27 fevereiro 2025

Palavra de poeta: Carlos Drummond de Andrade

Um homem e seu carnaval
Carlos Drummond de Andrade  


Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.

Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

[Ilustração: Henri Cartier-Bresson]

Leia também: "Carnaval: rebeldia e prazer" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html

26 fevereiro 2025

Humor de resistência: Aroeira

 

Aroeira

Jabuti não sobe em árvore https://bit.ly/3Ye45TD 

Golpismo lá e cá

Marco Rubio: o flerte do bolsonarismo com o novo chefe da diplomacia dos Estados Unidos
Desde 2018, Eduardo Bolsonaro costura relações com o ex-senador Marco Rubio, que assumiu a Secretaria de Estado de Trump
Alice Maciel/Pública  

“Em um nível, a política externa é um negócio complexo. Mas, em outro nível, é simples: você usa as ferramentas das relações internacionais para combater seus adversários e apoiar seus amigos”, escreveu o recém-empossado Secretário de Estado dos Estados Unidos (EUA), Marco Rubio, em dezembro de 2023. 

Esse trecho de um texto do ex-senador republicano sobre o presidente argentino Javier Milei foi compartilhado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) após o anúncio de que Rubio seria indicado para comandar as relações internacionais no governo do presidente dos EUA, Donald Trump. 

POR QUE ISSO IMPORTA?

Alinhados politicamente e influenciados por narrativas de parlamentares brasileiros, o governo Trump, inclusive por meio de Marco Rubio, pode usar instituições para pressionar o Brasil e impor sanções ao país em busca de interesses de seus aliados.

A mensagem resgatada pelo parlamentar brasileiro representa a expectativa dos bolsonaristas sobre a política externa sob a gestão do ultraconservador. Eduardo Bolsonaro articula para que as instituições norte-americanas atuem para libertar os presos acusados de envolvimento nos ataques golpistas do 8 de janeiro e para livrar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de uma possível prisão, disseminando o falso argumento de que o Brasil não seria mais uma democracia. 

“Aqui a gente tá fazendo um trabalho pra tentar tirar gente da cadeia”, disse Eduardo em vídeo gravado nos EUA um dia após a posse de Trump, acrescentando que essa virou sua “causa de vida”. 

Ele ressaltou na live que desde 2018 vem “cativando” contatos no país. Dentre eles, o parlamentar destacou o que chamou de “excelente aproximação” que conseguiu fazer com a deputada republicana da Flórida Maria Elvira Salazar. “Maria Elvira Salazar tá colada no Marco Rubio, que é o chanceler do Trump”, observou. 

Nos últimos cinco anos, o deputado brasileiro vem costurando relações com a extrema direita dos EUA, apadrinhado por Steve Bannon, um dos principais expoentes do movimento no país. Levantamento realizado pela Agência Pública mostrou que nesse período Eduardo participou de mais de 80 encontros e eventos com representantes e lideranças da ala conservadora norte-americana. 

Senador pela Flórida desde 2011, Marco Rubio foi um dos primeiros políticos desse grupo a receber Eduardo Bolsonaro após a vitória do pai à presidência, em 2018. Em 2020, Eduardo e o então senador voltaram a se encontrar numa agenda com Jair Bolsonaro em Miami.

“Satisfação conhecer ontem rapidamente o Senador Marco Rubio @marcorubio (Rep.-Florida) que tem destacada atuação em temas latino americanos como a defesa dos direitos humanos na Venezuela”, escreveu Eduardo Bolsonaro em 28 de novembro de 2018, no X (antigo Twitter). Na ocasião, ele estava acompanhado do ex-assessor de Assuntos Internacionais Filipe Martins e do ex-diretor da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) Márcio Coimbra. 

“Dentre muitas reuniões que tivemos ontem, merece destaque a recepção entusiasmada do Senador Marco Rubio, que nos contou sobre o trabalho que ele tem feito para atrair mais atenção para a América Latina em geral e para o Brasil em particular. Segundo ele, vivemos um momento único”, afirmou Martins, também no X.

