02 agosto 2026

Palavra de poeta

Lunares Leoninos
Andréia Carvalho Gavita   

Estarei sempre-viva.
Cultuo esta solidão que laçam,
Mais um palco para o sol.

Tenho leões
Mesmo adormecidos
Rugem-me evangelhos
Como músicas empoeiradas
Sarapintadas,
letras panteras deslizantes
no livro manuseado.

Os leopardos sonâmbulos.
Passo-signo.
Leituras que nos caçam
a dinastia extinta.

Incansável realeza
Indestrutível ronda

Estou sempre-viva
Mesmo adormecida.

Espreito o que me espreitam.
Nada me descreve. Antes, eu.
E tu, e os topázios.

Aquilo que tenho e que só,
tu alcanças.

Aquilo que tens e que só,
eu alcanço.

Rugidos e extratos-feras.
Enquanto adormecem
sob nossos calcanhares:
galanteio, vaia, devoção.

[Ilustração: Di Cavalcanti]

Leia também: "Guarda-me em ti", poema de Raúl Zurita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_02016478250.html 

Nenhum comentário: