24 março 2026

A elite da usura

Enriquecimento financeiro de 1995 a 2025
A simulação de um milhão de reais investido em títulos públicos desde o Plano Real revela que a capitalização contínua a juros nominais elevados multiplicou o patrimônio por 66 vezes em trinta anos, um fenômeno que explica a formação de uma elite rentista no Brasil
FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*/A Terra é Redonda     

1.

É muito impressionante quanto R$ 1 milhão investido em títulos públicos em 1995 teria se tornado hoje com reinvestimento contínuo da Selic. O resultado ajuda a entender por qual razão o Brasil formou uma elite rentista tão rica nas últimas três décadas.

Podemos fazer uma estimativa plausível usando a taxa média aproximada da Selic desde o Plano Real. Entre 1995 e 2025, a taxa básica definida pelo Banco Central do Brasil ficou próxima de 15% ao ano em termos nominais em média, nos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional do Brasil.

Se R$ 1 milhão (PV) tivesse sido continuamente reinvestido à taxa média nominal de 15% ao ano (i) por 30 anos (n), o crescimento seria: . Resultado aproximado do valor futuro (FV): ≈ R$ 66 milhões.

Ao longo do tempo, a evolução se deu no seguinte ritmo: no ano 1995, o patrimônio inicial era R$ 1,0 milhão; em 2000, R$ 2,0 milhões; em 2005, R$ 4,0 milhões; em 2010, R$ 8,1 milhões; em 2015, R$ 16,4 milhões; em 2020, R$ 33,0 milhões; em 2025, ≈ R$ 66 milhões. O patrimônio se multiplica cerca de 66 vezes!

Se considerarmos o juro real, a inflação média desde o Plano Real ficou perto de 7% ao ano. Isso implica um juro real médio próximo de 8% ao ano. Nesse caso, . O resultado em poder de compra constante apareceria na calculadora financeira: ≈ R$ 10 milhões.

Isso revela dois fatos importantes da economia brasileira. Em termos nominais, a capitalização financeira pode gerar grandes fortunas ao longo de décadas. Em termos reais, mesmo descontando inflação, o capital ainda multiplica cerca de 10 vezes.

Em outros termos, nominalmente , R$ 1 milhão vira R$ 66 milhões, mas em poder de compra real, R$ 1 milhão vira R$ 10 milhões. Cresce 10 vezes.

Outro ponto nem sempre percebido pelo leigo em finanças é as fortunas maiores crescerem muito mais rapidamente por causa da escala. Por exemplo, no mesmo período aproximado, capital inicial no valor nominal de R$ 1 milhão, após 30 anos, vira R$ 66 milhões; R$ 10 milhões viram R$ 662 milhões; R$ 100 milhões acumulam R$ 6,6 bilhões. Só.

Isso ajuda a explicar por qual razão a capitalização financeira de longo prazo contribui para a forte concentração patrimonial no Brasil.

2.

Como resultado do experimento financeiro, se R$ 1.000.000 tivesse sido aplicado continuamente em títulos equivalentes às LFT com reinvestimento automático, iria dobrando de cinco em cinco anos, até atingir em 2025 o valor final aproximado de ≈ R$ 66 milhões.

Esse número parece enorme, mas decorre de três características do regime monetário brasileiro após o Plano Real: (i) juros nominais historicamente elevados, definidos pelo Banco Central do Brasil; (ii) capitalização contínua, porque os títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional do Brasil são reinvestidos automaticamente; (iii) horizonte de três décadas para o efeito exponencial dominar o resultado.

Em uma comparação internacional, se o mesmo US$ 1 milhão tivesse sido aplicado em títulos do Tesouro americano, desde 1995, o patrimônio final aproximado seria de US$ 3-4 milhões. Considerando a cotação de R$ 5,30/US$, o multiplicador brasileiro foi muito maior: US$ 12,453 milhões.

O dado mais revelador é a renda financeira brasileira multiplicou o capital aproximadamente por 66 vezes em 30 anos, mas a economia brasileira (PIB real) cresceu apenas cerca de 2,5 vezes no mesmo período. O estoque de riqueza financeira cresceu muito mais rápido diante o fluxo de renda da economia.