Marco Rubio, peça-chave para golpistas

Investigado por suposta participação na tentativa de golpe para manter Jair Bolsonaro no poder, Filipe Martins teria recorrido a Rubio no final do ano passado para tentar provar possível fraude no registro de sua entrada nos EUA após as eleições de 2022. Segundo a Folha de S.Paulo, os advogados do ex-assessor de Bolsonaro teriam se encontrado com o  senador norte-americano após ele ter sido anunciado como futuro secretário de Estado. 

Steve Bannon disse que também irá recorrer ao secretário de Trump para cobrar atitude contra o Brasil devido à ausência de Jair Bolsonaro na posse do republicano. “Eu vou conversar com o senador Marco Rubio, sou muito próximo dele, quando ele tomar posse amanhã [21/01], e dizer: precisamos tomar uma atitude sobre isso”, afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo. “A nossa recomendação é que deve haver sanções severas ao Brasil e particularmente a esse juiz [Alexandre de Moraes] para não ter nenhum acesso aos Estados Unidos”, defendeu, referindo-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Moraes já foi alvo de ataque do próprio Marco Rubio, quando decidiu, em agosto do ano passado, suspender a rede social X, porque a empresa não tinha representante legal no Brasil. A plataforma pertence a Elon Musk – que agora faz parte do governo Trump. Na ocasião, Rubio afirmou que o bloqueio do X foi uma “manobra do juiz Alexandre de Moraes para minar as liberdades básicas” no Brasil.

“Desde multar indivíduos e entidades privadas que buscam informações sobre o X até impor censura legal, o povo brasileiro está enfrentando sérias repressões pelo simples fato de se envolver em uma plataforma de mídia social”, escreveu em comunicado. “Para o bem das liberdades básicas e de nosso relacionamento bilateral, o Brasil deve retificar essa medida autoritária”, afirmou Rubio. 

O ex-secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) Paulo Abrão avalia que o governo Trump vai interferir no Brasil para apoiar a causa bolsonarista “até onde é possível”. “E será via Congresso americano mobilizando cartas dirigidas ao departamento de Estado. Ou seja, com declarações públicas e com a realização de audiências públicas no Congresso americano, construindo palanques a partir dos quais possam projetar a própria voz em defesa dos bolsonaristas e também projetar a voz dos bolsonaristas que fugiram para os EUA, temendo processos judiciais”, ressaltou Abrão, que também é diretor-executivo do WBO (Washington Brasil Office) – centro de estudo que se dedica a promover cooperação e conhecimento sobre a realidade brasileira. Ele acredita, ainda, o atual governo dos EUA tentará forçar a CIDH a atuar contra o Brasil. 

“Vão querer instrumentalizar a ação especialmente da Relatoria Especial sobre Liberdade de Expressão contra as decisões do STF. Se houver resposta crítica da CIDH contra o Brasil, devemos nos preocupar de que vão utilizar isso para tentar justificar e aprovar sanções individuais contra autoridades brasileiras no Congresso e que o Departamento de Estado terá que implementar”, afirmou, acrescentando que “fora isso, é difícil imaginar ações concretas que o Departamento de Estado americano possa tomar direta e proativamente para interferir nos processos judiciais legítimos contra os que tentaram um golpe de Estado aqui no Brasil”.

Marco Rubio, novo Secretário de Estado dos EUA, mantém uma relação estreita com a direita no Brasil

O que Marco Rubio pensa sobre Bolsonaro, Lula e o Brasil

Quando Jair Bolsonaro tomou posse, em janeiro de 2019, o então senador Marco Rubio, que à época presidia o Subcomitê de Relações Exteriores do Senado para o Hemisfério Ocidental, escreveu um artigo na CNN enaltecendo o então presidente brasileiro. O artigo intitulado “EUA devem investir pesado no Brasil” dá o tom da visão política e econômica do secretário de Estado dos EUA em relação ao Brasil. 

