Futebol, memória e ancestralidade
O engajamento maciço
dos brasileiros com a seleção de Cabo Verde vai além do esporte e revela a
força da ancestralidade diaspórica frente à crescente artificialidade
mercadológica do futebol moderno
OLIVIA DA ROCHA ROBBA*/A Terra é
Redonda
1.
Na primeira semana da Copa do Mundo da FIFA, nos deparamos com a seleção
de Cabo Verde e, em especial, seu goleiro Josimar José Évora Dias, mais
conhecido como Vozinha, que se tornou um dos fenômenos mais marcantes do
torneio. Após a histórica atuação no empate sem gols contra a Espanha no dia 15
deste mês, o goleiro cabo-verdiano de 40 anos, fez sete defesas e conquistou
rapidamente a simpatia do público brasileiro, que mobilizou uma verdadeira
campanha de apoio nas redes sociais. Em poucos dias, seu perfil no Instagram
saltou de cerca de 50 mil seguidores para mais de 10 milhões, impulsionado
principalmente pelo engajamento de torcedores brasileiros.
O fenômeno Vozinha revela aspectos importantes das formas de
identificação construídas entre brasileiros, até mesmo aqueles que não gostam
de futebol, e seleções africanas em competições internacionais. A acolhida
recebida por Cabo Verde não pode ser explicada apenas pela admiração por uma
equipe considerada azarão diante de uma potência do futebol mundial. Em um país
profundamente marcado pela diáspora africana, a simpatia por atletas e seleções
do continente africano frequentemente mobiliza sentimentos de pertencimento,
memória e reconhecimento histórico que podem ser compreendidos a partir da
nossa ancestralidade.
Talvez parte da comoção provocada por Vozinha decorra justamente daquilo
que muitos brasileiros sentem faltar na atual seleção nacional: a capacidade de
despertar encantamento. Enquanto a equipe brasileira frequentemente aparece
associada a estratégias de marketing, discursos padronizados e uma
relação distante com a torcida, a seleção cabo-verdiana apresentou ao público
uma narrativa de autenticidade, superação e emoção. O goleiro de 40 anos, que
desafia os limites da idade imposta pelo mundo dos esportes, e enfrenta uma
potência mundial com coragem no seu jogo de estreia em copas do mundo,
tornou-se, para muitos, um símbolo de um futebol vivido com paixão e
humanidade, valores que ocupam lugar central na memória afetiva do torcedor
brasileiro.
Esse tipo de identificação não é recente. Em diferentes edições da Copa
do Mundo, seleções africanas despertaram forte simpatia entre os torcedores
brasileiros. A campanha de Camarões em 1990, na Itália, liderada por Roger
Milla, conquistou admiradores ao desafiar as hierarquias tradicionais do
futebol mundial e se tornar a primeira equipe africana a alcançar as quartas de
final. De modo semelhante, a seleção do Senegal, em 2002, tornou-se uma das
favoritas do público brasileiro após derrotar a então campeã mundial, a França,
na partida de abertura e avançar até as quartas de final. Em ambos os casos, a
admiração pela superação de equipes oriundas de países historicamente
submetidos ao colonialismo articulou-se a sentimentos de proximidade cultural e
identificação simbólica presentes na sociedade brasileira.
2.
A trajetória da República Democrática do Congo na Copa Africana de
Nações produziu uma imagem bastante emblemática. O torcedor Michel Kuka
Mboladinga chamou a atenção da imprensa internacional ao permanecer durante os
90 minutos da partida vestido com as cores nacionais, com o braço erguido e
praticamente imóvel nas arquibancadas, reproduzindo a célebre estátua de
Patrice Lumumba, líder da independência congolesa e primeiro-ministro do país,
assassinado em 1961 em meio às disputas políticas que marcaram o violento
processo de descolonização africana.
A repercussão da homenagem foi tão significativa que Michel Kuka
Mboladinga foi incorporado à delegação congolesa e convocado com a seleção para
a Copa, embora não tenha conseguido estar presente na partida de estreia do seu
time. A expectativa em torno da sua presença evidencia como o futebol pode se
transformar em um poderoso espaço de atualização da memória histórica,
permitindo que símbolos, personagens e lutas do passado sejam ressignificados e
reapropriados no presente.
Nesse contexto, a torcida ultrapassa os limites do espetáculo esportivo
e converte-se em um ato de afirmação identitária, articulando esporte,
nacionalismo e memória coletiva. A homenagem a Patrice Lumumba demonstra como
as lembranças das lutas anticoloniais continuam a desempenhar papel fundamental
na construção das identidades africanas contemporâneas, sendo mobilizadas
inclusive em eventos esportivos de alcance global.
Nesse sentido, a ancestralidade não se restringe à ideia de descendência
biológica. Refere-se a um conjunto de heranças culturais, experiências
históricas compartilhadas e vínculos simbólicos que ultrapassam as fronteiras e
nos conectam a um passado comum. A forte presença africana na formação da
sociedade brasileira, tão marcante na língua, na religiosidade, na culinária,
na música e em inúmeras manifestações culturais, contribui para que muitos
brasileiros reconheçam nas trajetórias de equipes africanas elementos de uma história
comum.
As reflexões feitas por intelectuais como Aimé Césaire e Frantz Fanon
acerca da experiência colonial e dos processos de construção identitária no
mundo afrodiaspórico nos ajudam a compreender esse fenômeno que se repete a
cada Copa do Mundo. Aimé Césaire defendia a valorização das heranças culturais
africanas e a recuperação de uma memória histórica compartilhada como formas de
resistência à desumanização produzida pelo colonialismo. Para o martinicano, a
afirmação da identidade negra constituía um processo de reconquista da
dignidade histórica dos povos submetidos à dominação colonial e à negação de
suas culturas.
Frantz Fanon, por sua vez, enfatizou os efeitos psicológicos, sociais e
políticos do colonialismo sobre os sujeitos colonizados, destacando a
importância do reconhecimento e da afirmação cultural nos processos de
emancipação. Em suas análises, a recuperação da autoestima coletiva e da
consciência histórica aparece como elemento fundamental para a superação das
hierarquias produzidas pela ordem colonial.
Sob essa perspectiva, o sucesso de seleções africanas em competições
globais pode ser interpretado como um momento simbólico de visibilidade e
reconhecimento internacional de sociedades que, durante séculos, foram
representadas por discursos de inferiorização e marginalidade.
O entusiasmo despertado por Vozinha e pela seleção cabo-verdiana durante
a Copa de 2026 pode, assim, ser compreendido como a manifestação desses laços
históricos e culturais. Mais do que uma simples torcida por uma equipe
considerada surpreendente, trata-se de um fenômeno que mobiliza memórias da
diáspora, sentimentos de ancestralidade e formas de solidariedade simbólica
construídas ao longo de séculos de conexões entre África e Brasil.
Nesse processo, o futebol converte-se em um espaço privilegiado de
expressão de identidades, afetos e reconhecimentos mútuos, revelando a
permanência de vínculos históricos que continuam a aproximar brasileiros e
africanos no imaginário da população.
*Olivia da Rocha Robba é doutoranda em história social na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Foto: ROBERTO SCHMIDT/AFP
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