfeição. Guerras, desastres ecológicos, aniquilação de povos seriam desafios humanos às leis divinas. E, segundo o colegiado da mesa, estaríamos vencendo.

No aprofundar de tema tão significativo, verifica-se que somos diferentes dos outros seres vivos do planeta. Esses seguem apenas a lei fisiológica e biológica. Seus instintos direcionados pela necessidade de sobrevivência e tentativa de preservação das espécies.

Os humanos vão além. Tem o psicológico, o cognitivo e o livre arbítrio. Escolher, é a lei da vida. Aprendem com a memória, com o passado, mas facilmente o esquecem.

Além da consciência e do raciocínio, algo os motiva. Também são dirigidos por emoções. E essas são perigosas. Ansiedade, medo e raiva os atormentam. Fazem com que saiam das reações naturais e engendrem um mundo cruel, onde desprezam o semelhante.

Nesse ponto mais uma rodada. Uma parada para dizer que não somos iguais aos detratores da natureza e da civilização humana. Para aplacar as angústias com uma gelada no ponto, para pedir uns pratinhos de carne de panela e de charque ao molho.

Voltamos ao trabalho. Sim, trabalho, é o nosso compromisso com o mundo que ali praticamos. Além, é claro do de torcer pelos nossos times de futebol favoritos e nos digladiarmos pelas paixões que representam .

O problema está na necessidade imperiosa do homem se relacionar. Não há quem viva isolado, evidentemente ignorando os ermitões que são poucos no mundo. E o relacionamento sempre traz conflitos divergências e mágoas.

Conviver com essas mágoas não é fácil, traz rancor, a necessidade de revidar e, o pior, um remorso posterior pelo que fizemos que angustie por muito tempo.  Qualquer interação é difícil, saber o certo ou o errado depende não só de você, mas também daqueles com quem convivemos.

Lembra sábio da mesa.

“Eleição, uma época em que os conflitos se exacerbam. Não se fala livremente nem em família, imaginem com os desconhecidos. Por exemplo, nesta mesa se for posto em discussão, semana que vem teremos menos participantes. Melhor voltar à humanidade no geral.”

No mundo há o inusitado, o inesperado. Como conviver com ele? Traz situações em que se entra em verdadeiro litígio com o semelhante. Se isso é verdade, como devemos nos comportar.

Vêm os exemplos rasteiros, mas muito verdadeiros.

“Não se imaginava um Trump com sua filosofia: “Farinha pouca, meu pirão primeiro.”Só quer tudo para si, bigtechsa e família” Traz um tarifaço que acaba com muitos sonhos, com muitas firmas, diz um ex-empresário.

“Pois é, quem poderia adivinhar que o efeito estufa causaria tantos estragos. Primeiros terremotos na Venezuela, Colômbia e Peru, agora essa enxurrada de lama e mortes no Nepal e China.”

“E os imigrantes africanos. Morrendo de fome se arriscam a perder a vida. Uma desgraça, um horror humanitário. Sem empatia, sem compaixão dos mais ricos.”

Todos concordam que o “Caos foi estabelecido”. Que a esperança de um mundo melhor passa por um olhar diferente, menos egoísta, menos individualizado.

Lembra um parceiro. A escolha do certo e do errado, nunca é fácil, nunca é algo que não se sabe a priori. Tem que se ter um princípio que deve ser respeitado e propõe:

“A humanidade só melhorará se, ao resolver o que o mundo deve fazer, nos colocarmos na posição dos outros, os oprimidos, para fazer nossas escolhas. Se não gostássemos do que aconteceria conosco, não devíamos fazer. ”

Há certa concordância, com algumas discordâncias, é claro.

A hora do almoço se aproxima e ninguém quer contrariar as parceiras que nos esperam e prepararam um lauto manjar. Uma última golada e a filosofia de bar é interrompida até o próximo encontro.

Lembra-se Carlos Pena filho:

São trinta copos de chope, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados”

Leia também "Tecnologia: não confunda a minha cabeça" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html

Postei nas redes

Para contornar a sua visível incompetência, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) anuncia a banqueiros e empresários a redução da Esplanada a 25 ministérios, mas não diz quais. 

Samba de um mercado só https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_067932584.html 

Minha opinião

O eleitor pendular
Luciano Siqueira    

Eleições põem em evidência pesquisas destinadas a identificar tendências — para todos os gostos. 

Em torno de 4 a 5 institutos especializados produzem números que podem ser interpretados de maneira útil ou não. Depende da inclinação subjetiva de quem os examina. E da habilidade de marqueteiros ao divulga-los.

Hoje li sobre a existência do eleitor "pendular" — aproximadamente 5% dos brasileiros e brasileiras dizem que ainda nem sabem se vão votar nem tão pouco se escolherão à esquerda ou à direita, pois nesta eleição presidencial o centro inexiste.

Onde podemos encontrá-lo?

Dizem os pesquisadores, estão em toda parte e em alguns casos disfarçados de direita ou de esquerda. Tudo para preservar o caráter secreto do voto.

Pior é que numa eleição duramente disputada esses tais pendulares podem até ser decisivos.

Há mais de 40 anos participando de eleições como candidato ou simplesmente militante, nunca havia me dado conta da importância dos senhores e senhoras pendulares! 

Faço a minha autocrítica. Na prática. 

Se depender de mim, Lula presidente e João Campos governador não perderão por conta desses que vão e voltam sem saber onde devem ficar.

Pelo olhar julgo captar a indecisão. 

Daí para uma conversa aparentemente despretensiosa basta um cumprimento. Em seguida, minha pesquisa particular... e a tentativa de atrair para a esquerda os que oscilam indecisos.

Prazeroso diálogo na telinha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0215026545.html

Palavra de poeta

Consolo na praia
Carlos Drummond de Andrade        

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
 
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
 
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
 
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
 
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
 
Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

 
[Ilustração: Maurício Arraes]
 
Leia também: O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-urariano-mota.html