09 setembro 2026

Abraham Sicsu opina

Utilitarismo corrói a Sociedade
Abraham B. Sicsu  

Não fico surpreso, é comum encontrar quem assim pensa, é triste constatar diretamente, escutar em alta voz. No meio intelectual e acadêmico proliferar é uma contradição. Infelizmente há quem acredite nisso e não se envergonham mais de dizer. As críticas ao funcionalismo público e, principalmente, à Universidade Pública, são constantes.

Um dos pontos mais abordados é a lógica das prioridades nos gastos governamentais. A priorização que se dá ao pagamento de salários do funcionalismo, o qual não pode atrasar, é ponto que não é aceito pelos que acreditam que o Estado deve estar a serviço dos interesses empresariais.

Dizem, “tudo pode ser postergado em termos de gastos públicos menos os salários do funcionalismo”.  Com isso, a sociedade, na opinião deles, perde, pois se adiam investimentos que podem gerar emprego e renda. Podem ser mais importantes.

Acho estranho que possa ser questionado o pagamento mensal que dá um mínimo de estabilidade financeira a uma classe tão sacrificada. Classe que muitas vezes tem dificuldades de sobrevivência e de manter os seus.

Se questionassem o funcionalismo que tem privilégios, ou mesmo, aqueles apaniguados de alguns governos, até poderia admitir, mas, questionar um direito que é básico para todo trabalhador, fundamental para a sobrevivência dos que trabalham e suas família, um contrassenso.

Ligando a isso, no caso das Universidades, fazem uma dura crítica aos profissionais que têm Dedicação Exclusiva. Deveria ser eliminada, assim pensam. Na opinião deles, boa parte não faz jus e não se dedicam às suas atividades. Defendem que deveriam ser remunerados pelo que produzissem, pelo que efetivamente entregassem à sociedade, ou melhor, a quem é detentor do direcionamento da dinâmica econômica.

Como em toda profissão, há aqueles que a desonram, não nego. Mas tirar as bases mínimas necessárias para o desenvolvimento do ensino, pesquisa e extensão jamais será a solução. Criar um sistema mais eficiente de avaliação e mesmo de controles mais efetivos podem dar resultados eficientes e evitar distorções dos maus profissionais.

A partir dessa afirmação deixam evidente que têm em mente que os pesquisadores e professores universitários deveriam estar a serviço do setor produtivo, deveriam ser pagos conforme os recursos que gerassem para as empresas. Serem instrumentos de ajudar a lucratividade e o fortalecimento do desenvolvimento capitalista.

Não entendem que a Universidade é a única instituição que pode gerar conhecimento sem atrelamento a interesses imediatos e onde se pode questionar a sociedade em que se vive sem necessariamente estar a serviço do imediatismo que direciona as lógicas de poder, inclusive econômico. Que pode ser o espaço de construir o futuro e seus caminhos, de debatê-los e mesmo de contrariar interesses dominantes. Onde se tem direito a discordar e fundamentar visões alternativas.

Ainda, perdem a noção do que é a Universidade, da multiplicidade de áreas, da importância de construir a cidadania, de formar as elites pensantes de um povo, de mostrar valores fundamentais que não são percebidos no dia a dia da frenética busca por lucro e poder.

A lógica dos críticos tresloucados se prende a uma concepção em que o tecnológico e o econômico deveriam ter primazia e o enfoque a ser dado institucionalmente ligado aos retornos de curto prazo.

Essa visão pode destruir a base social e moral da nação, seu utilitarismo leva a que se enfraqueça a cidadania, a que se percam valores que são definidores de uma ética norteadora para uma sociedade um pouco mais sadia e justa.

Para angariar simpatia dos estudantes procuram mostrar que os que se engajam nessa visão da tal lucratividade terão garantia de empregabilidade e, portanto, devem-se menosprezar áreas que não estão nessa lógica inseridas. Discurso que pode até ser percebido em períodos de crescimento econômico.

Esquecem que a economia é cíclica, que nos períodos de crescimento há aumento da demanda e de emprego. Mas, há também períodos de recessão. Nesses, uma grande parte dos trabalhadores têm seus salários aviltados e um nível de desemprego crescente é observado. Basta ver o nível alarmante de desemprego que tivemos no período de 2016 a 2022, onde, mesmo os profissionais mais qualificados da área tecnológica tiveram dificuldades de inserção no mercado de trabalho

Essa fala me fez lembrar um rico empresário brasileiro. Financiou muitas missões de formadores de opinião e de políticos para os Estados Unidos da América. O objetivo era tentar provar que nosso Sistema Educacional estava errado. Segundo seu pensamento, deveria ser dada maior ênfase aos conteúdos às Línguas Estrangeiras, Matemáticas e Matérias Específicas de Caráter Operacional e, se possível, eliminar essas “bobagens” de Filosofia, Sociologia, História, entre outros.

Visões como essas, em que a Cultura Geral é menosprezada, em que o norte é dado principalmente pelo retorno econômico, diminuem o senso crítico, apequenam a cidadania, embrutecem a sociedade, destroem as bases de uma nação que possa definir seus rumos de uma maneira autônoma e soberana.

Infelizmente, esses pensamentos proliferam sendo à base do obscurantismo mais profundo. O imediatismo utilitário tem aceitação crescente e é entusiasticamente defendido por segmentos conservadores da sociedade. Pior, fundamenta um projeto que vem se consolidando politicamente e surge como proposta de planos atuais para os próximos anos dos extremados de pensamento de direita.

Não é coincidência ver proporem a retirada das Universidades da esfera da educação para levá-las para o que chamam de inovação, ou seja, para o simples retorno econômico financeiro como parâmetro.

Luciana Santos: "Infovias: Ciência e Tecnologia a serviço da inclusão e da soberania nacional" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-luciana.html 

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