29 novembro 2025

Postei nas redes

Dois grande times brasileiros, Palmeiras e Flamengo, disputam a final da Libertadores da América. Supremacia do nosso futebol? Nem tanto. Pelos seus elencos, ambos são verdadeiros selecionados sul-americanos. 

Leia: Futebol: nem tudo é previsível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/futebol-nem-tudo-e-previsivel.html 

Algoritmos decidem atirar

Armas autônomas: a banalidade do mal digital
Sob a aparência de neutralidade e eficiência, e a partir de missões militares, algoritmos tomam decisões letais. Quem será responsável por seus assassinatos? Lógica remete ao julgamento do nazista Adolf Eichmann – e debate internacional precisa considerar banir tecnologia de guerra
Lauro Accioly Filho
, no The Conversation/Outras Palavras  

A crescente naturalização da automatização tecnológica revela um paradoxo perturbador. Pesquisadores da Science and Technology Studies (jornal oficial da Associação Europeia para o Estudo da Ciência e Tecnologia) alertam para a aparente autonomia e neutralidade atribuída aos artefatos tecnológicos, tecendo uma reflexão crítica sobre o que, de fato, significa “autonomia” nas máquinas.

Ao deslocar decisões humanas para sistemas algorítmicos sob a aparência de neutralidade e eficiência, a tecnologia cria uma zona de conforto moral em que os programadores e desenvolvedores são progressivamente eximidos de responsabilidade pelos resultados de suas próprias criações.

A ausência de reflexão ética diante dessa questão remete diretamente à percepção aguda de Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, sobre a banalidade do mal, segundo a qual os atos mais devastadores podem ser cometidos por indivíduos comuns. Ao abdicar do pensamento crítico, estes tornam-se engrenagens de sistemas que operam sem questionamento moral.

No campo da inteligência artificial (IA) e dos sistemas autônomos, a obediência cega é transferida ao código, à crença de que lógica algorítmica decide melhor porque o faz “sem emoção”. Assim, a automatização não apenas executa ordens, mas naturaliza o afastamento entre ação e responsabilidade, configurando o que podemos chamar de uma banalidade do mal digital.

Debate limitado nas Nações Unidas

O debate sobre armas autônomas vem crescendo na Organização das Nações Unidas (ONU), mas continua incipiente e preocupante. Apesar do avanço das discussões multilaterais, a maioria das formulações se limita a questões operacionais e de regulação, sem questionar a racionalidade que sustenta a própria ideia de “autonomia” nas máquinas. Ao que tudo indica,

Essa racionalidade naturaliza a substituição da decisão humana pela eficiência algorítmica, eximindo de responsabilidade toda a cadeia envolvida na concepção, no treinamento e na implementação desses sistemas. Assim, a ONU discute os efeitos, mas raramente aborda as causas estruturais, como se por omissão estivesse valiando o discurso de neutralidade tecnológica que torna invisíveis os agentes humanos por trás da escolha dos algoritmos das novas armas de guerra.

Os riscos éticos e discriminatórios na maneira como se está lidando com as tecnologias autônomas, especialmente as da guerra, são profundos. Algoritmos alimentados por bases de dados enviesadas podem reproduzir e amplificar desigualdades sociais, comprometendo o princípio da distinção, essencial para a proteção de civis.

Um grupo de especialistas da ONU alertou que critérios de decisão automatizada podem ser influenciados por fatores como gênero, idade ou raça, transformando erros técnicos em injustiças humanitárias e falhas algorítmicas em novas formas de violência sistêmica.

Neste aspecto, a campanha Stop Killer Robots desempenha um papel fundamental ao mobilizar governos e organizações da sociedade civil pelo banimento das armas autônomas ao redor do mundo. Voltada a aspectos jurídicos e normativos, busca criar um acordo internacional que regule ou proíba o uso de armas autônomas letais, especialmente aquelas capazes de tirar vidas humanas sem supervisão direta.

O problema é que essa abordagem não questiona o ponto central que sustenta o desenvolvimento dessas tecnologias: a crença de que a autonomia algorítmica é sinônimo de objetividade e eficiência. Sem enfrentar esse pressuposto ou seja, as bases epistêmicas e políticas dessa lógica, o movimento corre o risco de reforçar dissociação entre as criação e produção de uma tecnologia, a responsabilidade e a moralidade.

