Trabalhadores e trabalhadoras da fábrica da Ford, em São
Bernardo do Campo, decidiram lutar contra o golpe e em defesa dos direitos
trabalhistas. A decisão foi votada em assembleias realizadas na manhã desta
terça, dia 22. A fábrica emprega 4 mil pessoas. Leia aqui http://migre.me/tkpEj
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
23 março 2016
22 março 2016
Conflito aberto
Fase aguda da transição ameaçada
Luciano Siqueira, no Blog da Folha
A assunção de Lula à presidência da República, em 2003,
deflagrou um ciclo de mudanças que, a nosso juízo, poderia ganhar dimensão tal
que mexeria com elementos estruturais da sociedade brasileira.
Uma empreitada dura e difícil: proceder a transição da ordem
neoliberal vigente a um novo projeto nacional de desenvolvimento.
Transição que, a exemplo de toda transformação social,
acarretaria trajetória sinuosa, conflitante e de resultados imprevisíveis.
Antecipadamente, não se poderia assegurar quem venceria a
quem: se o novo, que surgia e levaria tempo para se afirmar, ou o velho, que
derrotado nas urnas lançaria mão, em contraposição, todo o arsenal de
artimanhas acumulado pela elite brasileira ao longo de mais de quatro séculos.
Viveríamos, como vivemos, períodos de relativa calmaria,
particularmente nos dois primeiros governos Lula, tirante a crise do chamado “mensalão”.
Àquela altura, conjugaram-se fatores econômicos
internacionais favoráveis com políticas de elevado alcance social e positivas
repercussões sobre a economia interna.
Isto à custa de muitas concessões, diga-se. Os avanços
sociais, a afirmação do Brasil na cena internacional e a prática democrática
ampliada (inclusive com a descriminalização dos movimentos sociais), deram-se
sem ferir interesses fundamentais do setor hegemônico do capital, o rentismo.
Mesmo com a eclosão da crise global, em 2008, até o final de
2014, foi possível manter o dinamismo econômico e a valorização do trabalho a
contento.
Com a terceira fase da crise global, e agora a quarta, que
atingem duramente países emergentes – incluindo o Brasil -, nossa economia põe
a língua de fora e dá sinais de exaustão.
É a crise que vivemos, acrescida da instabilidade política
gerada pela contradição entre a reeleição da presidenta Dilma e a eleição de um
Senado e uma Câmara dos Deputados largamente conservadores.
Somem-se erros políticos do governo e a postura intransigente
da oposição, o País se vê enredado num impasse de difícil solução.
Na base desse impasse, o conflito social real, entre classes
e segmentos de classes beneficiários do período de aquecimento econômico e de
ampliação das conquistas sociais versus a elite dominante (sob a égide aberta
ou velada do capital financeiro).
Retomando o conceito da transição de um modelo a outro, este
é o momento de conflito mais acirrado entre o novo e o velho.
Assim, sob a cortina de fumaça do combate à corrupção –
necessário, justo, oportuno, porém contaminado, na Operação Lava Jato, por
interesses políticos cada vez mais evidentes, o embate entre dois Brasis está
instalado. E vai prosseguir por muito tempo, qualquer que seja o desenlace da
crise política atual.
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mais sobre temas da atualidade: http://migre.me/kMGFD
Base social da crise
Contradições e conflitos de classe na cena política
Sob o combate de ambas
as partes, entre os que tentam o impeachment da presidenta Dilma e os que se
opõem, com motivações que extrapolam posicionamentos acerca do governo (a
defesa da democracia antes de tudo), correm um conflito real de interesses de
classe. É o que procura demonstrar Marcio
Pochmann no artigo (publicado no portal Brasil 247) que transcrevo abaixo,
que deve ser lido e debatido com atenção.
A direita como inimiga de classe
Para
o Brasil, as décadas de 1980 e 1990 foram as piores de todo o século 20, pois
foram marcadas pela decadência econômica e social. Com o projeto nacional
desenvolvimentista vigente entre os anos de 1930 e 1980 sendo interrompida pela
equivocada política de ajuste exportador do último governo da ditadura militar
(1964 - 1985), a trajetória brasileira foi a de regressão tanto da 8ª para a
13ª posição no ranking das economias mais ricas do mundo como da 13ª
colocação para a 3ª na lista de países com maior desemprego global entre os
anos de 1980 e 2000.
