A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
20 maio 2013
Déficit habitacional se reduz
Prossegue como uma dos principais
demandas sociais em nossas cidades, item destacado de uma necessária reforma
urbana, mas dá sinal de ligeira queda: o déficit
habitacional no país caiu 12% em cinco anos. É o que revela a Nota Técnica
Estimativas do Déficit Habitacional Brasileiro por Municípios, do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A partir de dados da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE), os pesquisadores concluíram que a
deficiência de 5,6 milhões de habitações, registrada em 2007, caiu para 5,4
milhões, em 2011.
Conquista LGBT
Agora já são 14 países a
adotarem, por Lei, o casamento homoafetivo: o presidente francês, François Hollande, assinou
a lei e determinou a promulgação, um dia depois do Conselho Constitucional ter
validado o texto. O primeiro matrimônio entre pessoas do mesmo sexo acontecerá
em 29 próximo, após quatro meses de disputa parlamentar e de manifestações a
favor e contra a lei. Será em Montpellier, onde se celebrará o
matrimônio de um militante da causa homossexual de 40 anos e de seu companheiro
de 30 anos.
Urgência do projeto nacional
O que faz falta
Eduardo Bomfim, no Vermelho www.vermelho.org.br
A América Latina é uma região que se ergue
reivindicando com energia a superação de séculos de atraso e subjugação do
colonialismo e neocolonialismo.
Quem visitou o espetacular Museu do Ouro em Bogotá, uma espécie de Louvre das obras de arte das antigas civilizações colombianas onde se encontram lindas esculturas feitas pelos povos que foram extintos através de genocídio dos conquistadores, constata que além da barbárie da Coroa de Espanha havia outro motivo para tantos crimes hediondos: o ouro puro, maciço e abundante na região presente nas esculturas, utensílios dos nativos.
No Brasil a colonização portuguesa não foi diferente da espanhola apesar de distinta na concepção estratégica mas a força, a usurpação das riquezas foram as mesmas.
Nas lutas pela independência o continente, inspirado na revolução francesa, contra a escravidão, sentiu os ares dos novos tempos e não foram poucos os mártires que deram as suas vidas nos confrontos pela libertação.
Já a galeria de lutadores nacionais, heróis de uma pátria em fazimento, exibe figuras como Tiradentes, Frei Caneca, o 2 de julho na Bahia, a rebelião contra a escravidão na República dos Palmares, Alagoas, os combatentes contra os arbítrios, na ditadura de 1964 etc. etc.
Mas é justo afirmar que foi na batalha do Morro dos Guararapes em Pernambuco que surgiu com força o sentimento de patriotismo quando brasileiros que já se sentiam como tal, de nascença e de coração, mestiçados na alma e no corpo, travaram luta decisiva pela expulsão dos invasores holandeses do País.
Porém o grande visionário de uma América solidária livre de qualquer tipo de subjugador foi Simon Bolívar, que aliás teve como um dos seus principais generais Abreu e Lima, um brasileiro pernambucano que se uniu ao sonho fantástico, à epopeia gigantesca do Libertador.
A prova de
que as ideias desse personagem não eram alucinadas é que hoje elas reassumem a
dimensão concreta das aspirações de uma América livre, independente, soberana.
Quanto ao Brasil o que está fazendo falta é a concretização de um projeto econômico, social, político estratégico que defenda com clareza a soberania do País, mobilize as grandes maiorias para que se possa combater as forças externas, internas retrógradas, ligadas ao monopólio midiático reacionário entreguista que investe diuturnamente na fragmentação, dispersão, alienação, embrutecimento mental do povo brasileiro.
Quanto ao Brasil o que está fazendo falta é a concretização de um projeto econômico, social, político estratégico que defenda com clareza a soberania do País, mobilize as grandes maiorias para que se possa combater as forças externas, internas retrógradas, ligadas ao monopólio midiático reacionário entreguista que investe diuturnamente na fragmentação, dispersão, alienação, embrutecimento mental do povo brasileiro.
O poeta sabe
A segunda-feira é de Adalberto Monteiro: “A felicidade às
vezes está à nossa volta/E à procura dela/Saímos pelo mundo dando voltas.”
19 maio 2013
Questão ambiental em destaque
PCdoB elege meio ambiente
como fator estruturante do Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento
. Após dois dias de debates, o PCdoB aprovou, neste domingo (19), sua política ambiental. O plano, que será apresentando no 13º Congresso Nacional do PCdoB e na 4ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, incorpora o meio ambiente como fator estruturante do Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND).