Ele começa o texto dizendo que a posse de Bolsonaro estava “inaugurando uma nova era na política brasileira” e que marcava “uma saída dramática dos governos esquerdistas e antiamericanos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff”.

Rubio defendeu que Donald Trump deveria “aproximar as duas nações mais populosas do Hemisfério Ocidental”. E argumentou: “Um Brasil forte, vibrante e democrático, mais alinhado aos Estados Unidos como parceiro estratégico, pode ser um multiplicador de forças para enfrentar a crise atual na Venezuela (onde a governança se deteriorou e há corrupção generalizada) e para combater as intenções malignas de regimes autoritários como China, Rússia e Irã, que pretendem expandir sua presença e atividades na América Latina”.

No artigo, Rubio sugeriu que o governo Trump atuasse para fortalecer os laços de defesa e inteligência, aumentasse o investimento em comércio, a cooperação no setor de energia, apoiasse a ascensão do Brasil à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e expandisse o acesso dos EUA à indústria espacial brasileira e na cooperação adicional contra o terrorismo e as redes criminosas transnacionais.

Por fim, o ex-senador defendeu investimentos bilaterais entre os setores de energia dos EUA e do Brasil, para criar “uma estrutura de suporte aos países em desenvolvimento no hemisfério”. “Juntos, podemos ajudar a desmamar pequenos países de sua dependência do petróleo venezuelano, o que ajuda a criar dependência do regime do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, um patrocinador estatal do tráfico de drogas (embora negue isso)”, argumentou. 

O novo chefe da diplomacia dos EUA considera o presidente Lula como “líder da extrema esquerda”, conforme publicou em suas redes sociais, em 2024: “O brasileiro Lula da Silva é o mais novo líder de extrema esquerda a encobrir a natureza criminosa do narco-regime de Maduro, dias após se encontrar com o presidente Biden”. 

Paulo Abrão pondera que, apesar da afinidade ideológica entre a extrema direita do Brasil e dos EUA, entre Rubio e os militantes extremistas, entre Trump e Bolsonaro, nos dois países existe uma relação de Estado histórica, de 200 anos entre as duas maiores democracias das Américas e o comércio bilateral – “que é importante para um Brasil que tem os EUA como o principal destino de exportação de seus produtos manufaturados e de um EUA que ocupa, no Brasil, o papel de grande investidor”. (Edição: Ed Wanderley}

Leia sobre a pirotecnia reacionária de Trump https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/trump-pirotecnia-reacionaria.html

Palavra do PCdoB

PCdoB destaca legado de Nísia Trindade e apoia novo ministro da Saúde
www.pcdob.org.br

 

Em um momento de desafios para a democracia e permanência do Estado brasileiro, a Comissão Nacional de Saúde do PCdoB reafirma seu compromisso com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a garantia dos direitos do povo. Em nota oficial, o partido manifesta reconhecimento ao trabalho de Nísia Trindade à frente do Ministério da Saúde, celebrando os avanços conquistados em sua gestão. Primeira mulher a ocupar o cargo, Nísia foi responsável por fortalecer políticas públicas essenciais, como a ampliação da vacinação, o fortalecimento da Atenção Primária e a valorização dos profissionais de saúde. “Nísia Trindade deixa um legado que a colocará na história da saúde pública brasileira como uma grande construtora do SUS”, destaca a nota.

A legenda também felicita Alexandre Padilha, que assume a pasta com a missão de dar continuidade às políticas iniciadas. “Temos as verdades firmes que possui, pela sua trajetória, plenas condições de realização a partir do que foi reconstruído pela Ministra Nísia”, afirma o documento. O comunicado reforça ainda o compromisso do PCdoB com a gestão de Lula e a defesa do direito à saúde no país.