A
incapacidade do governo Sarney (1985-1990) de retomar as linhas gerais da
industrialização abriu caminho para o desastre da desindustrialização
estabelecida com primazia pelo neoliberalismo dos governos Fernandos (Collor e
Cardoso). Somente na década de 2000, com a ascensão dos governos liderados
pelo PTismo que a economia brasileira conseguiu simultaneamente
convergir – em pleno regime democrático – o crescimento econômico com a inclusão
social.
Aproveitando-se
de uma conjuntura econômica externa favorável, a nova correlação de forças
políticas decorrente da vitória eleitoral de 2002 permitiu elevar
consideravelmente o poder de compra dos salários e o nível do emprego,
diminuindo a concentração de renda e expandindo o mercado interno. Inversamente
à histórica trajetória pregressa, observou-se que a inclusão socioeconômica do
segmento de baixa renda favoreceu decisivamente o sentido da homogeneização do
padrão de consumo.
Frente
a isso, não demoraram a aparecer alguns sinais de mal-estar por parte da elite
brasileira acostumada ao exclusivismo do seu padrão de consumo diferenciador de
classe. Para agravar, a tradição do seu mimetismo fez crescer ainda mais inveja
por conta do avanço das bases ideológicas do Tea Party estadunidense.
Acontece
que desde o ano de 1999, com as tentativas de relançar a economia estadunidense
com reformas inclusivas do governo Obama, expandiu, em resposta, uma ala mais
liberal (Tea Party) do Partido Republicano, cuja ideologia é de extrema-direita
e receituário econômico assentado em forte restrição fiscal. Guardada a devida
proporção, os questionamentos ao programa econômico inclusivo dos
governos PTistas por parte da oposição crescentemente de direita
ganharam mais forte guarida com as opções de ampliação do papel do Estado
frente à crise capitalista de dimensão global iniciada em 2008.
A
piora do cenário econômico externo concomitante com a transição da política
econômica de demanda dos anos 2000 para a de oferta desde 2011 fragilizaram o
potencial desenvolvimentista brasileiro. Com a nova derrota eleitoral imposta
em 2014, parte da oposição não aceitou o resultado, abandonando a posição de
adversária política para a de inimiga de classe.
Em
síntese, a mudança da situação de parceira no certame eleitoral para a de
guerra voltada à eliminação do Partido dos Trabalhadores. Para isso, passou a
valer qualquer tipo de meio, inclusive abandonar as regras estabelecidas
consensualmente pela Constituição Federal de 1988.
Enquanto
o governo da presidente Dilma insiste no programa de relançamento da economia,
cujo caminho é o de seguir na homogeneização do padrão de consumo, setores
impulsionadores do descarte do PT defendem sorrateiramente o inverso. Isto é, o
rebaixamento das condições socioeconômicas e políticas para que seja possível
novamente a volta do padrão de desigualdade na distribuição de renda. Por isso,
a ênfase no retorno do programa neoliberal, com a privatização da Petrobras, a
adoção da terceirização no mercado de trabalho e a redução dos direitos sociais
e trabalhistas inscritos na Constituição Federal de 1988.
Novamente,
dois caminhos distintos se abrem para o Brasil. As fichas já estão na mesa,
chegando a hora do conjunto da população se posicionar por qual país deseja
viver e deixar para as próximas gerações.
As verdadeiras razões do golpe
Plataforma de Armínio para pós-golpe atenta contra trabalhadores
Por Joana Rozowykwiat, no Portal Vermelho
Em entrevista à Folha de
S. Paulo, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga se coloca mais uma vez
ao lado dos que não aceitam o resultado das urnas. Adepto do terrorismo
econômico, ele se antecipa e já apresenta o receituário neoliberal para o pós-golpe.
A agenda que propõe atenta contra políticas sociais e direitos trabalhistas.
Deixa claro que o projeto defendido pela oposição, ignorando as regras
democráticas, é anti-povo, concentrador de renda e riqueza.
Fraga,
que foi responsável pelo plano de governo da campanha presidencial do tucano
Aécio Neves, insiste em fazer valer a sua plataforma, rejeitada nas eleições
pela maioria da população. Aproveita a crise – política e econômica – para
pregar o retrocesso.
À
Folha, ele defende abertamente uma “troca de governo (...), enquanto se
aguardam eleições e uma liderança com mandato para ir mais fundo nas mudanças”.
Ignora que o Brasil passou por um processo eleitoral há pouco mais de um ano,
do qual a presidenta Dilma Rousseff sagrou-se vencedora.
Para o
economista e professor da UFRJ João Sicsú, o que está em jogo, no país, não é o
combate à corrupção ou mesmo a tentativa de impedimento da presidenta por crime
de responsabilidade e, sim, a disputa de dois projetos para as próximas
décadas.
