O próximo ciclo do planejamento brasileiro
A era digital impõe
ao Estado a capacidade de integrar dados dispersos e construir inteligência
preditiva, de modo que políticas públicas sejam desenhadas sobre o futuro
possível, não sobre o passado consolidado
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda
1.
Durante grande parte
do século XX, governar significava, em larga medida, administrar uma realidade
já acontecida. O Estado observava a população, a economia, o território e as
condições sociais por meio de censos e pesquisas amostrais periódicas e, a partir
desse retrato, formulava políticas públicas com base no presente do passado.
Esse modelo, que foi decisivo para a construção do Estado moderno, dependia da
produção oficial contínua de informações, associada aos institutos nacionais de
estatística e geografia, originários da transição das sociedades agrárias para
as sociedades urbanas e industriais.
Mas o mundo mudou, e
a velocidade das transformações tornou insuficiente o Estado que apenas
descreve o presente do passado. Isso já havia sido percebido anteriormente na
experiência de mudança social do tempo, cuja temporalidade lenta, associada aos
ciclos da natureza, às atividades produtivas e aos ritmos da vida cotidiana
pertencia à sociedade agrária. Uma realidade identificada por Gilberto Freyre
em Ordem e progresso.
Com a passagem para a
sociedade urbana e industrial, a temporalidade se modificou pela substituição
progressiva do trabalho orientado por tarefas pelo disciplinado no relógio.
Edward Thompson em Time, work-discipline, and industrial capitalism demonstrou
como o tempo se tornou mensurável, fracionado e submetido às exigências da
fábrica, produtividade e jornada de trabalho.
Na atual sociedade de
serviços hiperconectada da era digital nota-se nova inflexão marcada pela
aceleração simultaneamente tecnológica, social e do ritmo de vida. Diante de
intervalos cada vez menores de tempo imposto no transporte, comunicações,
instituições, relações e conhecimentos, conforme Hartmut Rosa em Social
acceleration: a new theory of modernity observou o tempo da
instantaneidade presente na sociedade digital.
O Brasil encontra-se
atualmente diante da inédita transformação que combina mudança no perfil
epidemiológico, inflexão demográfica, emergência climática e deslocamento do
dinamismo econômico dos centros econômicos tradicionais para a nova sociedade
de serviços hiperconectada da era digital interiorizada. Para além da produção
de mais dados, a necessidade de reorganizá-la para o conhecimento sobre o
futuro possível com o Estado reconfigurado para agir antes que o problema
aconteça.
Não mais com base exclusiva no presente do passado, sobretudo atuando sobre as consequências do que já aconteceu. O Estado necessário para a era digital pressupõe agir sobre o fato gerador com base no presente do futuro dos acontecimentos. A própria transição epidemiológica, por exemplo, sinaliza a ruptura em curso, pois doenças infecciosas e problemas associados à pobreza continuam presentes e ainda convivendo em menor escala coma a expansão das doenças crônicas não transmissíveis, envelhecimento acelerado, transtornos relacionados às novas condições de vida e os impactos ambientais sobre a saúde.
2.
Enquanto a
Organização Mundial da Saúde estima que as doenças não transmissíveis já
respondam por cerca de três quartos das mortes não relacionadas a pandemias no
mundo, o IBGE torna pública duas pesquisas inéditas e marcantes sobre a nova
realidade brasileira. Por meio da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024
no Rio Grande do Sul (PEERS), a revelação do quadro de saúde mental abalada,
pois 67,5% dos entrevistados nas áreas atingidas pelas enchentes afirmaram ter
perturbações psicológicas e comprometimento da saúde física, além de sérias
dificuldades para conseguir acesso adequado aos serviços de saúde após o
desastre climático.
Na Pesquisa Nacional
de Saúde do Escolar, o IBGE identificou um panorama preocupante sobre a saúde
física e mental dos adolescentes, cuja faixa etária de 13 a 17 anos registra
aumento da tristeza e da ideação suicida, ao mesmo tempo em que troca o consumo
precoce de álcool pela rápida adesão aos cigarros eletrônicos.
