O corpo, a técnica e a alma no
futebol
Seleção
precisa pressionar mais a saída de bola do adversário e ser mais compacto. Dentro
de certos limites, tensão dos jogadores é benéfica ao desempenho
Tostão/Folha
de S. Paulo
A goleada sobre o fraco Panamá serve para Carlo Ancelotti refletir sobre outras opções na escalação e
formação tática da equipe. No primeiro tempo, a seleção repetiu a estratégia
usada contra a Croácia com Matheus Cunha mais recuado, marcando pela esquerda,
além de Luiz Henrique pela direita e a dupla de atacantes formada por Raphinha
e Vinicius Junior.
No segundo tempo o time melhorou
com os reservas. Os meio-campistas Paquetá e Danilo Santos formaram um trio no
meio-campo. Paquetá é diferente de Matheus Cunha. O jogador do United (Matheus)
é um meia-atacante que volta para receber a bola e marcar, enquanto Paquetá ,
assim como Danilo, é um meio-campista que joga de uma área a outra e que inicia
as jogadas de frente para o campo adversário.
Raphinha ficou um pouco perdido
pelo centro, pois no Barcelona atua do lado para o meio, se movimentando por
todo o ataque. Danilo, Rayan, Endrick e Igor Thiago também mostraram
novamente que podem ser boas alternativas.
Independentemente
da escalação e da formação tática, o time precisa pressionar mais a saída de
bola do adversário e ser mais compacto, defendendo e atacando em bloco. Quando
o meio-campo se adiantava, os zagueiros ficavam muito atrás, deixando grandes
espaços entre os dois setores para o Panamá trocar passes e chegar à área. Esse
posicionamento do time brasileiro contra fortes seleções poderá ser um
desastre.
Desde os
7 x 1 contra a Alemanha, em 2014, o recente 4 x 1 contra a Argentina e
outros momentos ruins, critico o vazio que existe no meio-campo, com apenas
dois jogadores para marcar, construir e avançar, além da pouca valorização do
setor no controle da bola. Seria melhor formar um trio no meio-campo, desde que
tenham pelo menos dois meio-campistas que marcam, constroem e avançam.
É necessário, em
uma mesma partida, alternar a transição rápida da defesa para o ataque com a
troca de passes e o domínio da bola e do jogo. Contra as seleções mais fortes
será importante, em muitos momentos, recuar a marcação, atrair o outro time e
contra-atacar para aproveitar os velozes atacantes brasileiros e os espaços
deixados pelos adversários.
Além das
qualidades individuais, coletivas e físicas, a seleção terá de estar bem
emocionalmente na Copa. O grupo conta com a ajuda da psicóloga Marisa Santiago, especialista em terapia
cognitivo-comportamental e mestre em ciências do esporte pela UFMG.
A
ansiedade é uma reação emocional quando se percebe uma situação ameaçadora, com
ou sem a presença de um perigo real, objetivo. O receio é o fracasso na Copa. A
tensão é benéfica, dentro de certos limites, pois ela estimula a produção de
substâncias químicas, melhora a concentração, a capacidade muscular e aumenta o
entusiasmo. Se a ansiedade for excessiva, o corpo não obedece ao comando do
cérebro e passa a ter ações inadequadas, impulsivas e, às vezes, violentas, que
podem resultar em expulsões e derrotas.
Os jogadores,
antes das partidas, criam hábitos, rituais para conviver melhor com a tensão
emocional. Pelé chegava ao vestiário, deitava e fechava os olhos. Não sei se
dormia e se sonhava com os lances magistrais que executaria em campo. Ele foi o
maior de todos porque possuía, no mais alto nível, todas as qualidades
técnicas, físicas e emocionais.
[Ilustração: imagem produzida em IA]
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