24 março 2026

Enio Lins opina

Banksy deixou de ser um mistério no mundo das artes de rua?
Enio Lins   

BANKSY, SUMIDADE ENTRE AS SUMIDADES da arte de rua em todo o mundo, teve seu nome real – até então secreto – anunciado como descoberto por uma investigação patrocinada pela Agência Reuters. O mistério em torno da identidade do artista se alongou por, pelo menos 27 anos, desde a notoriedade internacional conquistada por suas pinturas murais na cidade inglesa de Bristol. Apesar das evidências de que a apuração tenha sido criteriosa, uma aura de mistério ainda paira sobre a esquiva criatura, até porque durante muito tempo se especulou ser aquela assinatura uma expressão de um codinome coletivo e não uma individualidade.

NÃO VOU REPLICAR 
aqui a identificação anunciada. Na verdade, foram divulgadas duas denominações, pois o artista teria mudado oficialmente nome e sobrenome em algum momento. Eu prefiro a magia da clandestinidade original dos velhos tempos em que o escondimento da cara de um autor singular sob aquele pseudônimo era a referência para intervenções sempre jovens, talentosas, criativas, corajosas, satíricas, aguerridas. Banksy é uma das marcas globais mais marcantes na virada do século XX para XXI. Sua assinatura é sinônimo de inventividade, associada ao rigor técnico e a facilidade de transmissão de mensagens profundas. Seus murais são a perfeita expressão do mais fino cartum: crítica gráfica, contundente, de leitura fácil e universal.

PROVOCAR COM CONTEÚDO 
é sinônimo de Banksy. Um dos maiores exemplos dessa postura foi o leilão de um stencil assinado por ele, em 2018, na Sotheby's. Arrematada por £ 1.000.000 (um milhão de libras, ou R$ 6.970.060,00 pelo câmbio atual), a obra – assim que o leiloeiro anunciou a venda – foi picotada por um triturador escondido na moldura. Uma sacudida impactante, uma lapada contra a comercialização da arte. A gravura se chamava Girl with Balloon e reproduzia um grafite famoso do mesmo autor. As reportagens sobre o acontecimento nunca explicaram o que houve na sequência: A compra foi cancelada? O comprador aceitou levar os fiapos de papel? Mas imortalizou o impacto da inusitada performance como ato de pura arte contestatória, um fato instigador para reflexões sobre o valor do objeto artístico.

SEMPRE QUESTIONANDO 
temas monetários, ações culturais e atitudes políticas, denunciando violências, o clandestino artista realizou algo inusitado, que pode ser considerado uma “instalação” – por sinal tão atrevida e arriscada que causou enorme perplexidade em todos os fronts de uma guerra cruenta. Em 2017 fundou o Walled Off Hotel (Hotel Murado, na tradução Google), localizado na bíblica Belém, coração da Cisjordânia, área palestina violentada por Israel. Segundo o material de divulgação feito pelo próprio artista e investidor, o hotel oferecia ‘a pior vista do mundo’, pois os quartos tinham janelas voltadas à muralha erguida pelos sionistas para isolar a comunidade árabe originária. Em 2023 o empreendimento (e/ou obra de arte) fechou as portas por conta do avanço do terrorismo israelense na região. Ele também arriscou a vida pintando murais nas ruas de Gaza, denunciando as matanças sionistas.

IDENTIFICADO OU NÃO,
 seja uma só pessoa ou uma legião, quem quer que use o cognome Banksy segue sendo a personalidade mais relevante nas artes plásticas de rua em todo o mundo. Criatividade, coragem e contestação seguem sendo suas marcas registradas. Como fã, na falta de talento para ser imitador, sigo fiel à ignorância da verdadeira identidade do grande mestre – no mínimo, até que o próprio se identifique por conta própria. Mesmo assim, considero ser o certo chamá-lo pelo nome que assinou desde seu nascimento artístico. E, como nos tempos em que existiam livrarias dignas dessa denominação, sigo caçando seus livros, álbuns da mais pura arte mural.

Leia também um poema de Antônio Cícero https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/palavra-de-poeta_24.html

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