Isso deveria
modificar completamente a lógica das políticas públicas. Um sistema de saúde
concebido essencialmente para atender à doença depois de instalada torna-se
progressivamente mais caro e menos eficiente. A política pública do futuro deve
combinar prevenção, monitoramento de riscos, inteligência territorial e
acompanhamento contínuo das populações.
A mesma ruptura
ocorre na demografia. O Brasil poderia rever suas políticas públicas supondo a
população jovem, crescente e concentrada nos grandes centros urbanos. A
fecundidade caiu, a expectativa de vida aumentou e o envelhecimento tornou-se
estrutural. A Organização das Nações Unidas identifica o crescimento
populacional, o envelhecimento, a urbanização e a migração internacional como
grandes forças de transformação do século XXI.
A inflexão
demográfica, conforme demonstrado pelo 12º. Censo Demográfico e pelas
estimativas e projeções populacionais do IBGE, pressupõe que algo ainda mais
profundo ocorra, como a adoção de políticas públicas preditivas, direcionadas à
população projetada. Ou seja, a antecipação de onde nascerão menos crianças,
onde crescerá a população idosa, onde haverá escassez de trabalhadores, onde
será necessário ampliar os serviços de cuidados, onde escolas poderão perder
demanda e onde hospitais, transportes e equipamentos urbanos terão de ser
reorganizados e reposicionados.
Da mesma forma, a emergência climática acrescenta uma variável que atravessa todas as demais. Eventos extremos não são mais acontecimentos excepcionais que podem ser tratados apenas como emergências. Secas, enchentes, ondas de calor, incêndios, deslizamentos e alterações na produção agrícola afetam simultaneamente saúde, habitação, mobilidade, energia, alimentação, emprego e migração. A própria OMS passou a tratar clima, saúde, migração e deslocamento como dimensões interligadas de uma mesma agenda.
3.
No caso brasileiro,
percebe-se como o território também está mudando. A economia já não pode ser
compreendida apenas pela velha oposição entre metrópole industrial e interior
agrícola. Novas atividades de serviços, logística, comércio, saúde, educação,
tecnologia, turismo, administração e economia digital espalham-se pelo
território em direção ao oeste. O interior deixa de ser apenas fornecedor de
matérias-primas, abrigando novos polos de serviços e produção.
Essa transformação
territorial exige esforços geocientíficos e estatísticas oficiais adicionais,
capazes de acompanhar fluxos, não somente estoques. Onde as pessoas trabalham?
Onde estudam? Onde buscam atendimento médico? Para onde se deslocam
diariamente? Onde consomem? Onde estão as novas ocupações que se deslocam dos
estabelecimentos para os domicílios? Quais municípios estão crescendo e quais
estão perdendo população? Onde os efeitos climáticos produzirão deslocamentos?
A marcha da nova
sociedade de serviços hiperconectada. Em 2025, por exemplo, 90,5% das pessoas
de 10 anos ou mais no Brasil utilizaram a internet, enquanto 95% dos domicílios
tinham acesso à rede. O cidadão digital produz rastros, movimentos, demandas e
informações em velocidade inédita. Isso abre uma possibilidade extraordinária
para o Estado transformar dados dispersos e provenientes de múltiplas fontes em
capacidade de antecipação, por meio da integração, da interoperabilidade e do
pareamento. Trata-se da passagem da estatística descritiva para a inteligência
estatística preditiva, com o uso da Ciência de dados e da Inteligência
artificial.
Não significa
substituir as estatísticas oficiais por dados privados ou algoritmos. Ao
contrário, trata-se de fortalecer o Estado reconfigurado para que possa
integrar registros administrativos, censos, pesquisas amostrais, imagens de
satélite, informações ambientais, dados territoriais e novas fontes digitais,
sempre com proteção da privacidade, transparência metodológica e soberania
nacional.