O texto enfatiza a importância da democracia e critica a tentativa de sabotagem das conquistas populares por forças ultraliberais. A Comissão reitera sua disposição em colaborar com o governo e conclui com uma mensagem de apoio ao novo ministro: “Obrigado, Nísia, e conte com a nossa força, Padilha. Viva a Democracia! Viva o SUS! Viva o povo brasileiro!”. Leia a íntegra abaixo.

NOTA DA COMISSÃO NACIONAL DE SAÚDE DO PCdoB

Mudanças no Ministério da Saúde

O Brasil e o mundo ainda vivem um momento de fragilidade da democracia. Nossas instituições democráticas ainda estão sendo atacadas, e os direitos e conquistas do povo sendo sabotados pelas mudanças produzidas no Estado brasileiro, ação das forças ultraliberais derrotadas nas eleições presidenciais de 2022.

Nesses poucos mais de dois anos do terceiro mandato do Presidente Lula, muito está sendo reconstruído. Avanços estão sendo registrados em diversas políticas públicas a exemplo da educação, desenvolvimento social e na saúde.

A Comissão Nacional de Saúde do PCdoB reconhece o papel fundamental da Ministra Nisia Trindade e de sua equipe não só na reconstrução do Ministério da Saúde, mas também na retomada do papel de ordenador da condução real do enfrentamento aos desafios, principalmente na garantia do direito à saúde do povo brasileiro.

Primeira mulher a conduzir o ministério, Nísia Trindade resgatou políticas públicas vitais à população brasileira, como a melhora significativa dos indicadores de vacinação, a retomada da ampliação e melhoria no financiamento da Atenção Primaria à Saúde, resgate e ampliação do Programa Mais Médicos, o salto da Farmácia Popular, a valorização e o fortalecimento do Controle Social do SUS, o impulso do Complexo Econômico Industrial da Saúde, a garantia do piso da enfermagem, o reconhecimento dos ACS e ACE, enfrentamento ao negacionismo e retomada da ciência como orientadora das políticas de saúde entre tantos outros avanços.

Nisia Trindade deixa um legado que a colocará na história da saúde pública brasileira como uma grande construtora do SUS.

Da mesma forma felicitamos o Ministro Alexandre Padilha que assume a tarefa para qual temos a firme convicção que possui, pela sua trajetória, plenas condições de realizar a partir do que foi reconstruído pela Ministra Nisia, os compromissos assumidos pelo programa do presidente LULA nas eleições de 2022, programa que foi legitimado pelo voto do povo brasileiro.

Confiante nos compromissos assumidos com o povo, cujo êxito não será apenas do Governo Lula, mas da garantia dos direitos do povo, a Comissão Nacional de Saúde do PCdoB, agradece a contribuição da Ministra Nísia Trindade deseja sucesso ao Ministro Padilha, e reafirma a mesma disposição de quem contribuiu para o Programa de Governo do Presidente Lula, e esteve neste mandato e nos anteriores do Presidente Lula e da Presidenta Dilma, de disponibilizar todo seu acumulo na área da saúde, os seus quadros e militantes, para o êxito do nosso governo.

Obrigado Nísia e conte com a nossa força Padilha.

Viva a Democracia! Viva o SUS! Viva o povo brasileiro!

Brasília, 25 de fevereiro de 2025.
Comissão Nacional de Saúde do PCdoB

Leia: Apenas um motivo para atacar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/minha-opiniao_26.html

Neofascismo

Para compreender o fascismo tardio
Crítico cultural italiano adverte: de pouco valem analogias com Hitler ou Mussolini. Ultradireita bebe nos métodos da dominação colonial e racista, ressurge sempre que a ordem do capital está em xeque e é convocada pelas democracias liberais…
Lisa Lowe, no Verso Books | Tradução: Antonio Martins/Outras Palavras 

