A praça ainda é do povo?*
Luciano Siqueira
Faz muita falta o calor das ruas, na campanha eleitoral sobretudo.
Nas pelejas dos anos mais recentes verifica-se redução dos grandes comícios na proporção em que crescem as campanhas digitais.
Tem a ver com o custo, o alcance e o modo como a maioria das pessoas se comunica hoje. E com uma espécie de perigosa superficialidade no embate de ideias.
Verdade que os comícios de rua exigem investimentos financeiros significativos em infraestrutura — palanques, sonorização, segurança e transporte.
Candidaturas aos governos estaduais, por exemplo, já não se realizam numa sequencia intensa de comícios.
Na campanha de 1986, cá em Pernambuco, em que Miguel Arraes pleiteou o governo estadual e venceu, num dado momento realizamos um volume absurdo de comícios de médio e grande porte. Começamos cedo da manhã em Pombos, cidade limítrofe da Zona da Mata e terminamos depois da meia noite em Garanhuns, no Agreste Meridional, tendo passado antes pelo Sertão Central.
No dia seguinte, Arraes e eu tomávamos o café da manhã no Hotel Tavares Correia quando o futuro governador abordou o coordenador da campanha no interior, o velho e aguerrido militante Ivan Rodrigues:
- Acabei de descobrir quem matou Tancredo Neves.
- Quem, Dr. Arraes? – perguntou Ivan em voz baixa, quase confidente.
- Foi o cara que organizou a agenda da campanha dele no interior!
A piada fazia sentido.
Agora, as redes sociais e o impulsionamento de conteúdo digital permitem atingir um número expressivamente maior de pessoas com um custo por eleitor significativamente menor.
É a realidade, sim, frustrante para os velhos militantes habituados à peleja nas ruas.
Enquanto num comício candidatos se dirigem a um público geograficamente limitado e heterogêneo, as plataformas digitais permitem a segmentação de mensagens com base em perfis, interesses e dados demográficos específicos.
É a mensagem direcionada, tecnicamente bem concebida.
Falar para milhares e até milhões é ótimo. Mas inquietante é o formato das mensagens em meios digitais: conteúdos curtos, diretos e "sob demanda" em redes como Instagram, TikTok e aplicativos de mensagens.
Dizem que o vídeo mais competente deve durar não mais do que vinte segundos!
Tudo em busca de um “engajamento” mediante replicação espontânea ou direcionada de conteúdos na internet, tornando o "comício digital" — na forma de lives ou postagens de alto alcance — uma ferramenta mais ágil eficiente de mobilização.
Costumo apelar à militância para que se envolva nas três instâncias da luta nos dias que correm: nas redes digitais, nos salões (reuniões e assembleias) e nas ruas. Indispensáveis à elevação da consciência política de centenas de milhares e milhões, como exige a luta para além das campanhas eleitorais.
*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'
Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html

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