A inteligência
artificial pode ser decisiva nesse processo. Mas uma Inteligência artificial
sem estatística pública de qualidade apenas reproduzirá desigualdades, vieses e
assimetrias existentes. O desafio não é entregar a administração pública aos
algoritmos, mas dotar o Estado de capacidade própria para produzir, auditar e
utilizar inteligência sobre a sociedade.
Isso significa passar do Estado reativo para o Estado preditivo, que utiliza evidências para identificar tendências, construir cenários, calcular riscos e antecipar decisões. Se uma determinada região envelhecer rapidamente, a política de cuidados deve ser planejada antes da explosão da demanda. Se determinado território estiver sujeito a eventos climáticos extremos, a infraestrutura precisa ser adaptada antes da tragédia. Se uma cidade perder crianças e jovens, sua rede educacional e urbana precisa ser redesenhada antes da ociosidade dos equipamentos. Se novas centralidades econômicas surgirem no interior, investimentos em conectividade, transporte e qualificação devem acompanhá-las.
4.
A geociências e a
estatística oficial precisam, portanto, dar um salto histórico: da condição de
retrato para a de radar. O próprio IBGE vem trabalhando nessa direção ao
incorporar mudanças climáticas, digitalização, novas fontes de dados e
projeções demográficas ao planejamento democrático, transparente e
participativo. Exemplo disso é o Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas
e Dados (SINGED) que parte da produção de novas informações que permitem apoiar
decisões diante das transições tecnológicas, das mudanças climáticas, das
transformações demográficas e dos riscos de novas pandemias.
A questão é maior do
que a recuperação e modernização de uma instituição que passou pode tempo
difíceis entre 2016 e 2022, com cinco presidentes em sete anos. Esta em curso a
construção de uma nova arquitetura do Estado brasileiro que supere o velho Estado
organizado em “caixinhas” (saúde, educação, trabalho, economia, agricultura,
meio ambiente e habitação). A percepção e ação totalizante da realidade por
parte do Estado não funciona mais estritamente em “caixinhas” especializadas.
Uma onda de calor,
por exemplo, pode aumentar as doenças respiratórias, reduzir a produtividade,
elevar a demanda por energia, afetar a agricultura e provocar deslocamentos
populacionais simultaneamente. O el niño aponta nessa
perspectiva, o que levou ao IBGE implementar o Singed Lab Desastres co o
intuito de capacitar e preparar os gestores públicos e privados para prevenir,
mitigar e responder a desastres ambientais e eventos climáticos extremos no
Brasil.
O futuro exige
políticas públicas capazes de enxergar todas as conexões possíveis. O próximo
ciclo do planejamento brasileiro deve incorporar gêmeos digitais do território
e da sociedade, sistemas de alerta precoce, projeções demográficas
territorializadas, mapas de vulnerabilidade climática, modelos epidemiológicos,
inteligência econômica regional e indicadores de bem-estar. Não para substituir
a decisão política, mas para melhor qualificá-la.
O maior risco para o
Brasil não é não possuir dados. É possuir dados sobre o passado quando o futuro
já começou. A sociedade agrária exigiu do Estado a capacidade de contar, ao
passo que a sociedade urbana e industrial exigiu capacidade de medir e
acompanhar a evolução. A nova sociedade de serviços hiperconectada da era
digital exige capacidade de antecipar.
Esse talvez seja o
grande desafio dos próximos anos: construir um Estado que não espere a enchente
para reconstruir, a doença para tratar, o envelhecimento para cuidar, o
desemprego para qualificar, o esvaziamento de um município para agir ou a crise
para formular políticas.
Governar o século XXI
será cada vez menos administrar consequências e cada vez mais construir, com
evidências, a realidade que queremos alcançar. O futuro não deve ser apenas
projetado. Deve ser conhecido antes de acontecer para que a sociedade possa,
democraticamente, escolher o futuro que deseja.
*Marcio
Pochmann, professor titular de economia
na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a
governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da
Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]
Atenção ao conteúdo programático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_02003961006.html

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