Decisão mais justa para quem?

Como alerta Silvana Bahia em [Pode um robô ser racista?], a tecnologia é sempre uma expressão da experiência e da visão de mundo de quem a cria. A crença em sua neutralidade mascara o fato de que cada escolha técnica carrega decisões políticas, éticas e culturais. Essa crítica é evidente nas tecnologias de reconhecimento facial (TRFs), cujos algoritmos reproduzem vieses raciais e de gênero já presentes na sociedade. Os bancos de dados que alimentam essas ferramentas refletem essas desigualdades e produzem uma vigilância seletiva, na qual certos corpos são considerados mais “suspeitos” que outros.

O estudo Gender Shades: Intersectional Accuracy Disparities in Commercial Gender Classification, conduzido por Joy Buolamwini e Timnit Gebru, mostrou como sistemas de reconhecimento facial de grandes corporações apresentavam taxas elevadas de erro na identificação de rostos de mulheres negras. Se tecnologias incapazes de identificar rostos com precisão já produzem exclusões e injustiças, delegar a elas decisões sobre vida e morte representa um risco ético e humanitário extremo.

As análises de Tarcízio Silva, em Racismo Algorítmico, e de Ruha Benjamin, em Race After Technology, também ajudam a compreender como os processos invisíveis da automação naturalizam a perpetuação de problemas sociais estruturais sob um selo de desafio de acurácia técnica. Isso leva a uma questão ética inevitável sobre quais dados alimentam os sistemas autônomos. Sobretudo, é aceitável que dados concebidos para aplicações civis sejam reutilizados para a tomada de decisões algorítmicas letais?

Quando essa lógica chega ao campo militar, a consequência é ainda mais grave, assumindo a forma de automação da morte. Aqui, é possível perceber um eco direto da análise de Achille Mbembe sobre a necropolítica, na qual o poder de decidir quem vive e quem morre é transferido a dispositivos técnicos, sem qualquer mediação ética.

Ao se eximirem da responsabilidade moral e atribuírem à máquina o poder de decidir sobre a vida e a morte, os fabricantes de armas autônomas reproduzem a mesma lógica de obediência sem pensamento que Hannah Arendt denunciou em Adolf Eichmann. Ele, o burocrata nazista que, entre 1941 e 1945, organizou a deportação em massa de judeus para campos de extermínio e que, ao ser julgado em 1961, alegava apenas “cumprir ordens”.

A autoridade agora não é o Estado totalitário, mas o algoritmo: uma nova forma de poder que legitima o afastamento entre ação e consciência. Assim, na tentativa de “aperfeiçoar” a guerra, a humanidade aperfeiçoa apenas sua capacidade de dissociar a violência da responsabilidade, transformando a morte em mero cálculo técnico e o mal em operação banal.

[Qual a sua opinião?]

Leia também Colonialismo digital: a nova fronteira da dependência latino-americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-desafio-da-autonomia-tecnologica.html 

Palavra de poeta

Imagem
Cecília Meireles  

Meu coração tombou na vida
tal qual uma estrela ferida
pela flecha de um caçador.

Meu coração, feito de chama,
em lugar de sangue, derrama
um longo rio de esplendor.

Os caminhos do mundo, agora,
ficam semeados de aurora,
não sei o que germinarão.

Não sei que dias singulares
cobrirão as terras e os mares,
nascidos do meu coração.

[Ilustração: Amedeo Modigliani]

Leia também um poema de Federico García Lorca https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta.html

Boa notícia

Desemprego cai para 5,4% e atinge menor taxa da série histórica
No trimestre fechado em outubro, a taxa foi 5,4%, recuo de 0,2 p.p. sobre o anterior. No ano, a população desempregada caiu 11,8%. Já a massa de rendimentos cresceu 5% em 2025
Priscila Lobregatte/Vermelho    

A nova Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, reforça a trajetória de queda consistente do índice de desemprego no Brasil, que ficou em 5,4% no trimestre móvel encerrado em outubro. Trata-se, mais uma vez, da menor taxa da série histórica, que teve início em 2012. Já a massa de rendimentos dos trabalhadores cresceu 5% no ano.

