09 fevereiro 2026

Cuba: consequências do bloqueio

Cuba e o apagão que começa fora da rede
A rede elétrica cubana existe e é extensa, mas sua topologia reflete décadas de escassez, adiamento de investimentos e cerco financeiro.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN      


“O poder real começa quando se decide quem pode ter acesso a recursos vitais
 – e quem não pode.” Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo

 

O cotidiano da crise cubana se manifesta de forma mais visível nos apagões, que afetam a produção, os serviços públicos e a vida doméstica. É a partir dessa crise elétrica – concreta, mensurável e recorrente – que se revelam os constrangimentos econômicos, tecnológicos e geopolíticos mais amplos que hoje cercam o país.

Costuma-se explicar essa situação como um efeito quase automático do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. O bloqueio é, sem dúvida, um elemento central: restringe o acesso ao crédito, encarece as importações, dificulta a manutenção e fragmenta as cadeias de suprimento. Quando tratada isoladamente, essa explicação obscurece como o bloqueio atua hoje, menos como um ato político pontual e mais como um sistema duradouro de constrangimentos estruturais que condiciona o funcionamento do setor energético cubano. A crise elétrica da ilha é, portanto, também – e talvez sobretudo – uma crise geopolítica.

Crise elétrica, sistema isolado e vulnerabilidade estrutural 

Para compreender essa dimensão, convém partir da escala concreta do problema e de como ela se projeta sobre o sistema elétrico existente. Cuba possui cerca de 110 mil km², população em torno de 11 milhões de habitantes e consumo anual de eletricidade entre 15 e 18 TWh (IEA, 2023; IRENA, 2024), números compatíveis com sistemas plenamente administráveis em condições normais de financiamento e integração.

Em termos energéticos, a ilha é comparável a um estado brasileiro de porte médio, como Pernambuco. Isso significa que não se trata de um sistema intrinsecamente gigantesco ou tecnicamente fora de possível controle, mas de um sistema administrável que, em condições normais de financiamento e integração, poderia operar com maior estabilidade.

As diferenças decisivas entre Cuba e os estados brasileiros não estão na demanda nem nas disponibilidades de sol ou de vento. Está na posição geopolítica do sistema elétrico e no grau de isolamento em que ele opera. Enquanto Pernambuco ou Ceará funcionam integrados ao Sistema Interligado Nacional, podendo recorrer à energia de outras regiões em momentos críticos, Cuba opera como uma ilha elétrica no sentido estrito do termo, sem interconexões externas nem redes de segurança. Em sistemas isolados dessa natureza, as falhas locais tendem a se propagar, na ausência de fontes externas capazes de amortecer os choques ou de recompor rapidamente o fornecimento. 

Essa vulnerabilidade estrutural se combina com uma matriz fortemente dependente de usinas térmicas a óleo combustível, muitas delas antigas e pouco eficientes. Mais de 80% da eletricidade cubana ainda depende desse modelo (IEA, 2023). Durante anos, o risco foi parcialmente amortecido pelo fornecimento venezuelano de petróleo. Com a recente crise na Venezuela, essa âncora se rompeu, expondo de forma mais aguda a fragilidade do sistema (Reuters, 2024a). O que antes era uma vulnerabilidade latente passou a se manifestar como um colapso recorrente.

A rede elétrica cubana existe e é extensa, mas sua topologia reflete décadas de escassez, adiamento de investimentos e cerco financeiro. Organizada em longos eixos longitudinais, com baixa redundância e subestações envelhecidas, ela carece de uma lógica hoje considerada elementar em sistemas isolados: a topologia em anel, que permite redirecionar fluxos e isolar falhas sem apagar regiões inteiras (EDF, 2021). Quando essa arquitetura não existe, decisões técnicas acumuladas ao longo do tempo passam a produzir efeitos distributivos claros: quem fica sem energia, por quanto tempo e em quais regiões. É nesse sentido que um problema elétrico pontual assume, na prática, um caráter político.

Financiamento, cerco e limites da transição energética 

Nada disso decorre de limitações naturais. Cuba dispõe de elevada irradiação solar, potencial eólico costeiro relevante, além de amplo acesso à biomassa associada à cana-de-açúcar (IRENA, 2022). Os recursos energéticos, portanto, não estão ausentes. O que falta são as condições materiais e institucionais para transformá-los em oferta estável de eletricidade: rede moderna, capacidade de armazenamento e financiamento previsível – exatamente os elementos mais afetados pelo bloqueio e pelo isolamento financeiro.

Nos últimos anos, Havana passou a reagir ao cerco econômico por meio da diversificação de parcerias. O movimento mais visível envolve a China, que passou a financiar e fornecer equipamentos para grandes parques solares, com a meta de alcançar cerca de 2 GW de capacidade fotovoltaica até o fim da década (Reuters, 2024b). Essa meta é confirmada por documentos e declarações oficiais do governo cubano: segundo o Granma, o país planeja instalar até 2028 um total de 92 parques solares, com capacidade combinada próxima de 2.000 MW, como parte da estratégia de elevar a participação das fontes renováveis para cerca de 24% da matriz elétrica antes de 2030 (Granma, 2024a).

As autoridades reconhecem, contudo, que esse esforço se desenvolve em meio a uma situação emergencial marcada pela escassez de combustível e pela necessidade simultânea de recuperar a geração térmica existente, o que confere à transição em curso um caráter necessariamente híbrido. Trata-se de uma escolha estratégica que não elimina a dependência de combustíveis fósseis no curto prazo, mas busca reduzir a vulnerabilidade associada à importação de energia e ampliar a margem de manobra econômica do país. 

