Mobilidade urbana pede debate consistente
Luciano Siqueira
Publicado no portal Vermelho http://www.vermelho.org.br/
Evidente que todo e qualquer tema deve ser tratado com a abrangência e a profundidade que a seriedade recomenda. Sobretudo quando se trata de algo de interesse público – como o impasse da mobilidade urbana que aflige a quase totalidade das cidades grandes e médias do País.
Por isso fere os ouvidos escutar abordagens ligeiras, superficiais e pirotécnicas que vão proliferando em vários ambientes e propagadas nos meios de comunicação, frequentemente influenciadas por projetos eleitorais futuros. Disse isso de maneira cuidadosa, para não ferir suscetibilidades, ao iniciar minha breve intervenção sobre o assunto em reunião na Assembleia Legislativa, segunda-feira última, à qual compareceu o ex-prefeito do Recife, deputado João Paulo – que nos trouxe significativa contribuição ao debate.
A mobilidade já era essencial e prioritária em todas as cidades e metrópoles ao longo da História, adverte o professor Geraldo Santana, da Universidade Federal de Pernambuco, competente estudioso dos problemas urbanos. E no Brasil – tenho mencionado isso com frequência – há que se reconhecer, no trato da questão, a dimensão histórica, estrutural; e a dimensão imediata, conjuntural.
A industrialização do País, que ganhou grande impulso a partir dos anos 30, e a inexistência de uma reforma agrária distributiva produziram o chamado êxodo para os centros urbanos, que em apenas cinco décadas inverteu a relação entre a população urbana e a rural, na ordem de 80%. Isto sem que as cidades estivessem preparadas para tanto.
Mais: como bem assinala o professor Geraldo Santana, não apenas a partir do governo JK, quando aqui se instalou a indústria automotiva, mas nos períodos que se seguiram até os dias recentes, sob o governo Lula, prevaleceu a ênfase no transporte rodoviário, seja de carga, seja de passageiros, em prejuízo das alternativas marítima, fluvial, e ferroviária. Nas cidades, prioridade total ao veículo individual.
Mais recentemente, quando eclodiu a crise global em 2008, para evitar o colapso da indústria automobilística e o consequente desemporego, Lula flexibilizou a política fiscal, reduzindo o IPI, e facilitou o crédito de modo a estimular o consumo de automóveis. Com isso, conseguiu manter o nível do emprego no setor, mas acrescentou uma carga exponencial de pressão sobre os espaços urbanos, agravando enormemente a crise de mobilidade. Basta ver o Recife, cujas vias são tomadas por automóveis e motos, alongando exageradamente o tempo de deslocamento mesmo a distâncias fisicamente pequenas.
Ainda no primeiro governo Lula, na gestão de Olívio Dutra no Ministério das Cidades, foram lançados os fundamentos de uma nova politica nacional de mobilidade urbana, que entretanto encontra enormes dificuldades de prosperar devido ao baixo poder de investimento público que ainda persiste no Brasil. Livramo-nos da dívida externa (resta um resíduo do Clube de Paris), mas ainda padecemos de uma dívida pública interna monstruosa e retroalimentada pela política de juros altos. Superar esses obstáculos é imprescindível à inversão de prioridades entre o carro individual e o transporte público de massas, que implica em pesados investimentos. Uma luta que cabe a todos nós travar.
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
03 novembro 2011
Democracia na Frente Popular
Muita precipitação julgar que a Frente Popular se “desarrumou”. Coalizão ampla, convive democraticamente com diferenças pontuais.
CPI começa hoje
CPI da telefonia móvel será instalada hoje, às 10h, no auditório da Assembleia Legislativa. Com reunião aberta ao público.
O mundo dá suas voltas. E os costumes também.
Finados antigamente
Luciano Siqueira
Para o site da revista Algomais
Se era em Natal, minha terra, devia ser em todo o País. Dia de Finados era uma coisa diferente de todos os dias especiais que impactavam os meninos da família. O fim de ano era só alegria, assim o carnaval e as festas juninas. O dia da padroeira, idem.
Mas o 2 de novembro tinha um quê de solene e o mesmo tempo triste. Fúnebre. As emissoras de rádio tocavam apenas dobrados. As pessoas transitavam nas ruas silenciosas a caminho de cemitério ou da igreja. Em casa, reminiscências em torno dos familiares já falecidos. Comércio fechado, cinemas e parques de diversão também. Praias semidesertas.
Lá em casa quase nada se fazia. Sequer nossas brincadeiras de costume. Tanto que um dia, já na década de sessenta, fomos bater bola no quintal, contrariando a vontade explícita de minha mãe. Não se podia fazer isso em dia tão reservado à reflexão sobre o sentido da vida e a inevitabilidade da morte.
Pois bem. Nem me lembro por que carga d’água, já ao final da pelada surgiu um desentendimento entre dois irmãos, que foram às vias dos fatos, com direito a pequenas escoriações e leves traços de sangue. Dona Oneide quase se desespera. Os filhos e amigos mais próximos, certamente também contrariando suas mães, haviam cometido o sacrilégio de jogar futebol justo no dia reservado aos mortos e por castigo divino caíram na tentação de resolver no braço o que a conversa não dera conta.