O exercício numérico mostra por qual razão o Brasil se tornou um dos países com maior concentração de riqueza financeira em títulos públicos do mundo: juros elevados, longa capitalização e baixo crescimento econômico gerador de empregos e renda do trabalho. Esse arranjo cria um sistema no qual a acumulação patrimonial financeira pode crescer independentemente da expansão produtiva.

A comparação entre riqueza imobiliária (1970-1994) e riqueza financeira (1995-2025) é muito reveladora para entender a transformação da elite patrimonial brasileira. O ponto central é o regime monetário e financeiro ter mudado profundamente entre esses dois períodos.

O regime patrimonial do período 1970-1994 era relacionado à urbanização e à inflação alta. Durante a fase final do ciclo desenvolvimentista e da hiperinflação, o principal ativo de proteção patrimonial era imóvel urbano.

Isso ocorreu por três razões estruturais: inflação muito elevada, mercado financeiro pouco desenvolvido e urbanização acelerada. A taxa de urbanização brasileira passou aproximadamente de 55% no censo de 1970 para mais de 75% em 1991. A terra urbana se valorizava porque as cidades cresciam rapidamente, a oferta de crédito habitacional era limitada e os imóveis protegiam contra inflação.

Estudos históricos do mercado urbano brasileiro indicam valorização média aproximada entre 3% a 4% ao ano em termos reais (sem contar renda de aluguel). Vamos, para fazer uma simulação, usar 4% real por 24 anos.

O crescimento segue a capitalização: A=P(1.04){24}. Resultado aproximado: R$ 1 milhão em 24 anos (1970–1994) propiciariam R$ 2,56 milhões em poder de compra constante. Se incluirmos aluguel líquido médio de 4–5% ao ano reinvestido, o retorno total poderia chegar a algo próximo de 7–8% real ao ano. Nesse caso, A=P(1.08){24} . Resultado: ≈ R$ 6,3 milhões em valores reais.

3.

O regime patrimonial pós-Plano Real, após 1994, tem uma mudança institucional decisiva com a estabilização monetária, a abertura financeira e a expansão do mercado de títulos públicos. Esse regime é conduzido pelo Banco Central do Brasil e pelo Tesouro Nacional. O ativo dominante passa a ser título público indexado à Selic. Entre 1995 e 2025, como vimos, o multiplicador aproximado foi ≈ 66 vezes nominalmente ou cerca de 10 vezes em termos reais.

Em comparação histórica dos dois regimes, se partirmos de R$ 1 milhão inicial, no regime patrimonial   de imóveis urbanos (1970–1994), o multiplicador real aproximado fica entre 2,5 – 6 vezes. Já no caso de títulos públicos (1995–2025), a riqueza financeira multiplica ~10 vezes.

Em consequência estrutural, a elite brasileira, inclusive a cultural com formação universitária e componente do Varejo de Alta Renda, mudou seu perfil patrimonial. Antes predominava a elite fundiária urbana com incorporadores, proprietários de imóveis e renda de aluguel. Depois do Plano Real, em 1994, surge com força a elite rentista financeira, composta de detentores de títulos públicos, investidores institucionais (fundos de pensão, fundos de investimentos e seguradoras) e gestores de patrimônio.

Essa transição patrimonial está ligada a três mudanças estruturais: estabilização monetária, redução do papel do imóvel como hedge inflacionário e desenvolvimento do mercado financeiro. Aumentou a liquidez e a segurança dos títulos públicos. Os juros reais elevados transformaram a dívida pública em um ativo extremamente rentável.

Como resultado sistêmico, o sistema econômico-financeiro brasileiro passou a ter um mecanismo peculiar de acumulação: o Estado paga juros elevados sobre sua dívida e esse fluxo de renda financeira alimenta a acumulação patrimonial privada.

Em síntese, entre 1970 e 1994, a riqueza da elite brasileira era predominantemente imobiliária. Após o Plano Real, entre 1995 e 2025, a riqueza passou a ser predominantemente financeira, baseada em títulos públicos e fundos de investimento.

Essa mudança ajuda a explicar por qual razão hoje o Brasil apresenta grande concentração de riqueza financeira, forte peso político do sistema financeiro e menor centralidade do setor imobiliário na formação das grandes fortunas.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

Poder & dinheiro na direita brasileira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/poder-dinheiro.html 

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