E chegou o Carnaval, em seu período oficial
Enio Lins
ESTAMOS NO CARNAVAL oficialmente dito. Começam amanhã os quatro dias,
formalmente três, mas na folhinha é tão-somente um. Feriado mesmo, de papel
passado, só o assinalado na terça-feira. E ponto. Marca o derradeiro dia antes
da Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma, pretendidos 40 dias de sacrifícios
para os cristãos, tempo programado para reflexão, penitência e oração que
deveria se estender até a Páscoa. O dia pascal exato varia anualmente, pois a
referência eclesiástica ainda é baseada nos antigos sistemas pagãos de
observações astronômicas, identificando o primeiro domingo depois da primeira
lua cheia durante o equinócio de outono. Entendeu? Não importa. A cristandade,
a rigor, não pratica nada dessas determinações ascéticas, e estica as delícias
pecaminosas do que deveria ser um único dia de “despedida da carne”.
SÁBADO DE ZÉ PEREIRA é a porta de acesso ao desmantelo. Termo
importado de Portugal. Registrado por aqui desde o século XIX. A versão
adaptada aos trópicos alimenta o mito de que teria nascido da abnegação de um
folião de origem portuguesa, chamado José Pereira, que saía pelas ruas do Rio
de Janeiro, batendo um bumbo, para anunciar a hora de começar as imoderações do
Entrudo. Zé Pereira fazia isso, reza a lenda, no sábado anterior ao início das
restrições quaresmais, antecipando – e acrescentando – três dias ao que deveria
ser um dia só. Pelo sim, pelo não, essa esbórnia é muito antiga, e vem do
além-mar.
EM ALAGOAS, como sabemos, o bumbo toca desde o final de janeiro.
São as prévias. Esfuziantes. No Carnaval oficial, a fuzarca arrefece nas ruas,
parcialmente esvaziadas das tropas foliãs, que migram temporariamente para as
mecas da devoção carnavalesca, ao Norte (Recife/Olinda) ou ao Sul (Salvador ou
Rio). Mas, como se diz, resistir é necessário. E aqui vão algumas linhas em
defesa de alguma programação mais consubstanciada para os dias carnavalescos.
Fiquemos, por ora, no caso da capital alagoana.
ME PERGUNTO se a prefeitura de Maceió não poderia investir mais, em
criatividade e recursos, entre o Sábado de Zé Pereira e a Terça-feira Gorda.
Por exemplo, não seria o caso de uma restauração (e multiplicação) do antigo
conceito da Praça Moleque Namorador? Foi algo único em seu tempo, no Brasil.
Concebido na gestão Sandoval Caju (1961/1964), o logradouro se destinava a
reunir quem, de fato, fazia o passo. O formato original era circular, para
atender ao girar da massa. Como bem lembra o folião e pesquisador Cleonilson
Alves, ali formavam-se círculos hierárquicos no frevar, girando: quanto mais
perto do epicentro – a estátua do Moleque Namorador – mais “lóca” era o/a
passista, e pernadas eram lei, às vezes sem brigas. “Lóca” (acentuo para
aproximar mais do som do vocábulo) era/&eac ute; o diminutivo para
maloqueiro e maloqueira, com o sentido de craque ou de bamba, mestre. No
derradeiro círculo, destaca Cléo, imperavam os maiorais, chamados “do contra”,
girando no sentido contrário a todos os demais. São raízes que podem, talvez,
ser revividas, aflorarem, e se transformarem em polos culturais de grande
valor.
VERA ROMARIZ, poetisa e carnavalesca, divulgou, em janeiro deste
ano, um poema intitulado Devasso Carnaval. Repasso-o ao leitorado como brinde
para a folia 2026: “Preciso tecer a memória travessa de um carnaval
imaginado. Namorados e namoradas oficiais proibidas dores de amor interrompidas
durante três intensos dias. Alianças jogadas no infinito sem bilhete de volta.
Suspensas todas as normas que afrontem a seriedade cansativa dos dias comuns.
Um carnaval sem pierrôs chorando e colombinas levemente bêbadas mergulhadas no
prazer de terem provisoriamente asas e vozes alegremente desafinadas cantando o
prazer de não serem de ninguém. Depois ao som do frevo Vassourinha a alegria
menina da infração deliciosamente louca rouca com direito a uma escrachada
revolução. Um carnaval sem santos na alegria doidinha de um frevo rasgado
alagoano para sempre um moleque namorador”.
Após o carnaval tudo pode acontecer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_29.html

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