“Há,
de um lado, o projeto de concentração de renda e riqueza [defendido por Fraga],
e, do outro, um projeto de geração de empregos, inclusão social e distribuição
de renda, que fica mais claro com a chegada – ou a tentativa de chegar – do
ex-presidente Lula ao governo”, apontou.
De
acordo com o professor, é para levar adiante este projeto impopular, que
beneficia a minoria da população, que Armínio Fraga defende medidas como “um
orçamento base zero, desvinculado e desindexado (...), além de reformas
tributária, trabalhista e previdenciária”.
Tomar
o governo para controlar o orçamento - “Para
haver esse projeto, é preciso que o orçamento federal fique a serviço dele. Ou
seja, é preciso recursos para desonerar empresários, pagar mais juros àqueles
que têm títulos da dívida pública e dar incentivos de toda maneira ao andar de
cima. Isso inclui reduzir ou eliminar programas sociais, rebaixar salário,
retirar direitos trabalhistas e previdenciários”, criticou.
Sicsú
completou, afirmando que a tentativa de derrubar Dilma ocorre não pelas razões
alegadas, mas para viabilizar o retorno a esse projeto. “Para implementar isso,
é preciso estar no governo. Por isso, estão ao lado de Aécio Neves, Eduardo
Cunha e tantos outros que são denunciados por corrupção, mas que querem derrubar
o governo Dilma. (...) A tomada do governo é para controlar o orçamento e
colocá-lo a serviço do projeto de concentração de renda e riqueza”.
Mais
que o desrespeito à vontade popular e à democracia, Armínio Fraga – como porta
voz da oposição – defende uma volta ao passado. As medidas que sugere para o
país enfrentar a crise estão alinhadas com o documento apresentado pelo PMDB no
ano passado e que, ironicamente, se chama Ponte para o Futuro.
De
acordo com Sicsú, a proposta de orçamento base zero de Fraga significa cortar
gastos em áreas sensíveis. “A ideia é só avançar nas despesas quando se tem
receitas. Mas como as receitas estão deprimidas pela recessão, o primeiro passo
será cortar gastos públicos. E, quem está nesse projeto [da oposição], pensa
logo em cortar gastos de custeio, que são os salários de funcionários públicos,
a compra de medicamentos, os programas sociais”, descreveu.
A
Constituição de 1988 estabelece determinados compromissos em relação ao gasto
público, percentuais mínimos a serem investidos em áreas estratégicas, como
saúde e educação. Fraga, contudo, defende que todas essas vinculações
constitucionais devem acabar. Para Sicsú, estas são regras que dão rigidez ao
orçamento justamente para proteger a sociedade.
A
ideia deles é acabar com essas barreiras para poder o orçamento federal ficar
mais flexível para que possam pagar mais juros, fazer mais desonerações, dar
mais incentivos para o andar de cima”, condenou o professor.
Reformar
para manter concentração - Sicsú alertou ainda para
o tipo de reformas que Fraga e seus aliados defendem. Em relação à Reforma
Tributária, o objetivo, avaliou, está longe de ser a justiça fiscal. “O andar
de cima paga muito pouco imposto no Brasil, mas tem que fazer muita ginástica
tributária, contratar verdadeiros departamentos de planejamento. E isso implica
custo. O que querem agora é simplificar a forma de pagar o pouco imposto que
lhes cabe. Não querem atacar a regressividade do sistema ou combater a
injustiça fiscal que existe no país”, afirmou.
Em
relação às reformas tributária e previdenciária, o economista sinaliza que a
ideia do projeto defendido pelos tucanos é reduzir direitos, como forma de
aumentar ainda mais a renda e a riqueza da parcela mais rica da
sociedade.
“Trabalhadores
no Brasil têm menos direitos que os europeus, mas mais direitos que muitos da
América Latina. O que se deseja é flexibilizar todas as regras para diminuir o
custo para os empresários. Querem que possam ser feitos acordo dentro de cada
categoria, que valeriam por cima do que determina hoje a legislação”, disse,
referindo-se à proposta de acordo coletivo especial, na qual o "negociado
prevalece sobre o legislado".
Sicsú
chama a atenção para o risco da proposta. “Basta o empresário dizer na fábrica
que vai demitir 40% dos trabalhadores, a não ser que aceitem um acordo para não
ter 13º salário, por exemplo. Os trabalhadores, temerosos, aceitariam o acordo,
para manter seus empregos. Então a ideia é flexibilizar geral. A legislação não
valeria mais nada”, lamentou.
