A
última barreira da lógica no futebol
Será
que um dia teremos uma grande surpresa nas Copas? Propagandas de apostas
invadem as transmissões dos jogos
Tostão/Folha
de S. Paulo
Na Copa 2026,
como se esperava, acontece uma maciça propaganda comercial, especialmente de
casas de apostas, até na parada para hidratação durante as partidas.
Certamente crescerão o
número de viciados e os problemas mentais e financeiros. Muitos pobres gastam
na jogatina o dinheiro reservado para necessidades essenciais. É fácil apostar,
basta um clique. A mensagem no final dos anúncios comerciais que diz
"Jogue com responsabilidade" é um cínico conselho, como já escreveu
Sérgio Rodrigues, colunista desta Folha.
As enquetes, manchetes de
recordes, estatísticas e comparações, muitas inúteis, com tantas variáveis,
aumentaram bastante no Mundial. É a máquina de informações. As estatísticas
costumam ser importantes, mas é preciso olhar, com profundidade, para o campo e
para os números, como faz o colunista PVC.
Contra o Haiti, Carlo Ancelotti colocou Rayan porque
ele tem características parecidas às de Raphinha, que entrava com velocidade em
diagonal para receber a bola nas costas dos defensores adiantados.
Nesta quarta (24), contra a
Escócia, que deve ter uma marcação recuada, perto da área, Luiz Henrique pode
ser a melhor opção, por atuar aberto. Outra alternativa é escalar um
centroavante.
Ancelotti deve manter o trio no meio-campo, com Casemiro centralizado,
Bruno Guimarães de um lado e Paquetá do outro. Pela esquerda, Paquetá, com seus
precisos lançamentos, facilita para Vinicius Junior. Além disso, Matheus Cunha,
pelo meio e mais próximo à área adversária, não precisa voltar para marcar pela
esquerda. O meio-campo com três fica mais preenchido, marca e constrói com mais
eficiência.
As seleções, como se esperava, na média, estão mais intensas, compactas,
pressionando mais para recuperar a bola no campo do adversário e fazendo mais
gols. A Argentina foge do lugar comum, pois prefere marcar
mais no meio campo em vez de pressionar, além de não ter pontas abertos,
rápidos e dribladores.
Messi fez todos os cinco gols marcados
pela seleção. Além da enorme criatividade, precisão técnica e da grande
capacidade de definir rapidamente as jogadas, de tornar simples o que é
complexo, possui a sabedoria de esperar o momento certo para brilhar. Como ele
sabe? Sabendo.
Existe um saber
inconsciente que antecede o raciocínio. Os neurologistas chamam de inteligência
cinestésica.
Na Copa de 1994, nos EUA,
há 32 anos, os americanos e os japoneses diziam que iam investir bastante no
planejamento, na ciência esportiva, na formação de jogadores e que em 20 a 30
anos se tornariam uma potência mundial no futebol.
As duas e várias outras
seleções evoluíram bastante, possuem ótimas equipes e excelentes jogadores, mas
não chegaram a ponto de ser candidatas ao título da Copa. Faltam os craques.
Por quê?
Os motivos devem ser
culturais, sociais e genéticos. Parafraseando a musica de Noel Rosa, samba e
futebol não se aprendem no colégio. Craques não são apenas os atacantes que
fazem muitos gols.
Nos outros campeonatos com
jogos mata-mata espalhados pelo mundo, como a Copa do Brasil, de vez em quando
acontece uma surpresa, a conquista do título por uma equipe que não estava
entre as favoritas. Por que nunca aconteceu em uma Copa do Mundo? Penso que a
razão principal seja a seriedade com que as grandes seleções se preparam para a
maior competição do futebol mundial.
Será que um dia teremos uma
grande surpresa? É a última barreira da lógica a ser vencida pela
imprevisibilidade do futebol.
[Ilustração: Nelson Leirner]
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