Cuba e o apagão que começa fora da rede
A rede elétrica
cubana existe e é extensa, mas sua topologia reflete décadas de escassez,
adiamento de investimentos e cerco financeiro.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN
“O poder real começa quando se decide quem pode ter acesso a recursos vitais
– e quem não pode.” Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo
O cotidiano da crise cubana se manifesta de forma mais visível nos
apagões, que afetam a produção, os serviços públicos e a vida doméstica. É a
partir dessa crise elétrica – concreta, mensurável e recorrente – que se
revelam os constrangimentos econômicos, tecnológicos e geopolíticos mais amplos
que hoje cercam o país.
Costuma-se explicar essa situação como um efeito quase automático do
bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. O bloqueio é, sem dúvida, um
elemento central: restringe o acesso ao crédito, encarece as importações,
dificulta a manutenção e fragmenta as cadeias de suprimento. Quando tratada
isoladamente, essa explicação obscurece como o bloqueio atua hoje, menos como
um ato político pontual e mais como um sistema duradouro de constrangimentos
estruturais que condiciona o funcionamento do setor energético cubano. A crise
elétrica da ilha é, portanto, também – e talvez sobretudo – uma crise
geopolítica.
Crise elétrica, sistema isolado e vulnerabilidade estrutural
Para compreender essa dimensão, convém partir da escala concreta do
problema e de como ela se projeta sobre o sistema elétrico existente. Cuba
possui cerca de 110 mil km², população em torno de 11 milhões de habitantes e
consumo anual de eletricidade entre 15 e 18 TWh (IEA, 2023; IRENA, 2024),
números compatíveis com sistemas plenamente administráveis em condições normais
de financiamento e integração.
Em termos energéticos, a ilha é comparável a um estado brasileiro de
porte médio, como Pernambuco. Isso significa que não se trata de um sistema
intrinsecamente gigantesco ou tecnicamente fora de possível controle, mas de um
sistema administrável que, em condições normais de financiamento e integração,
poderia operar com maior estabilidade.
As diferenças decisivas entre Cuba e os estados brasileiros não estão na
demanda nem nas disponibilidades de sol ou de vento. Está na posição
geopolítica do sistema elétrico e no grau de isolamento em que ele opera.
Enquanto Pernambuco ou Ceará funcionam integrados ao Sistema Interligado
Nacional, podendo recorrer à energia de outras regiões em momentos críticos,
Cuba opera como uma ilha elétrica no sentido estrito do termo, sem
interconexões externas nem redes de segurança. Em sistemas isolados dessa
natureza, as falhas locais tendem a se propagar, na ausência de fontes externas
capazes de amortecer os choques ou de recompor rapidamente o fornecimento.
Essa vulnerabilidade estrutural se combina com uma matriz fortemente
dependente de usinas térmicas a óleo combustível, muitas delas antigas e pouco
eficientes. Mais de 80% da eletricidade cubana ainda depende desse modelo (IEA,
2023). Durante anos, o risco foi parcialmente amortecido pelo fornecimento
venezuelano de petróleo. Com a recente crise na Venezuela, essa âncora se
rompeu, expondo de forma mais aguda a fragilidade do sistema (Reuters, 2024a).
O que antes era uma vulnerabilidade latente passou a se manifestar como um
colapso recorrente.
A rede elétrica cubana existe e é extensa, mas sua topologia reflete
décadas de escassez, adiamento de investimentos e cerco financeiro. Organizada
em longos eixos longitudinais, com baixa redundância e subestações
envelhecidas, ela carece de uma lógica hoje considerada elementar em sistemas
isolados: a topologia em anel, que permite redirecionar fluxos e isolar falhas
sem apagar regiões inteiras (EDF, 2021). Quando essa arquitetura não existe,
decisões técnicas acumuladas ao longo do tempo passam a produzir efeitos
distributivos claros: quem fica sem energia, por quanto tempo e em quais
regiões. É nesse sentido que um problema elétrico pontual assume, na prática,
um caráter político.
Financiamento, cerco e limites da transição energética
Nada disso decorre de limitações naturais. Cuba dispõe de elevada
irradiação solar, potencial eólico costeiro relevante, além de amplo acesso à
biomassa associada à cana-de-açúcar (IRENA, 2022). Os recursos energéticos,
portanto, não estão ausentes. O que falta são as condições materiais e institucionais
para transformá-los em oferta estável de eletricidade: rede moderna, capacidade
de armazenamento e financiamento previsível – exatamente os elementos mais
afetados pelo bloqueio e pelo isolamento financeiro.
Nos últimos anos, Havana passou a reagir ao cerco econômico por meio da
diversificação de parcerias. O movimento mais visível envolve a China, que
passou a financiar e fornecer equipamentos para grandes parques solares, com a
meta de alcançar cerca de 2 GW de capacidade fotovoltaica até o fim da década
(Reuters, 2024b). Essa meta é confirmada por documentos e declarações oficiais
do governo cubano: segundo o Granma, o país planeja instalar até 2028 um total
de 92 parques solares, com capacidade combinada próxima de 2.000 MW, como parte
da estratégia de elevar a participação das fontes renováveis para cerca de 24%
da matriz elétrica antes de 2030 (Granma, 2024a).
