Eu era apenas quanto
Joseph Brodsky
Eu era apenas quanto
a tua mão tocasse
ou sobre o que inclinavas,
no breu da noite, a face.
Eu
era, embaixo, quanto
notavas turvo, apenas:
traços, no início, vagos;
feições, mais tarde, plenas.
Foste
quem logo, ardente,
criou-me a sussurrar,
seja à direita, à esquerda,
a concha auricular.
Foste,
a agitar cortinas,
quem, na umidade cava
da boca, introduziu-me
a voz que te chamava.
Eu
era cego e, vindo,
sumindo-te de mim,
doaste-me a visão.
Fica um vestígio, assim.
E,
assim, criam-se mundos
que são postos de lado,
girando, quando prontos,
presente abandonado.
Em
meio, pois, de treva
e luz, calor e frio,
prossegue o nosso globo
seu giro no vazio.
[Ilustração:
Leia também 'A Palavra Mágica', poema de Carlos Drummond de Andrade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_80.html

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