Palavra de poeta
LAVANDO
Marcelo Mário de Melo
Lavo o rosto lavo as mãos
lavo a mágoa e a lembrança
lavo o sonho e a incerteza
lavo o véu da esperança.
Lavo a palavra perdida
lavo a semente abortada
lavo a ponte destruída
lavo a asa quebrada.
Lavo o mapa lavo a lente
lavo o desejo de ir
lavo os pés doloridos
lavo o sal de prosseguir.
Lavo a letra e a bandeira
lavo a caixa de segredo
lavo o plano e a vontade
lavo o travo lavo o medo.
Lavo os ouvidos e os olhos
lavo o peito e o compromisso
lavo o sinal de alerta
lavo o adubo e o viço.
Lavo clarins e clamores
lavo ciranda e amizade.
lavo o fio das gerações
lavo os pulsos da cidade.
Lavo a toalha da mesa
lavo a comida a panela
lavo a cortina da sala
lavo a camisa amarela.
Lavo lavo lavo tudo
levo a vida a lavar.
Como as roupas que eu visto
lavo pra continuar.
[Ilustração: Paul Klee]
Leia também: A gratidão dos bichos e os riscos da
clonagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_6.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário