O prêmio do “sonho europeu”
Sob a fachada da liberalização de mercado, a
União Europeia forçou a privatização de seus ativos energéticos estratégicos,
transferindo a riqueza dos cidadãos para oligarquias financeiras e impondo um
custo de vida proibitivo
Hugo
Dionísio*/A Terra é Redonda
No plano dos combustíveis fósseis, como a gasolina e o gasóleo, a história da energia dispendiosa não começa com o euro, não começa com a guerra da Ucrânia e nem agora com o desastre trumpista no Golfo Pérsico. Um dos capítulos mais importantes do desastre estratégico e energético da União Europeia começa a desenhar-se muito antes, na lógica rentista, monopolista e privada que a União Europeia representa.
O
drama energético que vivemos hoje na União Europeia resulta de algo muito
profundo: uma arquitetura neoliberal que cobra um preço altíssimo pela entrada
no clube restrito, que dá aos Estados periféricos o direito de perderem a sua
soberania, a juventude mais qualificada e o condicionamento do seu setor
produtivo aos ditames ocidentalistas.
Tudo
começa quando a Comissão Europeia declarou guerra aos monopólios! Mas esta
guerra aos monopólios, por acaso – e só por acaso – “estatais”, visava outro
objetivo, mais sub-reptício: a reestruturação do setor energético, de forma a
que fosse colocado ao serviço da lógica rentista. Como tal, ao invés de
destruir tais monopólios, a União Europeia descobriu que a forma mais eficaz de
os derrubar não passava por proibi-los, mas antes por obrigar os Estados a
vendê-los. Golpe de mestre! Tudo sob uma capa de promissora liberalização, já identificada,
noutros momentos históricos, como altamente perniciosa.
As
diretivas de liberalização dos mercados da energia, o mercado único e a Agenda
de Lisboa traçaram o algoritmo pretendido: (a) separar a rede da produção; (b)
abrir a entrada ao capital nacional e estrangeiro; (c) proibir as participações
cruzadas por parte do Estado. Neste processo, a União Europeia mostrou todo o
seu horror à soberania nacional, à independência dos povos, à sua liberdade, em
última instância. Em troca da liberdade coletiva, que lhes roubou,
prometia-lhes a liberdade individual de comprar, pagar, escolher, o
endividamento fácil e o desenraizamento social.
O
resto do percurso foi simples! A partir do poder que a Comissão tem de
conformar os governos nacionais às pretensões que representa – por meio de um
conjunto cruzado e integrado de condicionalidades, recomendações, planos,
agendas e estratégias, bem ancoradas em fundos comunitários e na sua conexão
com a política econômica exigida –, foi o trabalho das próprias governações
nacionais, ansiosas por mostrar “modernidade”, “ambição”, “pragmatismo” e “bom
comportamento” (tudo muito contraditório), que fez o caminho chegar onde nos
encontramos.
A
Comissão Europeia tem este superpoder da dissimulação: dona e senhora da capacidade
de atribuir todas as culpas aos governos eleitos, reservando para si uma
burocracia totalitária, inescapável, inescrutável e autoritária.
E
assim, é razão para dizer que, antes do ser, já o era! Ainda antes de a moeda
única nascer e levar com ela uma fatia enorme das soberanias nacionais,
especialmente dos países mais periféricos, necessitados do Fundo de Coesão, os
maiores países da futura moeda única despojaram-se dos seus maiores ativos
estratégicos: a Itália vendeu a ENI em quatro ofertas públicas entre 1995 e
1998, “libertando” o Estado de cerca de 70% da empresa.
A
Espanha abriu o capital da Repsol e da Cepsa, e a torneira jorrou até ficar
seca; o Reino Unido já nem tinha o que vender – vendera a última fatia pública
da BP entre 1979 e 1987, uma década antes dos outros sequer começarem (o Estado
britânico, note-se, nunca deteve a maioria da BP). Até a França, que na energia
elétrica chegou a reter jóias como a EDF – hoje integralmente pública outra
vez, renacionalizada em 2023 –, teve de se “libertar” da Total.
A fórmula utilizada era engenhosa: o Estado recebia uns milhares de milhões de euros – regularmente a pretexto de uma qualquer crise do déficit ou da dívida impulsionada por Bruxelas – e, em troca, entregava um fluxo infinito e contínuo de lucros monopolistas a acionistas privados, prescindindo assim de propriedade, controlo, rendimento e alavanca de política energética e industrial. Sobrou um controle parcial na Itália – onde o Estado manteve cerca de 30% da ENI, hoje 33% – e pouco mais. A Alemanha, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo nunca contaram com estatais monopolistas neste domínio dos combustíveis.