. Apesar da questão ambiental não ter, na época de Marx, a mesma importância que tem hoje, ele destacou em seus trabalhos a importância da natureza. E, para os comunistas, “é fundamental a construção de uma corrente ambiental que, herdeira do pensamento de Marx e Engels e em consonância com as mais avançadas concepções contemporâneas, incorpore os marxistas e os defensores do desenvolvimento sustentável soberano num único movimento em defesa da vida”.
. Leia mais http://migre.me/eCDLd
. Após dois dias de debates, o PCdoB aprovou, neste domingo (19), sua política ambiental. O plano, que será apresentando no 13º Congresso Nacional do PCdoB e na 4ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, incorpora o meio ambiente como fator estruturante do Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND).
. Apesar da questão ambiental não ter, na época de Marx, a mesma importância que tem hoje, ele destacou em seus trabalhos a importância da natureza. E, para os comunistas, “é fundamental a construção de uma corrente ambiental que, herdeira do pensamento de Marx e Engels e em consonância com as mais avançadas concepções contemporâneas, incorpore os marxistas e os defensores do desenvolvimento sustentável soberano num único movimento em defesa da vida”.
. Leia mais http://migre.me/eCDLd
A vida do jeito que é
Eulálio e Gregório
Marco Albertim, no portal Vermelho www.vermelho.org.br
Ali, sem que a polícia se dispusesse a uma incursão ou outra entre os angicos, escondiam-se ladrões que, espreitando entre os galhos, esperavam passageiros usando calça e paletó de uma cor só, de linho; visto que sob o linho engomado há sempre o couro de uma carteira acolchoado com notas de dinheiro.
A noite se deu tão preguiçosa quanto o trânsito ralo. E toda a conversa entre os motoristas distinguiu Pelópidas Silveira, candidato a prefeito do Recife.
- O que faz medo é os comunistas do lado dele. É gente fria, sem coração, disposta a fritar o coração de um menino para mostrar coragem de luta.
- Acredita nisso, Eulálio? Eu moro no Alto do Pascoal. Tem domingo que eu bebo cerveja com Miguelito, mecânico de carro. Ele é comunista. O único coração que ele come é o de galinha. Minha mulher frita e ele come com a cerveja.
- E comunista bebe!?
- Bebe, se embriaga e também corre o risco de levar corno da mulher.
- Tem comunista pirobo? - quis saber Eulálio
- Nunca ouvi falar. Gregório Bezerra, quando ficou preso em Fernando de Noronha, diz que no pavilhão vizinho ao que ele e os comunistas ficavam, havia outro, o dos galinhas-verdes. Entre os galinhas-verdes tinha muito pederasta.
O telefone no poste tocou; o ruído, quase insonoro noutra hora, rompeu o silêncio na via deserta.
Eulálio, cujo Ford era o primeiro da fila de automóveis, correu para atender. De todos ali, fora o único que se mostrara receoso de ir à cabine de votação. Não queria votar nos comunistas, nem em outro candidato com o apoio deles, e tinha medo que sua escolha contrária chegasse ao conhecimento dos comunistas. Mas Pelópidas... ora... Pelópidas tinha na redondez do rosto, nos olhos serenos, a bondade dos homens; a roupa branca, paletó, camisa e calça sempre asseados, passados no ferro, sem trama nas dobras feito quem esconde a mentira na meia-voz.
- Alô...
- Um táxi, por favor. Rua do Hospício.
- O número da casa?
- É no comitê de doutor Pelópidas!
Desligou meio incrédulo, inda que julgando-se desfeiteado pela sorte de o acaso ter escolhido ele, entre uma dúzia, para privar da companhia de um comunista; um comunista por certo voraz, que não pagaria o preço da corrida, incitando-o a se portar com docilidade, em benefício da revolução popular.
O táxi estacionou sem dificuldade. Era domingo. Os casais, com os filhos nos braços, segurando-os no punho, não tinham em conta que nos corredores daquela casa, se tramava a ocupação da Prefeitura, dos bairros, por homens sem a cruz no pescoço, mas um martelo cruzando uma foice de gume afiado.
Esperando na porta, recebeu Eulálio um homem alto, costados largos; os traços do rosto oscilando entre o sarará e o vermelho tostado; os cabelos finos, rareados nos lados, nunca se deixando estofar, ainda que dando mostras de que crescera na quentura sobre a terra seca do sertão.
