Uma conversa sobre divulgação científica
Abraham B. Sicsu
Dia chuvoso. Na
esquina da Peixoto Gomides com a Alameda Santos, bar Pirajá, um encontro
interessante. Anos atrás. Claudio, bom amigo e entusiasta da divulgação
científica.
Democratizar o
conhecimento, responder as angústias da sociedade, mostrar a importância da
Ciência para a construção de uma sociedade mais harmônica, responsável e
sustentável. Dedicamos nossos anos produtivos nessa missão, muitas vezes
despercebida, mas importante para a população em geral. Agora aposentados
gostaríamos de ver mais resultados.
Tornar acessível os
avanços do pensamento humano e combater a desinformação, tarefa árdua e pouco
compreendida. Contextualizar o que foi produzido e permitir que seja
compreensível para os que não são especialistas, desafio que poucos fazem com
eficiência.
Entender que nosso
cotidiano e os caminhos futuros são fortemente influenciados por esses avanços,
tentar explicar para que isso faça sentido aos não iniciados na área. Procurar
meios que permitam essa disseminação.
Já estamos no segundo
chopp e nos bolinhos de “aipim”. Uma pergunta surge. O que motivaria as
pessoas, hoje em dia, para se interessarem e se motivarem a aprofundar o tema?
Atualmente, muitos
são os tópicos que afetam diretamente as pessoas e com os quais elas tem que se
preocupar. Na maioria, os rumos, até individuais, que tomarão estão fortemente
condicionados aos caminhos que o conhecimento seguirá e seus avanços.
Evidentemente, não
sejamos ingênuos de acreditar que é a Ciência que dará a direção do Mundo,
muitos outros fatores influenciam até mais, como a Política ou mesmo a
Economia, mas, mudanças de rumo que efetivamente signifiquem melhoria da
qualidade de vida, encontram no avanço do conhecimento alicerce seguro para se
consolidar.
Mais uma caneca,
notamos muito discurso e pouca objetividade. Ao mesmo tempo, perguntamo-nos, no
concreto, o que realmente interessa, em que assuntos podemos nos centrar para
uma real motivação?
No genérico, temas
como a Inteligência Artificial, nas diferentes áreas, avanços na Saúde, a
Transição Energética, a nova Bioeconomia, as Mudanças Climáticas, a Genética e
seus impactos, inclusive na alimentação, são bons motes para começar. Temas
atuais que se tornam importantes quando se tem como princípio a busca de uma
sociedade mais sustentável.
Falando em
sustentabilidade, as energias renováveis e a transição energética, focada em
fontes alternativas como a eólica e a solar, além dos novos processos, como o
hidrogênio verde, parecem dar um bom debate. Há prós e contras, como enfrentar
os impactos negativos, como viabilizar novos processos sem gerar um volume
crescente de novos problemas. Procuramos enumerá-los, eram muitos, desejosos
que os entendidos nos expliquem.
A questão climática é
um real problema. A Ciência já comprovou serem bastante concretas as
deteriorações causadas pelo modelo de desenvolvimento que a humanidade assumiu.
Mas, ainda há negacionistas, que difundem informações baseadas em falsas
premissas. Fundamental veicular, em linguagem compreensível, os estudos sobre
aquecimento global, estratégias adaptativas e de mitigação, novos processos
sobre descarbonização, entre outros.
Não nos esqueçamos
das questões de poluição e a contaminação ambiental, principalmente com os
microplásticos. Além dos fortes impactos na saúde humana, outras vidas
ameaçadas num mundo em que ecossistemas estão sendo totalmente desestruturados
é resultado altamente destrutivo notados. Apercebemo-nos de que o mundo é
interativo e que os impactos do modo de produção e consumo adotados afetam
profundamente a estabilidade da natureza e de diferentes vidas?
As pandemias são uma
ameaça constante. Vivemos anos terríveis recentemente. Novas vacinas foram
fundamentais. Regiões periféricas têm problemas estruturais com doenças
negligenciadas que o avanço do conhecimento tem conseguido minorar. Será que as
pessoas sabem? Será que aumentou a
credibilidade da Ciência junto às populações afetadas?
A moda agora é a
Inteligência Artificial - IA. Impactos relevantes na vida dos homens.
Profissões desaparecerão, os espaços urbanos e até os rurais serão totalmente
modificados, os modos de vida serão profundamente alterados. Podemos explicar
melhor essa revolução que celeremente transforma os modos de convivência, o
ambiente em que estamos inseridos?
A medicina, com a IA, estará em outro patamar
e a saúde humana terá novos mecanismos de proteção, a robótica é o caminho para
as cirurgias. O atendimento à distância, associado aos avanços da genética, faz
com que doenças possam ser tratadas com grande eficiência. Estarão acessíveis
quando e para quem?
As tecnologias mudam
rapidamente. Com os avanços do 5G, tendo por base a IA, a conectividade é outra. Espaço e tempo mudam
de dimensão. A sociedade terá que se adaptar a um estilo de vida profundamente
alterado em suas dimensões, em suas escalas de uso do conhecimento. Estamos
preparados?
Novos materiais
surgem para reorientar a engenharia, o perfil de sofisticação da sociedade
muda. O mundo dos chips e as terras raras, algo ainda pouco conhecido. Como
participar desse universo com autonomia e responsabilidade? Pergunta que exige
que a sociedade se posicione.
Estes temas, todos,
têm premissa de posicionamento, espero. Defender um ambiente com justiça social
e que valorize a biodiversidade. E nele, há um grande empecilho. O excesso de dados e informações faz
proliferar a desinformação, o uso de falsas notícias e afirmações. Mais um
tópico relevante para a Ciência. Como verificar a veracidade dos fatos?
O papo se prolonga e
buscam-se meios para efetivar esses caminhos de divulgação. Publicações,
debates, palestras em escolas, espaços de exposições, muitos outros surgem.
Mas, a chuva não para.
Cambaleantes, dois
guarda-chuvas, um para a Paulista, outro descendo a ladeira. Anos avançam,
pouco se fez, sem perder a esperança, de que o próprio avanço da civilização
fará que a preocupação com a divulgação científica seja considerada prioridade
de formação para os cidadãos responsáveis.
Leia também: Luciana Santos diz que conceito do plano brasileiro de IA é ser inclusivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/08/palavra-da-ministra-luciana.html

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