O enterro de Brutus
O país inteiro parecia saber que havia algo apodrecido naquele edifício moral erguido em nome da pátria, da família e da honestidade.
Ceso Pinto de Melo/Jornal GGN
Amigos, compatriotas, cidadãos de bem, emprestem-me seus ouvidos.
Venho enterrar Brutus, não elogiá-lo.
O mal que os homens fazem sobrevive frequentemente a eles; o bem, muitas vezes, é enterrado com seus ossos. Que assim seja com Brutus.
Pois Brutus era um homem honrado.
E homens honrados merecem cerimônia digna, palavras graves, semblantes compungidos e editoriais respeitosos. Merecem o silêncio prudente dos antigos aliados, a cautela dos antigos admiradores e até mesmo a tristeza protocolar daqueles que ontem juravam jamais ter percebido sinais de decomposição moral no corpo agora exposto diante da praça pública
Porque Brutus era um homem honrado.
Durante anos, disseram-nos que tudo não passava de exagero. De perseguição. De narrativa. Má vontade dos inimigos. Disseram-nos que os depósitos eram coincidências, que os assessores eram leais, que as movimentações eram atípicas apenas para olhos maliciosos. Garantiram-nos que imóveis apareciam e multiplicavam-se como um fruto natural do empreendedorismo patriótico.
E Brutus era um homem honrado.
Houve quem estranhasse a extraordinária capacidade financeira daquele círculo familiar. Quem perguntasse, ainda timidamente, como salários modestos produziam patrimônios tão vigorosos. Houve quem observasse a curiosa circulação de dinheiro vivo, essa relíquia econômica preservada com tanto carinho em plena era digital.
Mas homens honrados certamente possuem hábitos financeiros incompreendidos pelas pessoas comuns.
Também surgiram amizades inconvenientes, vizinhanças desconfortáveis, fotografias embaraçosas, homenagens oficiais concedidas a personagens que pareciam frequentar em demasiado as páginas policiais. Nada conclusivo, asseguravam-nos. Nada definitivo. Apenas coincidências tropicais sob o calor excessivo da política brasileira.
E Brutus era um homem honrado.
A cada nova revelação, porém, tornava-se necessário ampliar um pouco mais o esforço coletivo de fingimento. Jornalistas precisavam olhar para o lado. Aliados precisavam subitamente perder a memória. Patriotas inflamados precisavam explicar que rachaduras morais eram, na verdade, demonstrações de autenticidade popular. Afinal, homens simples movimentam dinheiro de maneira simples.
E Brutus era um homem honrado.
Talvez o mais extraordinário nessa longa cerimônia não tenha sido o segredo, mas justamente o fato de jamais ter sido segredo algum. O país inteiro parecia saber – ainda que discretamente, ainda que entre dentes – que havia algo profundamente apodrecido naquele edifício moral erguido em nome da pátria, da família e da honestidade.
Mas ninguém desejava ser o primeiro a notar o odor.
Porque Brutus era um homem honrado.
Havia sempre uma nova desculpa. Uma nova cortina de fumaça. Um novo inimigo interno. Um novo escândalo capaz de deslocar a atenção pública. Enquanto isso, a honorabilidade permanecia cuidadosamente embalsamada diante das câmeras, envolta em bandeiras, versículos bíblicos e discursos contra a corrupção.
Nem faltaram aspirantes a Mecenas dispostos a financiar futuras hagiografias audiovisuais da dinastia, numa curiosa tentativa de substituir julgamento histórico por direção de arte.
Mas homens honrados sempre atraem patrocinadores igualmente desinteressados.
Poucas coisas são mais resistentes no Brasil do que um cadáver político sustentado por conveniência.
E Brutus era um homem honrado.
Até que chega o momento em que até mesmo os carregadores do caixão começam discretamente a soltar as alças.
Então surgem os vazamentos definitivos, os antigos aliados silenciosos, os abandonos cautelosos, os editoriais tardios e as súbitas descobertas morais de quem passou anos contemplando o abismo com admirável serenidade institucional.
Subitamente, todos parecem perplexos.
Perplexos com aquilo que sempre souberam.
Porque Brutus era um homem honrado.
O funeral de que falamos aqui não é o de um corpo, mas o de uma reputação política que durante muito tempo se pretendeu intocável. O que talvez esteja sendo sepultado diante de nós é algo mais profundo: a velha encenação nacional segundo a qual determinados personagens seriam moralmente inalcançáveis apenas porque vestem a fantasia correta, frequentam os altares adequados e gritam os slogans esperados.
Toda farsa política depende menos da mentira em si do que do pacto coletivo de fingir acreditar nela.
E Brutus era um homem honrado.
Talvez, por isso, o funeral produza tamanho desconforto. Não porque o segredo tenha finalmente vindo à luz, mas porque a luz tornou impossível continuar a fingir escuridão.
Mesmo agora, haverá quem peça cautela. Recomende prudência. Quem explique que não convém exagerar. Afinal, dizem, a política é dura, os tempos são polarizados, e as acusações podem ser injustas.
Certamente.
Mas, ainda assim, resta a pergunta que ecoa sobre este enterro: quantas evidências são necessárias para que um segredo de Polichinelo deixe de ser tratado como mera suspeita?
Talvez nunca saibamos.
Pois Brutus era um homem honrado.
Toda República produz seus Brutus. Mudam apenas os uniformes, os slogans e os idiomas do Império.
Em Roma, chamavam-no Brutus.
Nos trópicos, às vezes atende por Flavius.
Honrado, naturalmente.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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