As autoridades reconhecem, contudo, que esse esforço se desenvolve em
meio a uma situação emergencial marcada pela escassez de combustível e pela
necessidade simultânea de recuperar a geração térmica existente, o que confere
à transição em curso um caráter necessariamente híbrido. Trata-se de uma
escolha estratégica que não elimina a dependência de combustíveis fósseis no
curto prazo, mas busca reduzir a vulnerabilidade associada à importação de
energia e ampliar a margem de manobra econômica do país.
Isso não implica que fontes renováveis intermitentes, tomadas de maneira
isolada, sejam capazes de sustentar uma solução estrutural para o sistema. Em
sistemas isolados, sem armazenamento, automação e redes mais resilientes –
especialmente com a anelização em 220 kV –, a expansão solar pode apenas
deslocar o ponto de instabilidade. Por essa razão, os cenários mais realistas
para Cuba combinam fontes renováveis com biomassa despachável – isto é, usinas
a biomassa capazes de gerar eletricidade de forma controlável e contínua,
quando necessário –, alguma capacidade térmica de base e entre 2 e 4 GWh de
baterias, além de investimentos pesados em transmissão e distribuição (IRENA,
2023; BloombergNEF, 2024).
O custo estimado para tirar Cuba do ciclo crônico de apagões situa-se
entre US$ 7 e 13 bilhões. Quando comparado a ciclos de investimento elétrico
realizados em países ou estados de porte semelhante, esse valor não foge à
ordem de grandeza observada internacionalmente (IRENA, 2023; BloombergNEF,
2024). O problema está em encontrar quem possa financiar, sob quais condições e
com quais garantias. Em razão do cerco norte-americano, Cuba está fora do Fundo
Monetário Internacional e do Banco Mundial (IMF, 2023), tem acesso limitado ao
sistema financeiro tradicional e depende, assim, de arranjos alternativos:
acordos bilaterais, bancos regionais – como o Banco Centro-Americano de
Integração Econômica (BCIE) e a CAF, Banco de Desenvolvimento da América Latina
– e, mais recentemente, mecanismos associados ao BRICS (BRICS, 2024).
Quando o diagnóstico técnico se torna questão internacional
É a partir desse diagnóstico que se impõem as questões políticas e
internacionais relevantes. Diante do agravamento recente das pressões
econômicas e financeiras impostas pelo governo Trump, torna-se cada vez mais
difícil sustentar a ideia de que a crise energética cubana possa ser tratada
apenas como um problema interno ou como resultado exclusivo de escolhas
nacionais. O que está em curso é uma emergência que interpela diretamente a
comunidade internacional (Reuters, 2024a; Reuters, 2024b).
É preciso reconhecer que a manutenção de um bloqueio que afeta serviços
essenciais – como energia, saúde e educação – coloca em xeque princípios
elementares de solidariedade internacional e de proteção da população civil. No
caso cubano, a crise elétrica deixou de ser apenas um indicador de fragilidade
infraestrutural: tornou-se um marcador concreto de isolamento político
deliberado.
O próprio governo cubano tem reconhecido publicamente o caráter
estrutural e emergencial da crise elétrica, associando-a à escassez de
combustível, ao envelhecimento das usinas térmicas e às severas restrições
financeiras impostas pelo bloqueio, como registram comunicados oficiais da
Unión Eléctrica e reportagens da imprensa local (Granma, 2024b). Ao mesmo
tempo, iniciativas recentes de países latino-americanos – como a decisão do
governo mexicano de manter o envio de ajuda humanitária e o apoio energético à
ilha – indicam que há espaço político para respostas solidárias, ainda que
limitadas, fora dos circuitos tradicionais de financiamento internacional (AP
News, 2024). Por conta disso, chama a atenção que países de maior peso
regional, como o Brasil, tenham se mantido, sobretudo, no plano diplomático,
sem ações diretamente voltadas à urgência da crise energética cubana (Reuters,
2024a).
E, no entanto, a solidariedade internacional não precisa assumir a forma
de grandes gestos simbólicos. Ela pode – e deve – se materializar em mecanismos
emergenciais, pragmáticos e tecnicamente viáveis, capazes de aliviar o
sofrimento no dia a dia da população e de criar condições mínimas para a
estabilização do sistema energético (ver Quadro I – O que poderia ser feito
agora).
Mais do que um debate ideológico, trata-se de decidir se a comunidade
internacional aceita que, em pleno século XXI, um país inteiro continue a ser
submetido a uma forma prolongada de punição coletiva, cujos efeitos recaem
diretamente sobre a vida cotidiana de seu povo. Em Cuba, o apagão começa muito
antes da luz se apagar – e sua superação exigirá responsabilidade política para
além da ilha.
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Quadro I – O que poderia ser feito agora |
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Sem alterar o quadro político geral, há medidas concretas e imediatas
que poderiam contribuir para aliviar a crise energética cubana e reduzir seu
impacto social mais severo: Bibliografia
Celso Pinto de Melo – Professor Titular
Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de
Ciências. |

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