No mundo contemporâneo, bombas destroem implacavelmente escolas, hospitais e suprimentos de água, expulsando pessoas de suas casas. Medidas de “austeridade” aprofundam os abismos econômicos globais, enquanto governos autoritários submetem os mais vulneráveis, pobres e desabrigados, à violência estatal e ao encarceramento. É um tempo, nas palavras escritas por Antonio Gramsci em uma prisão fascista um século atrás, em que “o velho mundo está morrendo e o novo não pode nascer”; em que os fracassos de uma antiga ordem político-econômica e os “sintomas mórbidos” dos Estados-nação imperiais assolados por crises de legitimação coexistem com alternativas emergentes que lutam para nascer. Ao redor do mundo, multidões vão às ruas para pedir um cessar-fogo em Gaza, protestar contra assassinatos policiais de homens e mulheres negros desarmados na América do Norte, exigir moradia para migrantes e o fim do encarceramento em massa, e proteger cursos d’água e terras da extração e da construção de oleodutos. O caos resultante do regime moribundo traz suas próprias atrocidades e novas formas de terror, mas também torna possíveis novas relações ainda não realizadas. Esses movimentos coletivos – atravessando diversas histórias coloniais e capitalistas, regiões e populações – compreendem condições diferenciadas, mas interligadas, de promessa e perigo que se unem neste momento histórico urgente e que parece às vezes incompreensível.

Leio o livro erudito, elegantemente pensado e pacientemente argumentado de Alberto Toscano, Late Fascism [Fascismo Tardio], como um esforço de nos oferecer os meios históricos e filosófico-políticos para compreender o fascismo em nosso tempo, ao ajustar as contas com o fascismo na longa duração. Como as linguagens políticas disponíveis estão saturadas por lógicas liberais, elas frequentemente velam e obstruem a compreensão do “presente político”. Contribuem para o reconhecimento equivocado do “fascismo” como espetacular e excepcional, em vez de integrante do casamento moderno entre democracia liberal e capitalismo. O Late Fascism de Toscano enfatiza que esse reconhecimento equivocado é um obstáculo primário para entender, organizar e lutar eficazmente contra as múltiplas contradições do nosso presente político.

Ao discutir a natureza e a etiologia do fascismo tardio, Toscano nos leva além dos exemplos europeus do período entre guerras do “tipo ideal” do fascismo e desconstrói a suposta oposição entre fascismo e democracia liberal. Enfatizando que o fascismo não é monolítico ou genérico, e não possui um modelo singular e estático para o qual possamos identificar analogias ao marcar uma lista de características, ele argumenta que devemos, em vez disso, abordar o fascismo como um processo com múltiplas origens, localidades e temporalidades, ocorrendo dinamicamente em relação a condições específicas. De certa forma (embora ele não se expresse exatamente assim), Toscano está argumentando que “o fascismo é uma estrutura, não um evento”, significando que ele não é uma aberração do período de guerra europeu, nem um estado natural original do qual emerge o antídoto da liberdade política liberal, mas sim uma característica persistente da história do liberalismo colonizador e do capitalismo colonial. A democracia liberal não é o antídoto do fascismo, mas sim sua condição de possibilidade. O governo fascista pode incluir, mas não se limita exclusivamente a, Estados autoritários ultranacionalistas. Dentro dos Estados liberais, ele anima a perda econômica e o abandono social, e armazena energias libidinais atávicas não resolvidas, liberadas pelas crises e crueldades da ordem social desigual, e as volta contra outros raciais, religiosos, sexuais e de gênero.

Toscano elabora ainda que podemos entender o fascismo como a constelação de formações reativas através de aparatos ideológicos e estatais, com o objetivo de manter ou sustentar uma ordem social em decadência. Ele não é separável dos colonialismos, mas sim intimamente interconectado tanto com o despossessão indígena histórica e contínua, quanto com o cativeiro e a escravidão nas plantations e a contrarrevolução; os fascismos se desdobram em oposição e em antecipação a rebeliões insurgentes que desafiam ou transformam o regime de propriedade existente, a partir dos povos, locais e regiões onde a ocupação e o governo tênue foram estabelecidos. Essa é a razão pela qual Toscano se baseia especialmente nas tradições radicais negras e anticoloniais para teorias incisivas sobre o fascismo — não apenas para evidenciar que reconhecemos mal o fascismo, se o limitarmos à Itália de Mussolini e à Alemanha de Hitler, mas também para argumentar que o fascismo é uma formação ancorada no capitalismo racial e colonial, que precede e persiste além do exemplo europeu. Entre as muitas contribuições valiosas do livro, é essa que abordo no restante dos meus comentários.

