Trump e o velho imperialismo americano sem
maquiagem
Enio Lins
NÃO SE PODE ACUSAR Donald Trump de ser dissimulado. Ele vai direto ao ponto – mentindo, ou falando a verdade – como ação para aterrorizar e imobilizar a vítima. Anuncia sua meta, confessando antecipadamente o crime que irá cometer. E já visou que quer anexar mais uma fatia expressiva de terra aos Estados Unidos, pode ser o Canadá ou a Groelândia, quiçá ambos, sem meias-palavras: “Ou vocês me dão de graça, ou vendem, ou eu os assalto à mão armada”. Direto na lata.
É UMA TÁTICA
TRUMPISTA, personalizada. Mas a estratégia é a mesma de
todos os seus antecessores desde a Doutrina Monroe (1823) e de seu
aperfeiçoamento pela Política do Grande Porrete (1901), como muita gente tem
lembrado. Relembrando: no governo James Monroe (entre 1817 e 1825) foi
anunciada a política dos Estados Unidos contra “uma nova colonização europeia
nas Américas”, mascarando – parcial e porcamente – a orientação verdadeira: “no
resto do mundo, apenas os Estados Unidos podem colonizar”. No período Theodore
Roosevelt (entre 1901 e 1909), a conversa mole endureceu para a consigna “fale
manso e tenha na mão um grande porrete”, ou seja: é para descer o cacete em
quem resistir ao papo de batedor de carteira dos americanos.
AO INSISTIR EM ROUBAR a Groenlândia da Dinamarca, Trump desmoraliza a OTAN,
instrumento que ele considera um peso morto. Os Estados Unidos têm arcado com
2/3 do orçamento da OTAN, jogando anualmente pela janela cerca de US$ 1 trilhão
(valores de 2024). A Organização do Tratado do Atlântico Norte foi inventada em
1949, para se opor a um suposto avanço da União Soviética para além das
fronteiras conquistadas durante a II Grande Guerra. Essa pulada da “cortina de
ferro”, jamais existiu. O Exército Vermelho se deteve rigorosamente nos limites
ocupados até 1945. No restante da Europa, a marca foi entrega das armas dos
grupos de esquerda no imediato pós-guerra. Na Grécia e na Itália, por exemplo,
as forças de resistência contra o Nazismo se mantinham como exércitos
não-convencionais de grande força e prestígio. Partizans italianos e gregos,
por orientação de Moscou, desistiram de batalhas praticamente ganhas em seus
países, submetendo-se a um acordo firmado entre USA e URSS para divisão do
mundo em áreas de influência. Naquele cenário, a OTAN foi a primeira grande (e
cara) rasteira aplicada pela Casa Branca contra o Kremlin, que só reagiu seis
anos depois, em 1955, com a criação do Pacto de Varsóvia, extinto com o fim da
URSS, em 1991. Rigorosamente, inexistem razões para o tesouro americano seguir
pagando os jogos de guerra para europeus.
NÃO EXISTE A OTAN sem os Estados Unidos, assim como não existiu o Pacto de
Varsóvia sem a União Soviética. A OTAN não é uma unidade operacional
verdadeira, é totalmente brocha sem o adjutório químico estadunidense. E Casa
Branca só libera as substâncias eréteis para outrem se for para violentar alvos
preferenciais do governo americano. Na Europa, apenas Inglaterra preservou
forças armadas com alguma desenvoltura, e mesmo assim penaram – entre abril e
junho de 1982 – para derrotar as desmoralizadas tropas da ditadura argentina na
“Guerra das Malvinas”. Naquele confronto, morreram 649 militares argentinos e
255 britânicos, numa estatística tenebrosa em que o lado vencedor sofreu
praticamente 50% dos óbitos em relação aos derrotados. Fora essa exceção de
1982, todas as incursões bélicas europeias dignas de registro têm acontecido
como coadjuvantes das tropas americanas, seja no Iraque, Afeganistão, ou nos
conflitos africanos. Terá hoje a OTAN como peitar os marines?
OUTRO DESPAUTÉRIO que joga na lata do lixo as aparências da diplomacia
americana é a proposta de Donald de uma “Comissão da Paz” para Gaza. Mas como o
espaço aqui está findando e a página não é de elástico, voltarmos a esse tema
específico depois.
O que alimenta a revolta iraniana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/ira-importa-saber.html

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