Hoje é tudo diferente. Aliás, a diferença já vem das duas últimas décadas do século passado, se não me engano. E em pleno século 21 ninguém pode imaginar um Dia de Finados conspícuo e ortodoxo como antigamente.
Embora a TV mostre o de sempre, multidões que acorrem aos cemitérios enfrentando problemas vários, das dificuldades de acesso, em alguns casos, em razão do caos da mobilidade urbana (nem se falava nisso àquela época), até as falhas na manutenção dos campos santos, culpa da gestão municipal. São reportagens tão idênticas que se simplesmente se repetissem imagens de anos anteriores o telespectador nem perceberia a diferença.
Fora isso, a programação é normal, inclusive as indefectíveis novelas. As rádios tocam tudo, sem discriminação. Talvez as emissoras pertencentes a correntes religiosas façam alguma diferença, nem tenho tempo de verificar.
Enfim, o dia 2 só não tem festa explícita, mas a maioria o dedica plenamente ao lazer. Sem nenhum drama de consciência, nem a vigilância dos mais velhos. Agora mesmo estou ouvindo programa musical variado numa emissora que toca música o tempo todo. Do sambão de Alcione e Beth Carvalho a Chico Buarque e Tom Jobim, incluindo Rita Lee e outros roqueiros nacionais. Blasfêmia? Nada disso, apenas um tempo novo, novos costumes. A superação gradual de uma tradição que vem desde o século 2 da Era Cristã, por iniciativa da Igreja Católica. É que o mundo dá suas voltas e a gente vai na onda, mesmo sem deixar de reverenciar os que se foram e nos deixaram saudade.
Luciano Siqueira
Para o site da revista Algomais
Se era em Natal, minha terra, devia ser em todo o País. Dia de Finados era uma coisa diferente de todos os dias especiais que impactavam os meninos da família. O fim de ano era só alegria, assim o carnaval e as festas juninas. O dia da padroeira, idem.
Mas o 2 de novembro tinha um quê de solene e o mesmo tempo triste. Fúnebre. As emissoras de rádio tocavam apenas dobrados. As pessoas transitavam nas ruas silenciosas a caminho de cemitério ou da igreja. Em casa, reminiscências em torno dos familiares já falecidos. Comércio fechado, cinemas e parques de diversão também. Praias semidesertas.
Lá em casa quase nada se fazia. Sequer nossas brincadeiras de costume. Tanto que um dia, já na década de sessenta, fomos bater bola no quintal, contrariando a vontade explícita de minha mãe. Não se podia fazer isso em dia tão reservado à reflexão sobre o sentido da vida e a inevitabilidade da morte.
Pois bem. Nem me lembro por que carga d’água, já ao final da pelada surgiu um desentendimento entre dois irmãos, que foram às vias dos fatos, com direito a pequenas escoriações e leves traços de sangue. Dona Oneide quase se desespera. Os filhos e amigos mais próximos, certamente também contrariando suas mães, haviam cometido o sacrilégio de jogar futebol justo no dia reservado aos mortos e por castigo divino caíram na tentação de resolver no braço o que a conversa não dera conta.
Hoje é tudo diferente. Aliás, a diferença já vem das duas últimas décadas do século passado, se não me engano. E em pleno século 21 ninguém pode imaginar um Dia de Finados conspícuo e ortodoxo como antigamente.
Embora a TV mostre o de sempre, multidões que acorrem aos cemitérios enfrentando problemas vários, das dificuldades de acesso, em alguns casos, em razão do caos da mobilidade urbana (nem se falava nisso àquela época), até as falhas na manutenção dos campos santos, culpa da gestão municipal. São reportagens tão idênticas que se simplesmente se repetissem imagens de anos anteriores o telespectador nem perceberia a diferença.
Fora isso, a programação é normal, inclusive as indefectíveis novelas. As rádios tocam tudo, sem discriminação. Talvez as emissoras pertencentes a correntes religiosas façam alguma diferença, nem tenho tempo de verificar.
Enfim, o dia 2 só não tem festa explícita, mas a maioria o dedica plenamente ao lazer. Sem nenhum drama de consciência, nem a vigilância dos mais velhos. Agora mesmo estou ouvindo programa musical variado numa emissora que toca música o tempo todo. Do sambão de Alcione e Beth Carvalho a Chico Buarque e Tom Jobim, incluindo Rita Lee e outros roqueiros nacionais. Blasfêmia? Nada disso, apenas um tempo novo, novos costumes. A superação gradual de uma tradição que vem desde o século 2 da Era Cristã, por iniciativa da Igreja Católica. É que o mundo dá suas voltas e a gente vai na onda, mesmo sem deixar de reverenciar os que se foram e nos deixaram saudade.
02 novembro 2011
01 novembro 2011
Especulações pré-eleitorais
Pré-candidatura não tira pedaço de ninguém
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Folha
Às vésperas do período pré-eleitoral propriamente dito – que tomará corpo nos primeiros meses de 2012 -, especular não é pecado. E, no terreno das especulações, natural e legítimo que partidos políticos anunciem a pretensão de disputar a cadeira de prefeito sugerindo um ou alguns dos seus quadros.
O caso do Recife é emblemático. A cidade é governada por uma coalizão partidária liderada pelo PT desde 2001, quando se iniciou a primeira gestão do prefeito João Paulo. Há um entendimento tácito de que caberá novamente ao PT indicar um nome que reúna condições de manter unida a coalizão e leva-la à vitória. Pode ser o atual prefeito, João da Costa, ou outro petista – segundo reiteradas declarações públicas de seus próceres.
Ora, o que é tácito está subentendido, implícito – mas não é nenhuma regra pétrea. A política é dinâmica, o cenário do próximo pleito ainda está por se definir. Mais: a essência da questão é a continuidade do projeto político-administrativo em curso, que tanto pode ser liderado por um quadro do PT como de outro partido da Frente Popular – conforme se possa especular livremente.
O PSB põe à mesa o nome do ministro Fernando Bezerra Coelho. O PTB insinua que pode vir a disputar com alternativa própria, caso se configure a opção tática de mais de uma candidatura. Ou seja: pode ser ou não. Na hora das conversações, a partir de janeiro ou fevereiro, há que se ouvirem as razões de cada um, considerar a atualização do projeto comum e tirar as conclusões.
Na sucessão do prefeito João Paulo, em 2008, o PCdoB sustentou o meu nome como hipótese mesmo quando o prefeito já havia indicado seu companheiro de partido, João da Costa. Nosso argumento era de que, nas circunstâncias que se apresentavam, uma solução tática válida poderia vir a ser a adoção de mais de uma candidatura, sem que isso jamais provocasse cizânia ou constrangimento nas relações entre o PCdoB e o PT, entre o vice-prefeito e o prefeito.
Diante do risco de dividir a coalizão e provocar um segundo turno incerto, no quadro que afinal se apresentou, o PCdoB retirou a minha pré-candidatura e incorporou-se ao conjunto que optara pelo nome do atual prefeito.
O fato de se ter, por algum tempo, a especulação em torno do nome do vice-prefeito em contraposição à escolha do prefeito, naquela oportunidade, não tirou pedaço de ninguém. Manteve-se o clima de discussão democrática e mutuamente respeitosa.
E é o que se espera aconteça agora. Antes de uma definição comum, vale especular – inclusive com nomes para a cabeça da chapa majoritária.
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Folha
Às vésperas do período pré-eleitoral propriamente dito – que tomará corpo nos primeiros meses de 2012 -, especular não é pecado. E, no terreno das especulações, natural e legítimo que partidos políticos anunciem a pretensão de disputar a cadeira de prefeito sugerindo um ou alguns dos seus quadros.
O caso do Recife é emblemático. A cidade é governada por uma coalizão partidária liderada pelo PT desde 2001, quando se iniciou a primeira gestão do prefeito João Paulo. Há um entendimento tácito de que caberá novamente ao PT indicar um nome que reúna condições de manter unida a coalizão e leva-la à vitória. Pode ser o atual prefeito, João da Costa, ou outro petista – segundo reiteradas declarações públicas de seus próceres.
Ora, o que é tácito está subentendido, implícito – mas não é nenhuma regra pétrea. A política é dinâmica, o cenário do próximo pleito ainda está por se definir. Mais: a essência da questão é a continuidade do projeto político-administrativo em curso, que tanto pode ser liderado por um quadro do PT como de outro partido da Frente Popular – conforme se possa especular livremente.
O PSB põe à mesa o nome do ministro Fernando Bezerra Coelho. O PTB insinua que pode vir a disputar com alternativa própria, caso se configure a opção tática de mais de uma candidatura. Ou seja: pode ser ou não. Na hora das conversações, a partir de janeiro ou fevereiro, há que se ouvirem as razões de cada um, considerar a atualização do projeto comum e tirar as conclusões.
Na sucessão do prefeito João Paulo, em 2008, o PCdoB sustentou o meu nome como hipótese mesmo quando o prefeito já havia indicado seu companheiro de partido, João da Costa. Nosso argumento era de que, nas circunstâncias que se apresentavam, uma solução tática válida poderia vir a ser a adoção de mais de uma candidatura, sem que isso jamais provocasse cizânia ou constrangimento nas relações entre o PCdoB e o PT, entre o vice-prefeito e o prefeito.
Diante do risco de dividir a coalizão e provocar um segundo turno incerto, no quadro que afinal se apresentou, o PCdoB retirou a minha pré-candidatura e incorporou-se ao conjunto que optara pelo nome do atual prefeito.
O fato de se ter, por algum tempo, a especulação em torno do nome do vice-prefeito em contraposição à escolha do prefeito, naquela oportunidade, não tirou pedaço de ninguém. Manteve-se o clima de discussão democrática e mutuamente respeitosa.
E é o que se espera aconteça agora. Antes de uma definição comum, vale especular – inclusive com nomes para a cabeça da chapa majoritária.
Bom dia, Vinícius de Moraes
Soneto da fidelidade
E tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meus pensamentos
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
E tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meus pensamentos
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
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