Sem mais silêncio
As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia
inteiro isolam-se da vida. Eles são um passaporte para a alienação, o
individualismo, o não-tou-nem-aísmo
Ruy Castro/Folha de
S. Paulo
O jovem de fones
ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando
entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu
assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e
retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua
casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e
permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rock, rap, forró, k-pop?
Outra cena que
sempre me intriga é a dos jogadores descendo do ônibus do clube para o jogo de
dali a pouco, no qual, em tese, eles deveriam estar totalmente concentrados.
Todos trazem alguma coisa ao ouvido. Como 90% dos atuais jogadores são
evangélicos, imagino que devem estar escutando os hinos e pregações que os
levarão à vitória. Mas, se o repertório de seus fones vier do cafonejo, e ainda
por cima perderem o jogo, não podem culpar Deus pela derrota.
Digo tudo isso
ao ler sobre os efeitos
dos headphones nas pessoas que hoje os atracam às orelhas para
correr, caminhar, pedalar, motocar, dirigir, dormir, trabalhar e até estudar,
alheios à vida ao redor. É como se se isolassem da vida. Usam-nos também para
reduzir o estresse, relaxar ou, ao contrário, excitar-se, tudo exceto refletir.
É um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo.
Por sorte,
quem usa esses fones tem a liberdade de tirá-los para, às vezes, dar um alívio
aos fatigados tímpanos. Mas, e se uma pessoa for obrigada a ouvi-los, sem poder
arrancá-los ou implorar a alguém para fazer isso?
Foi o que me
contaram de um conhecido meu, homem de seus 80, nos estágios finais de um mal
que o impedia de mover-se ou comunicar-se. Todos sabiam do amor que, em dias
mais felizes, ele dedicara a Lizst, Chopin e Tchaikovski. Daí, seus netos
prepararam 24 horas de playlist com suas sinfonias favoritas e, todos os dias,
aplicavam-lhe os fones pelo dia inteiro.
É o terror:
ser condenado a escutar sem parar o que você ama, quando tudo que quer é o
silêncio.
Leia também uma crônica de Luis Fernando Verissimo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/uma-cronica-de-luis-fernando-verissimo.html

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