Um presidiário
cercado de luxo, privilégios e cumplicidades
Enio Lins
EM MANCHETE na página de abertura, o portal globo.com publicou a seguinte pérola: “Moraes nega livre acesso de filhos à casa de Bolsonaro”. A platitude foi ao ar, com tremendo destaque, às 9h22 (sic) do sábado, 28. Reportagem com assinatura coletiva de Márcio Falcão, Gustavo Garcia, TV Globo e G1, redigida em Brasília. O destaque seguiu presente na tela inicial, em menor espaço, durante o domingão, 29. Numa boa.
GENTE, POR FAVOR: Jair B é um presidiário! A residência dele, numa generosidade
excessiva do STF, foi convertida – provisoriamente – em carceragem. Tanto que o
nome da benesse é “prisão domiciliar”. O ministro Alexandre de Moraes,
atendendo às súplicas da defesa e dos familiares do condenado, concedeu o
privilégio do apenado cumprir, da sua pena de 27 anos e três meses em regime
fechado, 90 (noventa) dias no extremo conforto de sua mansão. Assim, o
criminoso sobre o qual falamos está em cana. Em casa, mas devidamente preso, e
as normas, no aconchego de seu lar, são iguais às normas de qualquer presídio
Brasil afora. É isso, talkey? Filhos e demais familiares de Jair B que estejam
soltos – por enquanto – não podem entrar e sair em ambientes prisionais quando
bem entenderem. Não podem the Bolsonaro’s terem livre acesso – por exemplo – aos
parceiros e amigos Ronnie Lessa, irmãos Brazão e Rodrigo Bacellar, atualmente
encarcerados (em Bangu 8, se não me engano) por crimes diversos – os três
primeiros, pelos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e o deputado
(bolsonarista ex-presidente da ALERJ) por ligação com o Comando Vermelho.
TEM A MANSÃO DE JAIR B 400 m² (quatrocentos metros quadrados) de área
construída, dois andares, jardins, piscina, área de lazer privativa. Não é esse
endereço um dos 101 imóveis adquiridos pelos Bolsonaros durante os recentes
anos de fartura (desses, 50 foram comprados com dinheiro vivo, conforme as
escrituras passadas em cartório). O domicílio seria alugado, dizem. Localizado
no luxuoso Condomínio Solar de Brasília, por sua vez encravado no Jardim Botânico
da Capital Federal, área verdejante cortada por ruas arborizadas, perímetro
exclusivo, numa das mais aprazíveis e privilegiadas glebas urbanas do Brasil.
Lembra o G1: “Entre 4 de agosto e 23 de novembro, Bolsonaro já cumpriu prisão
domiciliar no condomínio Solar de Brasília (...). Ele foi transferido para a
Superintendência da Polícia Federal em novembro após tentar violar a
tornozeleira eletrônica que usava na domiciliar. E, dias depois, passou a
cumprir [na Papudinha] a pena definitiva de 27 anos e 3 meses de prisão a que
foi condenado pelo STF no inquérito da trama golpista”.
“COM 1.258 LOTES, o condomínio é tão extenso que foi dividido em três
quadras: Solar de Brasília I, II e III. O urbanismo é semelhante ao dos
condomínios em redor: lotes grandes, ruas internas arborizadas, guaritas com
vigilância 24 horas e controle rígido de entrada e saída. Além disso, o
conjunto oferece aos moradores e visitantes: ruas de bloquetes, avenidas
pavimentadas e sinalizadas, pistas de caminhada, ciclovias, área de lazer com
quadras para esportes, churrasqueiras, pista de skate, parquinhos, quatro
igrejas cristãs de diferentes denominações, central de monitoramento de
segurança, espaço de lazer para idosos” – assim descreve o G1 a ambiência do
mito presidiário noutra reportagem, publicada em 27 de março, assinada por Ana
Lídia Araújo, Fernanda Bastos e Ygor Wolf. Pergunta-se: é prisão ou premiação?
Mas – provisoriamente – é uma Casa de Detenção e não uma Casa de Mãe Joana.
Insisto: cadeias são locais nos quais não pode entrar e sair quem quiser na
hora que quiser. Nem familiares, nem cúmplices. E no caso em tela – Zero Um,
Zero Dois, Zero Três, Zero Quatro et caterva – são familiares/cúmplices que
querem livre acesso a Zero Zero, o líder da quadrilha. Não dá, né?

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