26 junho 2026

Palavra de poeta

Em violino fado
José Saramago    

Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Outro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece: onsente em violino fado.

[Ilustração: Cícero Dias]

"Meus amigos na varanda" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html 

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