- Espere só um pouco.
Não demorou. O homem entrou no táxi. Não apertou a mão de Eulálio, tocou levemente seu ombro, informando o destino.
- Qual é sua graça - quis saber Eulálio.
- Gregório.
- Bezerra!?
- Um camarada às suas ordens.
No Alto do Pascoal, os dois desceram do táxi. Gregório convencera Eulálio de que deveria assistir ao comício da campanha de Pelópidas Silveira. Em frente ao palanque montado, crianças seminuas, curiosas, olharam para os recém-chegados.
- Veja esses meninos. Ainda não comeram. É por isso que eu sou comunista...
Para não acentuar o pasmo de Eulálio, acrescentou:
- Vamos voltar com você, no seu táxi.
Gregório Bezerra discursou. O último a falar foi Davi Capistrano, baixo, troncudo e voz cava, metálica.
Dali em diante, Eulálio estacionou o Ford em frente ao comitê do candidato. Com a eleição de Pelópidas, entregou o Ford ao proprietário de quem o arrendara. A convite de Gregório Bezerra, tornou-se motorista do jipe do Movimento de Cultura Popular.
Marco Albertim, no portal Vermelho www.vermelho.org.br
A pouca luz no fim da tarde, pouco ou nada
distinguia a cor de cada um dos Fords estacionados no Parque Amorim. Fords
ovalados, com lataria grossa, resistente à corrosão. Os motoristas, do lado de
fora dos automóveis, tinham em conta o matagal de um lado e de outro do canal,
nas margens viscosas do mangue.
Ali, sem que a polícia se dispusesse a uma incursão ou outra entre os angicos, escondiam-se ladrões que, espreitando entre os galhos, esperavam passageiros usando calça e paletó de uma cor só, de linho; visto que sob o linho engomado há sempre o couro de uma carteira acolchoado com notas de dinheiro.
A noite se deu tão preguiçosa quanto o trânsito ralo. E toda a conversa entre os motoristas distinguiu Pelópidas Silveira, candidato a prefeito do Recife.
- O que faz medo é os comunistas do lado dele. É gente fria, sem coração, disposta a fritar o coração de um menino para mostrar coragem de luta.
- Acredita nisso, Eulálio? Eu moro no Alto do Pascoal. Tem domingo que eu bebo cerveja com Miguelito, mecânico de carro. Ele é comunista. O único coração que ele come é o de galinha. Minha mulher frita e ele come com a cerveja.
- E comunista bebe!?
- Bebe, se embriaga e também corre o risco de levar corno da mulher.
- Tem comunista pirobo? - quis saber Eulálio
- Nunca ouvi falar. Gregório Bezerra, quando ficou preso em Fernando de Noronha, diz que no pavilhão vizinho ao que ele e os comunistas ficavam, havia outro, o dos galinhas-verdes. Entre os galinhas-verdes tinha muito pederasta.
O telefone no poste tocou; o ruído, quase insonoro noutra hora, rompeu o silêncio na via deserta.
Eulálio, cujo Ford era o primeiro da fila de automóveis, correu para atender. De todos ali, fora o único que se mostrara receoso de ir à cabine de votação. Não queria votar nos comunistas, nem em outro candidato com o apoio deles, e tinha medo que sua escolha contrária chegasse ao conhecimento dos comunistas. Mas Pelópidas... ora... Pelópidas tinha na redondez do rosto, nos olhos serenos, a bondade dos homens; a roupa branca, paletó, camisa e calça sempre asseados, passados no ferro, sem trama nas dobras feito quem esconde a mentira na meia-voz.
- Alô...
- Um táxi, por favor. Rua do Hospício.
- O número da casa?
- É no comitê de doutor Pelópidas!
Desligou meio incrédulo, inda que julgando-se desfeiteado pela sorte de o acaso ter escolhido ele, entre uma dúzia, para privar da companhia de um comunista; um comunista por certo voraz, que não pagaria o preço da corrida, incitando-o a se portar com docilidade, em benefício da revolução popular.
O táxi estacionou sem dificuldade. Era domingo. Os casais, com os filhos nos braços, segurando-os no punho, não tinham em conta que nos corredores daquela casa, se tramava a ocupação da Prefeitura, dos bairros, por homens sem a cruz no pescoço, mas um martelo cruzando uma foice de gume afiado.
