07 maio 2026

Minha opinião

Raimundo Rodrigues Pereira, presente!
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Uma amizade de cinco décadas alimentada a conta-gotas, muito menos pela frequência (esporádica) com que nos víamos, mais pela dimensão do diálogo em nossos encontros — de 1977 a anos recentes.

Ex-preso político empenhado na reorganização do PCdoB em Pernambuco e próximo da conclusão do curso médico, tornei-me responsável pela sucursal do jornal Movimento em momento de efervescência política: a anistia, o retorno de Miguel Arraes, Francisco Julião e outros tantos exilados, os primeiros impulsos do movimento sindical que se reorganizava, as batalhas travadas pelo então MDB nas últimas eleições sob a ditadura...

Algumas vezes, em reunião do jornal em São Paulo e semanalmente por correspondência, a partir do copião que enviava dando conta dos fatos mais relevantes cá na província, que poderiam ou não, a critério do editor Raimundo, ensejar matérias.

Nos anos que se seguiram, aqui e acolá nos vimos em diversas circunstâncias. 

Aparecia esporadicamente em Pernambuco para contatos políticos, oportunidade em que nos encontrávamos.

Algumas vezes, o governador Miguel Arraes me convidou para almoço com Raimundo.

— Vamos conversar, dizia Arraes. 

— De que se trata?

— Deve ser um projeto novo dele...

Sim, bem sabemos, Raimundo persistiu em projetos sucessivos: após Opinião e Movimento, Retrato do Brasil, Editora Manifesto...
Também aconteceu da mesma forma, anos depois, com o governador Eduardo Campos: almoço em palácio para ouvir Raimundo. 

Numa das vezes, tratava-se de reportagem em construção sobre a privatização da água nos centros urbanos. Terminado o almoço, nos despedimos e ele permaneceu para uma primeira entrevista com o engenheiro João Bosco, presidente da Companhia Pernambucana de Saneamento, trazido à nossa presença pelo governador.

Quando vice-prefeito do Recife, reservava um expediente inteiro para recebê-lo, manhã ou tarde. Cabia tudo: literatura, imprensa e, naturalmente, a conjuntura política.

Numa das oportunidades, promovemos um debate público no auditório da Prefeitura em que ele discorreu sobre a situação política no mundo e no Brasil.

Para mim sempre um aprendizado. Concordando ou eventualmente divergindo, impressionava o absoluto rigor com que ele tratava as informações no exercício do jornalismo. 

Na epidemia do Zika vírus (2015-2016), a seu pedido, consegui que fosse recebido no Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), hoje Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, para entrevistas com um núcleo de pesquisadores. 

Mais de um mês após me enviou por e-mail a primeira versão da reportagem contendo a ausculta de especialistas de vários centros de pesquisa e lavrada com a rigorosa objetividade de sempre. 

Nos anos recentes não tivemos mais contato, mas em inúmeras oportunidades me referi às nossas conversas e, sobretudo, à histórica aventura do jornal Movimento.

Como escreveu Carlos Azevedo no Portal Grabois, Raimundo morreu! Raimundo vive!

*Texto da minha coluna semanal no Portal Vermelho

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As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com 

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