O euro, esse acelerador da combustão dos «fardos» monopolistas
estatais
A
moeda única não foi só uma moeda: foi um catalisador, um aspirador de ativos
estratégicos e um colete de forças. À sombra da entrada da “moeda única”, a
União Europeia varreu os últimos vestígios de um mercado soberano de
combustíveis fósseis. Tratou-se de um instrumento de convergência económica que
incluía, nos seus pressupostos, a receita dogmática neoliberal da “redução do
peso do Estado na economia”. Nesses tempos, não houve noticiário televisivo,
crónica económica e intervenção dos partidos do “centro moderado” que
mostrassem alguma moderação na afirmação de tal princípio. O resultado foi
direto: o que faltava vender, vendeu-se!
Portugal
executou o modelo exemplar da privatização faseada, pois, à data, ainda havia
muita força no lado soberanista da esquerda, que obrigava o “centro moderado’,
mas radicalmente neoliberal, a encontrar a forma mais dissimulada de dar a
facada final nos combustíveis portugueses: quatro blocos de venda da Galp entre
1999 e 2006, culminando no IPO de 23% em outubro de 2006. Sob o pretexto do
combate ao déficit e à dívida pública, com o executivo de Durão Barroso e de
Manuela Ferreira Leite, a “Thatcher portuguesa”, Portugal foi “libertado” do
terrível monopólio da Galp. Grécia, Finlândia e Áustria são as únicas
resistentes, com participações públicas acima dos 30%. Em 2021, a Grécia
acordou a venda de 20% dos 35,5% que ainda detinha na Hellenic Petroleum —
operação concluída em 2023.
A
conclusão é simples: quando o euro entrou em circulação física, consagrando o
sistema euro-dólar, em 2002, o mapa energético europeu já fora redesenhado: os
monopólios nacionais deixaram de pertencer às nações, mas continuaram a
existir, apenas tendo mudado de mãos públicas para privadas. Passaram a
pertencer ao mercado. Como constataremos, ser do mercado significa ter dono, e
significa que o dono tem de ganhar mais – muito mais!
Importa também não desligar esta estratégia fomentada por Bruxelas de dois outros fatores: a importância do petrodólar enquanto âncora do dólar e a necessidade de que as transações dos produtos petrolíferos passassem a ser feitas em moedas não nacionais, o que foi conseguido através do euro; e a importância da entrada do capital internacional dolarizado no capital das empresas privatizadas. Também aqui somos vítimas do dólar, do petrodólar e da subserviência do sistema euro ao dólar.
Entregar o ativo energético como preço de entrada no clube
restrito do “sonho europeu”
Se
os capítulos anteriores foram uma desistência, o grande alargamento que
decorreu de 2004 a 2013 foi uma rendição, uma chantagem e uma submissão. Para
entrar no clube do “sonho europeu”, os países do centro e leste europeu tiveram
de vender as refinarias, os gasodutos e as petrolíferas. A taxa de entrada era
entregar ao mercado algo de muito rentável e parte da âncora da moeda de
reserva hegemónica. Tal como a unificação alemã, o alargamento a Leste deslocou
o eixo do poder europeu, definitivamente, da França primeiro, e do eixo
franco-alemão depois, para o outro lado do Atlântico, sob a tutela da
burocracia de Bruxelas.
A
cronologia é eloquente e não deixa dúvidas, valendo mais do que as palavras
ocas em sentido contrário: a Roménia vendeu o controlo da Petrom à austríaca
OMV em dezembro de 2004 – 669 milhões de euros pagos ao Estado romeno pelos
33,34% iniciais e mais um aumento de capital, no valor de 830 milhões de euros,
que elevou a OMV a 51% e nem sequer entrava nas contas públicas. No total, a
operação situava o valor da Petrom nos 2,2 mil milhões de euros. Uma oferta em
nome do povo romeno!
A
Chéquia vendeu cerca de 63% da Unipetrol aos polacos da PKN Orlen por uns
míseros 11,3 mil milhões de coroas (cerca de 380 milhões de euros, à cotação da
época). A Lituânia viu a única refinaria dos pequenos bálticos – a Mažeikių
Nafta (da “pesada” herança soviética) – ser comprada pelos polacos da Orlen, em
2006, por cerca de 2,3 mil milhões de dólares no total, dos quais apenas cerca
de 850 milhões reverteram para o Estado lituano, numa operação que Vilnius
justificou explicitamente por razões de segurança nacional, porque os russos
haviam tentado comprá-la! E que tal terem ficado com ela?