Pensadores anticoloniais têm sido os analistas mais incisivos dos fascismos. Em seu Discurso sobre o colonialismo, de 1950, o martinicano Aimé Césaire identificou as origens do fascismo no projeto de subjugação colonial ao afirmar que a Europa só conseguiu reconhecer a vergonha e a brutalidade da “humilhação do homem” quando empregadas pelos nazistas contra europeus brancos, algo que “até então havia sido reservado exclusivamente aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos negros da África”.1 Em Como a Europa subdesenvolveu a África, o guianês Walter Rodney escreveu que “o fascismo era um monstro nascido de pais capitalistas… o produto final de séculos de bestialidade capitalista, exploração, dominação e racismo exercidos fora da Europa”.2 O George Padmore, de Trinidad considerava o apartheid na África do Sul como o Estado fascista clássico, e o poeta afro-americano Langston Hughes frequentemente declarava que as condições enfrentadas pelos negros na América eram “fascistas”. Em outras palavras, antes que a violência nazista viesse a epitomar o fascismo, pensadores radicais negros já detalhavam fascismos associados à despossessão colonial e à escravidão racial.

Toscano invoca A Reconstrução Negra na América (1935), de W.E.B. Du Bois, como um texto-chave na análise do entrelaçamento entre fascismo e democracia liberal. Du Bois argumentou que a escravidão estava no cerne do capitalismo liberal moderno. A brutal mercantilização de seres humanos pela escravidão não apenas desmentia as reivindicações de democracia liberal dos EUA. A possibilidade de rebelião escrava também tinha a força para transformar o sistema de desigualdade racial violenta que tornava possível aos liberais falar em “liberdade universal”. Du Bois afirmou que a escravidão não era uma aberração da democracia liberal nos Estados Unidos; ela era, e continuou a ser, sistêmica e constitutiva da democracia norte-americana, e da extensão do poder dos Estados Unidos ao redor do mundo. O livro conta a história de meio milhão de trabalhadores negros que, por meio de seu êxodo massivo das plantations escravistas do sul, criaram um ambiente semelhante ao de greve geral. Ele paralisou o sistema de plantations, derrubou a Confederação e, forçou o Norte a assumir a abolição da escravidão como sua causa.

Mas A Reconstrução Negra acaba por relatar o que Du Bois chama de “contrarrevolução da propriedade”: o bloqueio da liberdade negra pela consolidação de uma aliança branca entre industriais do norte e oligarcas do sul, e a persuasão dos trabalhadores camponeses brancos a se afastarem de uma aliança inter-racial com os trabalhadores negros. A “contrarrevolução da propriedade” exemplificou precisamente uma formação fascista que sustentou o capital branco e a supremacia branca contra uma potencial “insurgência” que tinha o poder de acabar com a escravidão e o apartheid racial, e que poderia ter transformado uma ordem social construída sobre a acumulação por meio da subjugação de seres humanos cativos.

Toscano se concentra especialmente no que Cedric Robinson chamou de “construção negra do fascismo”. Ele mostra como teóricos sub-valorizados do fascismo norte-americano – desde os Panteras Negras no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, até os escritos e correspondências prisionais dos presos políticos Angela Davis e George Jackson. Ao fazê-lo, convida a repensar o debate teórico sobre o fascismo em relação à situação dos negros norte-americanos encarcerados sob o capitalismo racial. Como presos políticos, Davis e Jackson entendiam o fascismo como uma forma de contrarrevolução preventiva, usando estruturas carcerário-judiciais para suprimir ameaças percebidas à ordem social capitalista estruturada na dominação branca. Em outras palavras, os fascismos são sinais de crises do capitalismo racial e do excesso imperial, parasitando tanto as fraquezas da ordem político-econômica quanto a vulnerabilidade da oposição a ela. Toscano comenta que o fascismo é “reativo, não apenas em conteúdo social, mas em forma temporal – seja respondendo imediatamente a um potencial levante revolucionário triunfante ou, de forma mediada, a um desafio já derrotado ou em declínio”.3

Ao entender que o capitalismo é inerentemente instável, podemos observar que ele entra em crise quando a contradição entre acumulação e exploração atinge um nível insustentável, expresso como superprodução, diminuição dos lucros e desemprego, por um lado, e o aumento das desigualdades de riqueza, segregação racial e policiamento de comunidades pobres e não-brancas, por outro. Nos Estados Unidos, essas contradições produziram dialeticamente antagonismos ao longo dos anos 1970 que irromperam em movimentos radicais de Poder Negro, Pardo, Amarelo e Vermelho, greves trabalhistas, rebeliões urbanas e movimentos sociais, desde feministas negras até anti-apartheid e anti-guerra. A eles, o Estado respondeu com o aumento da capacidade militar, policial e prisional do Estado. Ruth Wilson Gilmore nos ensinou muito sobre como essas contradições levaram à expansão do sistema prisional dos EUA nos anos 1980. Para justificar a si mesmo e seu monopólio da força, o Estado trabalhou ideologicamente para compelir a identificação com a cidadania multicultural, e puniu aquelas “ameaças” à segurança nacional dessa cidadania ao distinguir entre o uso “legítimo” da força pela polícia e pelas forças armadas, e a violência “ilegítima” da dissidência e da rebelião.

Embora a expansão das funções repressivas do Estado tenha multiplicado os espaços em que as comunidades são tornadas vulneráveis à violência estatal, tal violência não se restringe apenas ao encarceramento, militarização ou policiamento. Comunidades racializadas pobres, imigrantes e anteriormente colonizadas têm sido devastadas pela privatização neoliberal, desregulamentação e extrativismo que protegem corporações e minam a proteção do trabalho e do meio ambiente indígena; pela suburbanização e vigilância direcionada de espaços sociais urbanos; e pelos pânicos morais em torno do “crime urbano”, imigrantes, mulheres negras e não-brancas e comunidades queer. Essas, também, são operações relacionadas e implicadas na expansão do Estado carcerário dos EUA.

Angela Davis e George Jackson, em seus escritos e correspondências prisionais, discutem a expansão do sistema prisional pelo Estado norte-americano como uma forma exemplar de fascismo, combinando capitalismo monopolista, imperialismo e crises capitalistas com a supressão contrarrevolucionária da dissidência política. Em Late Fascism, Toscano discute uma das cartas da prisão de George Jackson, em Blood in my Eye (1972). Jackson escreve:

Quando sou entrevistado por um membro da velha guarda e aponto para o concreto e o aço, o minúsculo dispositivo eletrônico de escuta escondido na ventilação, a falange de capangas espiando-nos, seu gravador de plástico disfuncional que custou uma semana de trabalho, e aponto que tudo isso são manifestações de fascismo, ele invariavelmente tenta me refutar definindo o fascismo simplesmente como um assunto econômico-geopolítico onde se permite que apenas um partido exista e nenhuma atividade de oposição é permitida.4