Esperando na porta, recebeu Eulálio um homem alto, costados largos; os traços do rosto oscilando entre o sarará e o vermelho tostado; os cabelos finos, rareados nos lados, nunca se deixando estofar, ainda que dando mostras de que crescera na quentura sobre a terra seca do sertão.
- Espere só um pouco.
Não demorou. O homem entrou no táxi. Não apertou a mão de Eulálio, tocou levemente seu ombro, informando o destino.
- Qual é sua graça - quis saber Eulálio.
- Gregório.
- Bezerra!?
- Um camarada às suas ordens.
No Alto do Pascoal, os dois desceram do táxi. Gregório convencera Eulálio de que deveria assistir ao comício da campanha de Pelópidas Silveira. Em frente ao palanque montado, crianças seminuas, curiosas, olharam para os recém-chegados.
- Veja esses meninos. Ainda não comeram. É por isso que eu sou comunista...
Para não acentuar o pasmo de Eulálio, acrescentou:
- Vamos voltar com você, no seu táxi.
Gregório Bezerra discursou. O último a falar foi Davi Capistrano, baixo, troncudo e voz cava, metálica.
Dali em diante, Eulálio estacionou o Ford em frente ao comitê do candidato. Com a eleição de Pelópidas, entregou o Ford ao proprietário de quem o arrendara. A convite de Gregório Bezerra, tornou-se motorista do jipe do Movimento de Cultura Popular.
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Paradoxos
Gorila surreal
Luis Fernando Verissimo
Gordo e o Magro transportam um piano de cauda de um lado para o outro de um abismo, em cima de uma tábua estreita sobre a qual mal conseguem se equilibrar. Não se sabe de onde eles vêm e para onde vão e por que estão carregando um piano. A situação já é insólita, mas ainda não é crítica, ou surrealista, o bastante.
Luis Fernando Verissimo
James Agee (1905-1955,
segundo o Google) era um romancista, poeta, roteirista e crítico de cinema
americano. Certa vez ele descreveu uma cena de um filme do Gordo e o Magro
(Oliver Hardy era o gordo, Stan Laurel o magro) que considerava uma síntese não
só do humor da dupla como de todo o humor surrealista do cinema da época.
Gordo e o Magro transportam um piano de cauda de um lado para o outro de um abismo, em cima de uma tábua estreita sobre a qual mal conseguem se equilibrar. Não se sabe de onde eles vêm e para onde vão e por que estão carregando um piano. A situação já é insólita, mas ainda não é crítica, ou surrealista, o bastante.
Subitamente, vindo na
direção contrária à deles na tábua estreita, aparece um gorila. Também não se
sabe de onde saiu o gorila e por que está atravessando o abismo numa tábua
estreita. Para Agee, a cena acontece num universo separado onde antecedentes e
explicações são desnecessárias, ou apenas distrairiam a atenção da sua
singularidade maluca.
Como termina a cena?
Infelizmente, ou o Agee não contou o fim ou eu me esqueci. Talvez, para não
destoar da improbabilidade abstrata do resto, o gorila acabe tocando piano.
Quando os comediantes do
cinema ainda não falavam (Oliver e Hardy falavam, W. C. Fields e Groucho Marx
falavam até demais) discutia-se quem era o melhor, Charlie Chaplin ou Buster
Keaton. Como trabalhavam em silêncio, a comédia dos dois dependia da sua
dinâmica visual.
A mecânica das situações
era tudo, e seu desafio constante à inventividade levava ao surrealismo também
constante, mesmo que os dois não se dessem conta disto.
Lembro de um curta do
Buster Keaton que era, simplesmente, ele contra o vento, quase ele contra a
natureza: uma ventania varre uma pequena cidade e vai derrubando todas as suas
construções, e o filme todo é sobre Keaton sobrevivendo à tempestade nos vãos
do cenário que cai à sua volta. Chaplin foi mais famoso, mas Keaton foi mais
inventivo. Talvez soubesse que estava sendo surreal.
Mas eu queria escrever
mesmo sobre os fatos insólitos desta semana em Brasília, quando o governo
pensava ter todos os votos para aprovar a tal nova lei dos portos e levar o
piano tranquilamente para o outro lado do abismo quando surgiu, vindo na
direção contrária, o seu maior aliado, o PMDB, fantasiado de gorila da
oposição.
Surreal, surreal.
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