08 abril 2026

Thiago Modenesi opina

A unidade dos comunistas e a luta contra o esquerdismo radicalóide
Ao recuperar Lênin e a experiência brasileira, o texto sustenta que derrotar a extrema direita exige coesão política, frentes amplas e inserção real na classe trabalhadora.
Thiago Modenesi/Vermelho      

A unidade dos comunistas sempre foi uma questão central para o êxito da luta revolucionária. No Brasil contemporâneo, onde a fragmentação política fragiliza a esquerda e fortalece o avanço da extrema-direita, resgatar o ensinamento de Lênin sobre a necessidade de um partido comunista único e coeso torna-se uma tarefa urgente. A pulverização de supostos comunistas em pequenas organizações, sem representatividade popular e presas a pautas sectárias, é a negação da prática revolucionária e um luxo pequeno-burguês que não se pode mais tolerar.

Para Lênin, a unidade do partido não era um detalhe organizacional, mas uma condição fundamental. No X Congresso do Partido Comunista Russo, em 1921, ele foi categórico ao afirmar que “a unidade e a coesão das suas fileiras, a garantia da completa confiança entre os membros do partido e de um trabalho verdadeiramente fraterno” eram particularmente necessárias diante das “vacilações entre a população pequeno-burguesa”.

O líder bolchevique identificou no fracionismo um perigo mortal. A formação de grupos com plataformas próprias e disciplina interna, mesmo quando movidos pela “sinceridade” de manter a unidade, conduzia inevitavelmente “ao enfraquecimento do trabalho fraterno” e abria brechas para que “os inimigos do partido no poder” se infiltrassem e aprofundassem as divisões em proveito da contrarrevolução. Não por acaso, o congresso determinou a dissolução imediata de todos os grupos formados em torno de plataformas paralelas, sob pena de expulsão.

Esta lição histórica é atualíssima. Quando setores que se autodenominam comunistas optam pelo racha e pela criação de organizações minúsculas, sem inserção real na classe trabalhadora, estão repetindo o padrão criticado por Lênin: abandonam a luta concreta para se refugiar em grupelhos onde podem ostentar pureza ideológica sem nenhum custo político.

Esta fragmentação não é acidental. Ela decorre de uma concepção equivocada que Lênin combateu ferozmente em sua obra clássica “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo”. O sectário, preso ao “revolucionarismo pequeno-burguês parecido com o anarquismo”, é incapaz de compreender a correlação de forças e as mediações necessárias à ação política. Exagera a força do proletariado, minimiza o poder do inimigo e, com isso, isola as organizações revolucionárias, aprofundando sua marginalidade.

Lênin ironizava aqueles que, “com a magnificência de um Narciso ególatra” (no Brasil há um punhado desses nos canais de YouTube…), confundiam o brandir de espadas de papelão com ação revolucionária. Para ele, a recusa em participar de parlamentos burgueses, de sindicatos reacionários ou de estabelecer acordos com outras forças não era prova de radicalismo, mas de total ingenuidade e incapacidade de assimilar a disciplina do proletariado, mantendo-se preso à mentalidade dos “caducos intelectuais pequeno burgueses”.

No Brasil contemporâneo, essa doença infantil se manifesta naqueles que, por não compreenderem a necessidade de táticas flexíveis, preferem atacar a esquerda que está na luta cotidiana do que enfrentar o inimigo real. Criticam a participação em frentes amplas como se houvesse margem para um voo solo revolucionário, sem perceber que, ao fazer isso, servem objetivamente aos interesses da direita.

Aqui reside a contradição fundamental: como se dizer comunista sem compreender a estratégia das frentes amplas? Lênin, que enfrentou a Guerra Civil russa com o país em ruínas, soube fazer alianças táticas com outros setores para garantir a sobrevivência da revolução. Ele compreendia que “até que se debacle uma revolução socialista mundial”, é dever dos socialistas “não aceitar a batalha contra os gigantes do imperialismo” quando a correlação de forças é desfavorável, mas sim “tentar adiar a batalha” e buscar os melhores aliados possíveis.

A história do Brasil também demonstra a potência das frentes amplas. A resistência à ditadura militar de 1964 até o seu fim, a campanha das Diretas Já e a eleição de Tancredo Neves em 1985 foram possíveis porque setores diversos, incluindo forças que outrora estavam em campos opostos, uniram-se contra o autoritarismo. Mais recentemente, a Frente Ampla que derrotou Jair Bolsonaro em 2022 uniu desde movimentos sociais e partidos de esquerda até setores da centro-direita, tendo em Lula a capacidade de agregar este espectro amplo.

Hoje, ser revolucionário no Brasil não é fazer pose de radical em redes sociais ou atacar o governo Lula por suas contradições. Numa conjuntura de avanço da extrema-direita no mundo, com o bolsonarismo mantendo força no Congresso e nas ruas, como demonstrado nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, a tarefa central é impedir o retrocesso.

A reeleição do presidente Lula em 2026 e a derrota definitiva do bolsonarismo não são pautas menores ou “conciliadoras”. São o front principal da batalha política. Defendê-las é ato de resistência e garantia de que não retrocederemos à noite autoritária que vivemos entre 2019 e 2022.

Os comunistas que compreendem seu tempo histórico sabem que a análise concreta de uma situação concreta é a própria essência, a alma viva do marxismo. E a situação concreta do Brasil exige unidade. Exige que superemos o infantilismo esquerdista e a mentalidade pequeno-burguesa que nos condena à fragmentação e à irrelevância. Exige que compreendamos, com Lênin, que a crítica necessária aos defeitos do partido e do governo deve ser feita sem assumir “formas que possam ajudar os inimigos de classe do proletariado”.

A unidade dos comunistas sob uma única legenda não é utopia, é necessidade histórica. É condição para que a classe trabalhadora brasileira tenha um instrumento à altura dos desafios que enfrentamos. Pois, como ensinou Lênin, sem um partido de ferro e coeso, não há revolução que triunfe. E sem derrotar Flávio Bolsonaro em 2026, não haverá amanhã para o povo brasileiro.

Direita dividida x Lula? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_27.html 

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