Na
entrevista à Folha, apesar de defender medidas tão impopulares, Armínio Fraga
afirma que a maior vítima do atual governo tem sido o povo. “Na verdade, quem
está nesse projeto [defendido pela oposição] entende muito pouco de povo”,
disparou Sicsú.
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21 março 2016
Favorecidos e prejudicados
Impeachment, capital e trabalho
Quando
o assunto é o fim da isenção de impostos sobre lucros e dividendos ou tributos
progressivos e sobre heranças, o silêncio reina
Carlos Juliano Barros, na Carta
Capital
Daqui
a alguns anos, quando o tempo tiver assentado as análises sobre o tsunami que
varre o Brasil desde as jornadas de junho de 2013, a importância dos
acontecimentos desta época turbulenta não residirá na suposta cruzada contra a
corrupção ou na anedótica batalha entre coxinhas e petralhas.
Na
verdade, o que está em curso é um realinhamento de forças no eterno e insolúvel
conflito entre “capital e trabalho”. O papo é cabeça e complexo, mas tem tudo a
ver com assuntos atualíssimos, como a reforma da Previdência
e a flexibilização das relações de trabalho.
É
inegável que durante os governos petistas, sobretudo na era Lula, os
trabalhadores tiveram um importante incremento de renda. Para além dos
programas sociais, como o Bolsa Família,
o principal vetor desse processo foi o aumento contínuo do salário mínimo. Com
dinheiro no bolso, a classe trabalhadora dinamizou a economia com a explosão da
demanda por geladeiras, televisores de plasma e automóveis zero quilômetro.
No
ganha-ganha, venceram os trabalhadores que engrossaram a população
“consumistamente” ativa e o empresariado nacional – que inflou vendas e
turbinou margens de lucro. Entre 2003 e 2013, período em que o País também foi
abençoado pelas vacas gordas no mercado internacional de commodities, o PIB
cresceu em média 3,7%. Mas isso é passado.
De
fato, não restam dúvidas de que a política econômica baseada na expansão
desenfreada do consumo se esgotou. Os gargalos da infraestrutura somados ao
baixo nível de investimento – do governo e da iniciativa privada, asfixiados
pelas altas taxas de juro – impuseram duros limites à economia brasileira.
O
curioso é que, durante os oito anos do mandato de Lula, o governo teve em média
uma arrecadação 2,6% superior aos gastos – ou seja, fez o bendito superávit
primário, mas as taxas de juro continuaram estratosféricas. Para agravar o
quadro, o aumento contínuo da demanda, sem a contrapartida da oferta, provocou
pressões inflacionárias.
Há
algum tempo, como reação à crise econômica,
renasceu com força uma agenda tipicamente liberal, defendida por economistas
ligados sobretudo ao mercado financeiro que colonizam o noticiário econômico da
imprensa. Como esperado, a receita do bolo prevê uma série de reformas
estruturais que afetam tão somente o trabalho – e nunca o capital.
Voltamos,
então, ao primeiro parágrafo. A deposição do governo
Dilma Rousseff pega carona no discurso do combate à corrupção com o
objetivo de limpar de vez o terreno para uma repactuação das forças entre
capital e trabalho. A reforma da Previdência e a flexibilização das relações
trabalhistas – da qual o "libera geral" das terceirizações é apenas o
prólogo – são, ao mesmo tempo, fins e meios.
Os
economistas liberais não se cansam de repetir o mantra: os salários no Brasil
crescem a uma velocidade superior ao da produtividade da economia. Ao
dificultar a aposentadoria dos trabalhadores e ao aumentar a competição por
empregos, rasgando a legislação trabalhista e inibindo aumentos salariais, a
varinha mágica liberal pretende recolocar a economia nos trilhos, tolhendo as
parcas conquistas que os trabalhadores obtiveram nos anos 2000.
Curiosamente,
esse movimento já teve início no indefensável governo de Dilma Rousseff. Não à
toa, uma das primeiras medidas do ajuste fiscal
do seu ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy,
foi limitar o acesso ao seguro-desemprego. E o atual titular da pasta, Nelson Barbosa,
tem como meta de vida ou morte a reforma da Previdência.
Infelizmente,
não se escuta uma palavra sequer sobre o fim da isenção de impostos sobre
lucros e dividendos. Ou a respeito de tributos mais agressivos sobre grandes
heranças e fortunas. Ou acerca de uma maior progressividade nas alíquotas do
Imposto de Renda. Ou sobre a perversidade das altas taxas de juro. Quando se
trata de tirar dos mais ricos para aliviar para os mais pobres, o silêncio é
sepulcral.
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