Divulgado nesta sexta-feira (28), o levantamento aponta que o índice de desemprego recuou 0,2 ponto percentual (p.p) na comparação com o trimestre de maio a junho, quando ficou em 5,6%. Considerando-se o mesmo período do ano passado (trimestre encerrado em outubro), quando estava em 6,2%, a queda foi ainda maior, de 0,7 p.p.

Com essa dinâmica, a população desempregada ficou em 5,9 milhões, recuando 3,4% (ou menos 207 mil pessoas) no trimestre e caindo 11,8% (menos 788 mil pessoas) no ano. A população ocupada (102,6 milhões) ficou estável no trimestre e cresceu mais 926 mil pessoas no ano.

“O elevado contingente de pessoas ocupadas nos últimos trimestres contribui para a redução da pressão por busca por ocupação e, como resultado, a taxa de desocupação segue em redução, alcançando nesse trimestre o menor valor da série histórica”, explica Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE.

De acordo com o IBGE, a subutilização se manteve em 13,9%. Essa categoria engloba as pessoas subocupadas por insuficiência de horas (que trabalham menos do que gostariam), as desocupadas (que estão sem trabalho, procurando e disponíveis) e a força de trabalho potencial (que não procura, mas estaria disponível para trabalhar).

Nesse universo, os avanços também foram importantes: os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas recuaram para 4,572 milhões, o menor contingente desde o trimestre encerrado em abril de 2016.

Já a força de trabalho potencial recuou para 5,2 milhões, menor patamar desde o trimestre encerrado em dezembro de 2015. “Durante a pandemia, no trimestre de maio a julho de 2020, esse indicador havia chegado ao seu auge: 13,8 milhões. Já a população desalentada chegou em 2,647 milhões, depois de ter atingido seu maior valor (5,829 milhões) no trimestre de janeiro a março de 2021”, aponta o IBGE.

Os setores que mais contribuíram para esse resultado foram o de construção (2,6%, ou mais 192 mil pessoas) e administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (1,3%, ou mais 252 mil pessoas). Por outro lado, no grupo formado por outros serviços, foi registrada redução (2,8%, ou menos 156 mil pessoas).

Recorde nos rendimentos

Outro recorde batido diz respeito à massa de rendimento médio real — a soma de todos os ganhos brutos recebidos por todas as pessoas ocupadas em um determinado período, corrigida pela inflação. No trimestre fechado em outubro, o valor total foi de R$ 357,3 bilhões, registrando estabilidade no trimestre e alta de 5% (mais R$ 16,9 bilhões) no ano.

Com isso, o rendimento médio real habitual dos trabalhadores também foi recorde, ficando estatisticamente estável no trimestre e crescendo 3,9% no ano. “A manutenção do elevado contingente de trabalhadores, associado à estabilidade do rendimento, permite os valores recordes da massa de rendimento”, analisa Adriana.

Nesse quesito, na comparação trimestral, a categoria informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas teve aumento de 3,9%, ou mais R$ 190. Os demais grupamentos não apresentaram variação significativa.

Quando a comparação é feita em relação ao trimestre de agosto a outubro de 2024, as categorias que registraram maior aumento foram agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (6,2%, ou mais R$ 129), construção (5,4%, ou mais R$ 143) e alojamento e alimentação (5,7%, ou mais R$ 126).

Informalidade

No que diz respeito à informalidade, a taxa foi de 37,8% da população ocupada no trimestre encerrado em outubro. Isso equivale a 38,7 milhões de trabalhadores informais, mesmo percentual do trimestre móvel anterior. No entanto, esta taxa ficou abaixo dos 38,9% (ou 40,3 milhões de trabalhadores informais) ante o trimestre encerrado em outubro de 2024.

De acordo com o IBGE, “o número de empregados do setor privado com carteira de trabalho assinada manteve o recorde, chegando aos 39,182 milhões e mostrando estabilidade no trimestre. Na comparação anual, esse contingente cresceu 2,4% (mais 927 mil pessoas). Já o número de empregados no setor público (12,9 milhões) ficou estável no trimestre e subiu 2,4% (mais 298 mil pessoas) no ano”.

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Leia também: Pobreza e desigualdade caem ao menor nível em três décadas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/boa-noticia_25.html

Fotografia

 

Leopoldo Plentz

Leia um poema de Paulo Leminski https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/palavra-de-poeta_21.html

Um conto de Marco Albertim

Mulher do detento
Marco Albertim  

Não se perdeu no vento o relato de Janine. Ela aproveitou o sopro vindo do sudeste, sentou-se no calçadão do armazém na beira do cais, convicta de que a surragem no morim do vestido, tinha tudo a ver com o reboco estropiado das paredes do armazém. O amarelo sem cor das paredes, nem com o apuro dos olhos seria restabelecido; só a memória do que fora restituía a elegância sem brilho da ponte giratória no cais de Santa Rita. 

Do mesmo modo, os desenhos de flores sumidos do morim sem cor do vestido de Janine, a custo davam vida ao desassossego moreno de suas carnes, quando entrevira a chance de se ver livre da incômoda virgindade. 

O vento encobriu o choro sem agonia nos seus olhos miúdos; pressionou-os para as entranhas da memória, onde afoiteza nenhuma tinha o direito de fazer pouco do que, por opção própria, juntara sem sustos para não perder o culto da vida em grupo. Ninguém, nem mesmo a coragem fria dos detentos do pavilhão C.

Com as flores luzidias no morim então novo, ela saiu da cela onde confabulara com Babão. Pôs o dinheiro acima do bico do peito, entre a carne tenra e a almofada do sutiã. Dois carcereiros, um em cada pavilhão, abriram a cela do respectivo corredor. No primeiro, do C, o homem de feição tão amarela quanto a de cada detento, só olhou-a nos olhos, evitando adivinhar os contornos do corpo baixo, inda que torneado, mas familiar à inquietação dos dedos de Babão. No segundo, vizinho ao pátio àquela hora vazio, outro carcereiro tinha a mesma feição.

No corredor entre as celas de um lado e de outro, os presos enxergaram as ondulações do corpo de Janine; nenhum teve coragem de acoitar a esperança de, com a pena reduzida, estender-lhe o incerto e tão cotado pano, proteção que todo preso miúdo ou parente busca para não sofrer embaraço de bandido sem código de honra, ou mesmo de polícia sem lugar no catre. 

No portão de saída, antes de cruzá-lo, foi conduzida por policiais femininas a uma sala. Havia quatro, duas trancaram-se com Janine para a revista de rotina. A mais velha, com uma infusão de rigor e lascívia nos olhos, apalpou-a nos peitos. A minúcia dos dedos fez o rastejo de baixo para cima, para precisar a redondez lobular dos seios. O contato da sequidão da mão da mulher na maciez dura dos seios de Janine, ela o ignorou com os olhos fixos na imprecisão dos próximos passos de sua vida.

A outra, também urdindo bulício nas mãos e autoridade na fronte, apalpou-a sob a parte de baixo do morim nada encardido. Enxergou, com lubricidade nos olhos sob as pálpebras pesadas, um chip de celular. A mais velha fez-lhe um gesto, descendo de cada um dos cantos da boca, o indicador e o dedo polegar. O ricto da advertência incensou a sala com o espectro de Babão. A cédula de cem reais fora tateada pela guarda mais velha; sabia de onde viera o dinheiro e inquiriu-a para compor o ritual da revista.

- É para comprar as carnes – respondera Janine, não a modo de retruque, mas para acrescentar à fita.

...

- Alcatra. Dois quilos.

O açougueiro reiterou nos olhos a mesma cumplicidade dos carcereiros; sem atentar para os contornos do corpo de Janine, espreitou-a como a uma freguesa de paga sem vexame, com dinheiro vindo das entranhas do tráfico. Por conveniência, não quis saber o seu nome, nunca quisera. Devolveu-lhe o troco com a mesma minúcia de gesto de quando Janine bacorejara a bufunfa do sutiã.

De volta ao presídio, entrou na sala para submeter-se à encenação; agora com fastio nas mãos e preguiça nos olhos. As polícias apalparam-na sorvendo o cheiro da alcatra tenra. Não quiseram examinar o pacote com a carne. O cheiro de carne sangrada ocuparia o lugar das vísceras nunca emprenhadas de Janine.

