Banksy deixou
de ser um mistério no mundo das artes de rua?
Enio Lins
BANKSY, SUMIDADE ENTRE AS SUMIDADES da arte de rua em todo o mundo, teve seu nome real –
até então secreto – anunciado como descoberto por uma investigação patrocinada
pela Agência Reuters. O mistério em torno da identidade do artista se alongou
por, pelo menos 27 anos, desde a notoriedade internacional conquistada por suas
pinturas murais na cidade inglesa de Bristol. Apesar das evidências de que a
apuração tenha sido criteriosa, uma aura de mistério ainda paira sobre a
esquiva criatura, até porque durante muito tempo se especulou ser aquela
assinatura uma expressão de um codinome coletivo e não uma individualidade.
NÃO VOU REPLICAR aqui a identificação anunciada. Na verdade, foram divulgadas
duas denominações, pois o artista teria mudado oficialmente nome e sobrenome em
algum momento. Eu prefiro a magia da clandestinidade original dos velhos tempos
em que o escondimento da cara de um autor singular sob aquele pseudônimo era a
referência para intervenções sempre jovens, talentosas, criativas, corajosas,
satíricas, aguerridas. Banksy é uma das marcas globais mais marcantes na virada
do século XX para XXI. Sua assinatura é sinônimo de inventividade, associada ao
rigor técnico e a facilidade de transmissão de mensagens profundas. Seus murais
são a perfeita expressão do mais fino cartum: crítica gráfica, contundente, de
leitura fácil e universal.
PROVOCAR COM CONTEÚDO é sinônimo de Banksy. Um dos maiores exemplos dessa postura
foi o leilão de um stencil assinado por ele, em 2018, na Sotheby's. Arrematada
por £ 1.000.000 (um milhão de libras, ou R$ 6.970.060,00 pelo câmbio atual), a
obra – assim que o leiloeiro anunciou a venda – foi picotada por um triturador
escondido na moldura. Uma sacudida impactante, uma lapada contra a
comercialização da arte. A gravura se chamava Girl
with Balloon e reproduzia um grafite famoso do mesmo autor. As
reportagens sobre o acontecimento nunca explicaram o que houve na sequência: A
compra foi cancelada? O comprador aceitou levar os fiapos de papel? Mas
imortalizou o impacto da inusitada performance como ato de pura arte
contestatória, um fato instigador para reflexões sobre o valor do objeto
artístico.
SEMPRE QUESTIONANDO temas monetários, ações culturais e atitudes políticas,
denunciando violências, o clandestino artista realizou algo inusitado, que
pode ser considerado uma “instalação” – por sinal tão atrevida e arriscada que
causou enorme perplexidade em todos os fronts de uma guerra cruenta. Em 2017
fundou o Walled Off
Hotel (Hotel Murado, na tradução Google), localizado na
bíblica Belém, coração da Cisjordânia, área palestina violentada por Israel.
Segundo o material de divulgação feito pelo próprio artista e investidor, o
hotel oferecia ‘a pior vista do mundo’, pois os quartos tinham janelas voltadas
à muralha erguida pelos sionistas para isolar a comunidade árabe originária. Em
2023 o empreendimento (e/ou obra de arte) fechou as portas por conta do avanço
do terrorismo israelense na região. Ele também arriscou a vida pintando murais
nas ruas de Gaza, denunciando as matanças sionistas.
IDENTIFICADO OU NÃO, seja uma só pessoa ou uma legião, quem quer que use o
cognome Banksy segue sendo a personalidade mais relevante nas artes plásticas
de rua em todo o mundo. Criatividade, coragem e contestação seguem sendo suas
marcas registradas. Como fã, na falta de talento para ser imitador, sigo fiel à
ignorância da verdadeira identidade do grande mestre – no mínimo, até que o
próprio se identifique por conta própria. Mesmo assim, considero ser o certo
chamá-lo pelo nome que assinou desde seu nascimento artístico. E, como nos
tempos em que existiam livrarias dignas dessa denominação, sigo caçando seus
livros, álbuns da mais pura arte mural.
Leia também um poema de Antônio Cícero https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/palavra-de-poeta_24.html

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