A
Hungria é das únicas resistentes, mas não por acaso. Os russos da Surgutneftegaz
haviam comprado em 2009 21,2% da MOL à austríaca OMV e, em 2011, o Estado
húngaro readquiriu esse pacote – por 1,88 mil milhões de euros – para afastar o
controlo russo. Com Orbán, talvez por isso mesmo, o Estado manteve-se acionista
de referência, o que explica o ódio que lhe têm gente como Soros. Na Hungria,
os combustíveis são mais baratos do que em grande parte da União Europeia –
muito mais baratos –, tão mais acessíveis que um eurocrata de Bruxelas, numa
conferência em Budapeste, me disse que “o Estado húngaro subsidia os
combustíveis”.
O eurocrata despejava ali o seu ódio, mas não contra o fato de Viktor Orbán ser da direita conservadora e reacionária; antes, culpava-o de ser um desastre na economia e na justiça. Talvez este tipo devesse olhar para cima, para a própria presidente da União Europeia. O facto é que, na Hungria, onde vigoraram durante anos tetos de preço nos combustíveis, esses custam hoje menos do que na maioria dos países da Europa. A outra exceção é a Polónia, cuja petrolífera PKN Orlen permanece sob controlo do Estado e que, em 2022, reforçou esse controlo com a fusão Orlen–Lotos. Adivinhem que preços pratica? Pois: uns dos mais baixos da UE!
O grande prêmio!
O
mercado europeu estava pronto para o choque. Se o papel que hoje a União
Europeia tem na alimentação dos ganhos de energia dos EUA, na sustentação do
dólar e do petrodólar e nos preços elevados dos combustíveis é resultado da
arquitetura corporativista encetada por Bruxelas, ou o contrário – ou seja, se
os preços elevados e o reforço dos fluxos de capital financeiro associado são
resultado do papel assumido –, não sabemos.
O
que sabemos é que o resultado é simples: os Estados foram desapropriados de
ativos importantíssimos para o desenvolvimento europeu, os povos ficaram a
pagar o combustível muito mais caro, os Estados tiveram de aumentar os impostos
sobre produtos petrolíferos para compensar as perdas e a economia europeia está
um inferno. Com exceção das que se mantiveram públicas ou parcialmente
públicas, comprar gasolina ou gasóleo é proibitivo para um trabalhador europeu
médio, ou para um pequeno empresário!
O
que nos é possível observar é muito simples: ao longo de todo o século XXI
assistimos a um sem-fim de picos petrolíferos que resultaram em ganhos
especulativos brutais e em preços dos combustíveis ainda mais brutais. As
subidas abruptas e as descidas ténues passaram a constituir um instrumento para
a obtenção de ganhos especulativos – não pelos Estados, mas pelos detentores
privados desse capital. Aos povos europeus, à economia não especulativa,
restaram os preços elevadíssimos e os impostos brutais, que visam compensar as
perdas anteriores.
De
1999 – o ano do euro “em conta”, quando o barril andava pelos 10–20 dólares –
até hoje, o petróleo multiplicou o seu preço por vários fatores, com ciclos dos
147 dólares em 2008, da guerra da Ucrânia em 2022 e do choque de 2026.
Só
em 2022, as cinco supermajors – ExxonMobil, Shell, Chevron, BP e TotalEnergies
– somaram cerca de 200 mil milhões de dólares de lucros, o maior ano da sua
história: a Shell bateu o recorde dos seus 115 anos, a ExxonMobil chegou aos
59,1 mil milhões de lucros. Desde o início da guerra na Ucrânia, o mesmo grupo
acumulou, ao que se estima, quase meio bilião de dólares – cerca de 467 mil
milhões.
O movimento do capital não mente: nos EUA, metade dos lucros extraordinários do setor fóssil de 2022 terá cabido ao 1% mais rico, enquanto os 50% mais pobres receberam 1% da riqueza produzida (dado que não foi possível confirmar em fontes públicas). Nesta montanha-russa de subidas e descidas, os EUA tornaram-se o fornecedor privilegiado da União Europeia e o maior produtor de petróleo do mundo!
A realidade fora da União Europeia
Não
pode haver ingenuidades ou condescendências de qualquer tipo. Fora da União
Europeia, o mapa dos preços demonstra a tendência referida. Em abril de 2026, a
gasolina custava na Rússia cerca de 0,80 dólares por litro e na Bielorrússia
0,90 – contra cerca de 2,50 euros na Alemanha, 2,60 na Dinamarca e 2,90 nos
Países Baixos, os preços mais altos do mundo “avançado”. Estes dois países
recuperaram o controlo público perdido nos anos 90 e não querem saber de
políticas anti-monopólio (do Estado, apenas) por parte da UE, do FMI e do Banco
Mundial.