Na cela, Babão ordenou a Lula que tratasse de moquear a carne na grelha de ferro do pavimento de cima. Logo, à noite, seria comida a modo de churrasco. Lula obedeceu, tirando do armário o sal, uma faca e o cominho. Ainda assim, Babão cuidou de puxar a cortina entre seu catre e o de Lula. A alcatra deixou no cheiro indícios de sangue. Babão entreteve-se na cumplicidade das carnes vivas de Janine.

No fim da tarde, o vento parou de soprar no cais de Santa Rita. À luz do poste, ela examinou sem vontade a foto de Babão no jornal, morto, um só tiro na moleira.

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Leia também: "Passeio pelas ruas do Espinheiro", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/palavra-de-poeta_25.html

28 novembro 2025

Minha opinião

Gastando muito? Corra ao endocrinologista!
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

O amigo é consumidor compulsivo. Em viagem à China, comprou de tudo – pelo menos quase tudo do que lhe foi oferecido: gravatas, relógios “Rolex” de eficiência duvidosa, bolsas e apetrechos vincados como se de grifes famosas... e até prosaicos e muito úteis pares de meia.

Na viagem de volta, mil artifícios para acomodar utilidades e bugigangas na bagagem, de modo a não pagar excesso de peso – em dólares! Afinal, ao chegarmos ao Aeroporto dos Guararapes, juro que – exaurido e sonolento em razão das muitas horas de voo – o ouvi perguntar ao carregador, que se aproximava empurrando o carrinho de bagagens: “Quanto custa?” Mas testemunhas idôneas asseguram que tal não aconteceu, foi pura imaginação minha, talvez devido ao porre de consumismo que havia presenciado na longa viagem...

Pois bem. Essa coisa de consumir sem limites, uns dizem que é doença, outros acham que nem tanto, e muitos consideram reflexo da propaganda maciça na TV, que associa prazer e felicidade à aquisição dos mais variados bens – dos inalcançáveis barcos a vela e carros de última geração a perfumes, desodorantes, refrigerantes e uísques diversos.

Tem outra explicação, cientificamente embasada. Pelo menos é o que agora leio no Valor Econômico, em matéria assinada por Noemi Jaffe.  O cientista Dan Ariely, dedicado ao estudo do "comportamento econômico dos macacos" (sic), assegura que seres humanos também cometem "erros econômicos básicos", como "não agir em função do futuro e repetir nossos erros sempre da mesma maneira".

Está no livro "Eu Compro, sim! Mas a Culpa é dos Hormônios...", de Pedro de Camargo, onde se indica tratamento endocrinológico para a superação do irrefreável impulso de consumir.

Imagine. O cara chega ao consultório médico e, perguntado sobre o que o incomoda, sapeca de pronto: - Doutor, estamos muito doentes, eu e minha conta bancária. Não paro de comprar coisas e no final do mês não há renda que me impeça de operar no vermelho!

E o médico, por sua vez, após detalhada anamnese e rigoroso exame físico, solicita bateria de testes laboratoriais, com ênfase em dosagens hormonais. No retorno, o paciente sai com a prescrição do medicamento X, comprovadamente eficiente na cura da nova entidade clínica, conhecida como “síndrome da gastança”.

Tempo moderno!, diria minha avó Neném, que à sua época se espantava com tudo o que era novo, a partir mesmo do uso de calças compridas pelas mulheres, que ela nunca aceitou.

E a disputa no mercado? De um lado, varejistas apoiados em cada vez mais sofisticadas campanhas publicitárias destinadas a explorar, via estímulos visuais e sonoros, a secreção de hormônios que conduzem a vítima à primeira loja da esquina. Do outro, a indústria farmacêutica anunciando a última descoberta, um inibidor hormonal, capaz de curar o mais incontrolável comprador de quinquilharias. Uma guerra pra gente grande, sem dúvida.

É isso, minha avó: assim caminha a Humanidade!   

Crônica de setembro, 2013

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Leia também: O repouso do guerreiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/minha-opiniao_12.html