Isso não implica que fontes renováveis intermitentes, tomadas de maneira isolada, sejam capazes de sustentar uma solução estrutural para o sistema. Em sistemas isolados, sem armazenamento, automação e redes mais resilientes – especialmente com a anelização em 220 kV –, a expansão solar pode apenas deslocar o ponto de instabilidade. Por essa razão, os cenários mais realistas para Cuba combinam fontes renováveis com biomassa despachável – isto é, usinas a biomassa capazes de gerar eletricidade de forma controlável e contínua, quando necessário –, alguma capacidade térmica de base e entre 2 e 4 GWh de baterias, além de investimentos pesados em transmissão e distribuição (IRENA, 2023; BloombergNEF, 2024).

O custo estimado para tirar Cuba do ciclo crônico de apagões situa-se entre US$ 7 e 13 bilhões. Quando comparado a ciclos de investimento elétrico realizados em países ou estados de porte semelhante, esse valor não foge à ordem de grandeza observada internacionalmente (IRENA, 2023; BloombergNEF, 2024). O problema está em encontrar quem possa financiar, sob quais condições e com quais garantias. Em razão do cerco norte-americano, Cuba está fora do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial (IMF, 2023), tem acesso limitado ao sistema financeiro tradicional e depende, assim, de arranjos alternativos: acordos bilaterais, bancos regionais – como o Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) e a CAF, Banco de Desenvolvimento da América Latina – e, mais recentemente, mecanismos associados ao BRICS (BRICS, 2024).

Quando o diagnóstico técnico se torna questão internacional 

É a partir desse diagnóstico que se impõem as questões políticas e internacionais relevantes. Diante do agravamento recente das pressões econômicas e financeiras impostas pelo governo Trump, torna-se cada vez mais difícil sustentar a ideia de que a crise energética cubana possa ser tratada apenas como um problema interno ou como resultado exclusivo de escolhas nacionais. O que está em curso é uma emergência que interpela diretamente a comunidade internacional (Reuters, 2024a; Reuters, 2024b).

É preciso reconhecer que a manutenção de um bloqueio que afeta serviços essenciais – como energia, saúde e educação – coloca em xeque princípios elementares de solidariedade internacional e de proteção da população civil. No caso cubano, a crise elétrica deixou de ser apenas um indicador de fragilidade infraestrutural: tornou-se um marcador concreto de isolamento político deliberado.

O próprio governo cubano tem reconhecido publicamente o caráter estrutural e emergencial da crise elétrica, associando-a à escassez de combustível, ao envelhecimento das usinas térmicas e às severas restrições financeiras impostas pelo bloqueio, como registram comunicados oficiais da Unión Eléctrica e reportagens da imprensa local (Granma, 2024b). Ao mesmo tempo, iniciativas recentes de países latino-americanos – como a decisão do governo mexicano de manter o envio de ajuda humanitária e o apoio energético à ilha – indicam que há espaço político para respostas solidárias, ainda que limitadas, fora dos circuitos tradicionais de financiamento internacional (AP News, 2024). Por conta disso, chama a atenção que países de maior peso regional, como o Brasil, tenham se mantido, sobretudo, no plano diplomático, sem ações diretamente voltadas à urgência da crise energética cubana (Reuters, 2024a). 

E, no entanto, a solidariedade internacional não precisa assumir a forma de grandes gestos simbólicos. Ela pode – e deve – se materializar em mecanismos emergenciais, pragmáticos e tecnicamente viáveis, capazes de aliviar o sofrimento no dia a dia da população e de criar condições mínimas para a estabilização do sistema energético (ver Quadro I – O que poderia ser feito agora).

Mais do que um debate ideológico, trata-se de decidir se a comunidade internacional aceita que, em pleno século XXI, um país inteiro continue a ser submetido a uma forma prolongada de punição coletiva, cujos efeitos recaem diretamente sobre a vida cotidiana de seu povo. Em Cuba, o apagão começa muito antes da luz se apagar – e sua superação exigirá responsabilidade política para além da ilha. 

Quadro I – O que poderia ser feito agora

Sem alterar o quadro político geral, há medidas concretas e imediatas que poderiam contribuir para aliviar a crise energética cubana e reduzir seu impacto social mais severo:
– Estabelecimento de exceções humanitárias explícitas para equipamentos energéticos essenciais, incluindo transformadores, peças de reposição, baterias, sistemas de automação e softwares de controle, nos moldes das exceções já existentes – ainda que limitadas – para medicamentos.
– Criação de fundos humanitários internacionais específicos para infraestrutura energética básica, com foco em hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água e saneamento, a serem protegidos de sanções extraterritoriais e operados por agências multilaterais.
– Mobilização de bancos regionais e mecanismos de cooperação Sul-Sul, como o BCIE, a CAF e os arranjos associados ao BRICS, para financiamentos emergenciais de curto prazo voltados à manutenção e à estabilização do sistema elétrico.
– Ampliação da cooperação técnica não financeira, por meio de missões internacionais de especialistas, intercâmbio de conhecimento sobre operação de sistemas elétricos isolados, gestão de carga, redução de perdas e reconfiguração de redes com maior resiliência.
Nenhuma dessas medidas resolve, por si só, o problema estrutural. Mas todas poderiam reduzir o custo humano imediato do cerco e criar condições mínimas para que soluções de médio prazo deixem de ser permanentemente adiadas.

Bibliografia


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

China e Cuba visam aprofundar a cooperação da Iniciativa do Cinturão e Rota https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/11/cooperacao-china-cuba.html


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