A
Sérvia, candidata eterna ao clube e por isso pressionada a “reformar” o seu
setor, situava-se nos 1,90 euros – bastante abaixo do preço dos Países Baixos.
Contra a Sérvia temos o encravamento continental e o fato de não ter petróleo.
Daí
que a explicação não seja geográfica e não interessa explicar. Onde o Estado
controla a cadeia de valor – extração, refinação, importação –, pode fazer trade-off (compensações
entre fatores diferentes) e decidir que o combustível é um bem estratégico e
não uma mercadoria especulativa, transferindo, através de um preço interno mais
reduzido, o rendimento que a União Europeia entregou e decidiu obrigar outros a
entregar ao mercado. Um mercado ávido de lucros, que quer vê-la crescer até ao
céu, deslocando para os seus offshores fatias cada
vez maiores de riqueza sonegada ao crescimento económico e social dos Estados.
A
Noruega é talvez o caso mais instrutivo: tem dos preços mais altos da Europa na
bomba, mas abriu o capital da Statoil em 2001 e nunca deixou o Estado descer
dos dois terços do capital total (hoje Equinor). Então o que se passa? O que se
passa é que o dinheiro dos preços altos não engorda um acionista: alimenta o
fundo soberano que pertence a cada norueguês, a todos os noruegueses.
A Rússia e a Bielorrússia escolheram o preço baixo, beneficiando o consumidor; a Noruega escolheu o fundo soberano; a União Europeia escolheu o acionista, a oligarquia. Todos escolheram. A diferença é quem recebe. Esta é a diferença, hoje, entre estar ou não estar na União Europeia. O resto é conversa para estupidificar quem esteja excessivamente entregue à solidão reflexiva e brutalmente exposto à “informação” desconexa das redes sociais e à manipulação dos órgãos dominantes.
A União Europeia como motor de empobrecimento
Volta-se
assim ao princípio e fecha-se o círculo. Entre 1995 e 2009, a Europa – primeiro
voluntariamente, depois sob coação de alargamento – transferiu para o capital
privado os monopólios energéticos que as gerações anteriores construíram de
forma coletiva e que foram responsáveis pela elevação incomparável dos padrões
de vida e de rendimento.
A
instituição de economias mistas, dotando os Estados de recursos estratégicos e
fundamentais, possibilitou a socialização dos resultados da produção, elevando
a educação, a saúde, o conhecimento, a tecnologia e a alimentação de todos os
europeus. Entre os anos 1950 e os anos 1970, a Europa Ocidental viveu os seus
30 anos dourados. A presença de uma URSS dotada de padrões sociais elevados
obrigou o capital a concessões antes impensáveis. Centenas de milhões de
trabalhadores e suas famílias puderam beneficiar da socialização de alguns dos
resultados da sua própria produção. A Europa tornou-se o continente mais
desenvolvido, industrializado, democrático e avançado do ponto de vista humano.
Desaparecida
a URSS e, com ela, o “perigo comunista”, enfraquecidos os sindicatos e os
partidos de classe que reclamam para quem trabalha a sua fatia digna de
riqueza, chegámos ao tempo da desforra, da recolha dos despojos. O facto de
nunca se ter ensinado o que foi realmente o fascismo, a sua ligação intrínseca
ao capitalismo, o papel que a luta de classes teve na elevação dos padrões de
vida da União Europeia, a importância de partidos que sejam capazes de exigir e
propor medidas radicalmente diferentes, que mudem, que criem rupturas, resultou
num estado de inconsciência histórica que está a conduzir à repetição dos
mesmos erros. Porque quem não conhece a sua história está fadado a repetir os
mesmos dramas!
A
concentração de riqueza nos países mais fragilizados pelas estratégias
neoliberais encetadas pela União Europeia, ao serviço de Washington e do seu
sistema hegemónico, faz com que o cidadão comum pague a gasolina quase ao
triplo do preço russo e trabalhe para a pagar com salários que não acompanham a
curva do Brent. Existe alternativa, e a alternativa está no controlo público
destes ativos estratégicos.
A
Noruega, no topo dos índices sociais, mas fora do clube de Bruxelas, demonstra
que a alternativa ao neoliberalismo não era utópica, que funcionava. Quem paga
agora pelo dano causado? Quem nos compensa agora pelas perdas causadas, nas
nossas vidas, nas vidas dos nossos filhos e netos, com as mentiras contadas?
E
ainda há quem acredite nesta gente!
[Ilustração: Latuff]
*Hugo Dionísio é advogado, analista
geopolítico, pesquisador do Gabinete de Estudos da Confederação Geral dos
Trabalhadores Portugueses (CGTP-IN).
Europa expõe dependência econômica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/europa-submissa_29.html

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