Jackson identifica a prisão como um aparato do fascismo a partir da perspectiva de um prisioneiro político negro acusado de atividade revolucionária armada, e logo em seguida assassinado por guardas prisionais. Como prisioneiro político negro, enquadrado como “ameaça” insurgente ao monopólio da força do Estado, Jackson escreve de forma transparente sobre a formação contrarrevolucionária do fascismo e enfatiza a materialidade do complexo industrial prisional, desde as tecnologias de vigilância até o trabalho desvalorizado do pessoal prisional. Jackson está comentando sobre o fascismo como o que Gilmore mais tarde chamaria de “reestruturação do Estado capitalista” enquanto ele tenta avançar mas fracassa. Gilmore enfatiza que a “solução prisional” do Estado racial americano do pós-guerra para o fracasso do capitalismo não é um fenômeno isolado. As decisões de construir prisões que encarceram desproporcionalmente homens e mulheres negros – e de investir em punição industrial, policiamento e militarismo em vez de bem-estar público, saúde ou escolas – foram centrais para uma reorganização estrutural do “cenário de acumulação e despossessão” do pós-guerra. Como observa Toscano, o fascismo não é apenas uma reestruturação contrarrevolucionária do Estado capitalista. Também é uma ação incipiente e antecipatória contra um acerto de contas adiado, suprimido ou em curso.

Alberto Toscano é um dos teóricos políticos mais significativos e originais da atualidade. Em Fascismo Tardio, ele lida com um vasto espectro do pensamento antifascista: de Ernst Bloch, George Bataille e Leo Lowenthal a Angela Davis e George Jackson; de Stuart Hall e Ruth Wilson Gilmore a Jairus Banerji e Furio Jesi. Os resultados são reveladores. Ao retratar o fascismo não como um monolito, mas como uma gama de respostas à crise colonial e capitalista racial, ele ajuda a desalojar o fascismo do impasse da analogia, fornecendo os recursos para entender efetivamente nosso presente histórico. Além disso, o exame de Toscano sobre a longa duração do fascismo refere-se à colonialidade do presente. Nas palavras de Cedric Robinson, ele “ressuscita eventos que foram sistematicamente apagados de nossa consciência intelectual”,5 e nos permite entender nossas condições presentes de uma nova maneira.

Notas:

1 Discurso sobre o colonialismo, Monthly Review Press, 1955/1972.

2 Walter Rodney, Como a Europa subdesenvolveu a África, Verso Books, 1972/2018.

3 Toscano, p34.

4 George Jackson, Sangue em Meu Olho, citado em Toscano.

5 Cedric Robinson, Uma Antropologia do Marxismo, Ashgate, 2001.

Leia sobre a pirotecnia reacionária de Trump https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/trump-pirotecnia-reacionaria.html

Minha opinião

Apenas um motivo para atacar 

Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65

O presidente Lula substitui a ministra da Saúde, Nísia Trindade, pelo deputado e agora ex-ministro da articulação institucional Alexandre Padilha. 

Fato importante? Sim. Toda mudança em ministério se converte em notícia relevante, especialmente quando se trata da Saúde — um dos principais postos da Esplanada. 

Acontece que "analistas" dos três principais jornais do país e seus colegas de extensão midiática nem tratam o fato como natural em qualquer governo, nem entram no mérito de hipotéticas razões para a mudança. 

Em uníssono descem a lenha no presidente acusando-o de, no mínimo, mal educado, supostamente pelo instante e pelo modo como o presidente abordou a agora ex-ministra.

Tem sido assim praticamente em relação a todos os fatos de governo. Pouco interessa a essência, importa encontrar em cada ação e em cada gesto do governante motivo para criticá-lo e, desse modo, alimentar a cantilena que parece repercutir negativamente na opinião pública. 

O complexo midiático dominante age como partido político de oposição. Sob certos aspectos, mais corrosivo do que os partidos formalmente constituídos. 

Em minha modesta opinião, cabe a Lula e ao conjunto das forças que com ele governam mais empenho e mais competência na contraofensiva.

Leia: Lula diante de desafios e possibilidades https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/lula-diante-de-desafios-e-possibilidades.html

25 fevereiro 2025

Palavra de poeta: Thiago de Mello

Ninguém me habita
Thiago de Mello 

Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem

[Ilustração: Edward Hopper]

Leia também um poema de Mário Quintana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/palavra-de-poeta-mario-quintana.html