25 agosto 2015

Desafio humanitário

Um milhão de pessoas com deficiência 

Lenin Moreno, no Le Monde Diplomatique

A aprovação, em 2006, da Convenção Internacional sobre Direitos das Pessoas com Deficiência representou um marco na evolução dos direitos humanos e, particularmente, dos direitos de um grande número de indivíduos que durante muito tempo estiveram ausentes de estratégias de desenvolvimento e dos instrumentos de direitos
Se analisarmos os temas globais tratados como prioridade no âmbito dos direitos humanos, veremos que as pessoas com deficiência foram as últimas a serem contempladas. Nos diversos debates e na evolução dos modelos políticos e socioeconômicos dos Estados, as pessoas com deficiência estavam ausentes – e em muitos casos ainda estão – das políticas públicas. Aos poucos, foram atendidas de forma progressiva como um “grupo vulnerável” e uma “carga social” que o Estado deveria contemplar. O enfoque dos direitos humanos foi fundamental para iniciar uma transformação profunda nas políticas dirigidas para acabar com uma história de exclusão. É nesse ponto que radica, sem dúvida, a relevância da Convenção Internacional sobre Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada em 2006.
Na ocasião, 153 países ratificaram o tratado, vigente desde maio de 2008. Esse acordo implica para cada Estado signatário o reconhecimento de que a atenção prioritária a esse grupo é uma obrigação nacional. Porém, o processo de adesão é relativamente recente, e o impacto nas leis e políticas públicas ainda é incipiente em muitos países.
Apesar dos avanços nas últimas décadas, ainda há muito por fazer em termos de políticas públicas para que o conceito de justiça social, igualdade jurídica e de solidariedade inclua as pessoas com deficiência, assim como foi feito com outros grupos que, por suas características particulares, também precisaram de legislação e políticas específicas para que suas oportunidades se equiparassem com o resto da sociedade.
As organizações de e para as pessoas com deficiência conseguiram mobilizar apoios significativos para inserir seus direitos na agenda internacional. A Convenção de 2006 é resultado desse esforço. Múltiplas redes nacionais, regionais e internacionais agrupam pessoas de forte compromisso e alto nível profissional que, com anos de análises e experiência, são as melhores conhecedoras do tipo de normas e políticas necessárias para tornar o mundo mais inclusivo e acessível a milhões de pessoas com deficiência. Infelizmente, a participação desses indivíduos ainda é escassa nos espaços intergovernamentais onde se definem acordos de relevância global na agenda de desenvolvimento e de direitos humanos, assim como nos espaços de formulação de políticas públicas nacionais.
Talvez pelos poucos espaços de participação internacional, esses grupos estiveram ausentes da Declaração do Milênio no ano 2000 e nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). O mundo se comprometeu a acabar com a pobreza e com a fome, universalizar o ensino fundamental, alcançar a igualdade entre os sexos, reduzir a mortalidade das crianças menores de 5 anos, melhorar a saúde materna, combater a aids, a malária e outras doenças, garantir a sustentabilidade do meio ambiente e fomentar uma aliança mundial para o desenvolvimento.
Dezenas de indicadores mostraram que, para impulsionar estratégias nacionais dirigidas a esses objetivos e alcançá-los de forma integral, seria necessário identificar as metas e os indicadores que serviram de guia aos Estados para que os ODM também contemplassem as pessoas com deficiência.
Como bem assinalou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, “os ODM apresentam um esforço dirigido para abordar a pobreza mundial. Eles, contudo, não incluíram as pessoas com deficiência, que nem sequer são mencionadas. Apesar dos progressos notáveis em relação ao cumprimento dos ODM, é difícil avaliar se as pessoas com deficiência foram de alguma forma beneficiadas com a aplicação dos Objetivos ou atividades relacionadas”.
A invisibilidade e a discriminação de pessoas com deficiência geram um círculo vicioso de desigualdade, iniquidade e pobreza. Para a humanidade do século XXI, isso deveria ser inaceitável. Esse grupo é mais vulnerável à pobreza, e a grande maioria reúne uma ou mais das seguintes características: carece de alimentação adequada; vive em moradias precárias e sem condições de acessibilidade; não tem acesso a água potável e saneamento; carece de dispositivos técnicos de ajuda e assistência pessoal; não recebe atenção adequada de saúde; e está fora dos sistemas educativos. Em resumo, hoje as pessoas com deficiência são as mais pobres entre os mais pobres.
Em setembro de 2015, na sede da ONU, acontece o encontro de chefes de Estado e governo para discutir e aprovar o que será a Agenda de Desenvolvimento pós-2015. Espera-se que, nessa ocasião, as pessoas com deficiência façam parte das decisões e compromissos do evento.
Os governos e a sociedade deveriam assumir pelo menos oito prioridades para assegurar a inclusão e garantir os direitos de pessoas com deficiência:
1)Colocar o desenvolvimento científico e tecnológico a serviço das pessoas com deficiência, ou seja, tornar a ciência e a tecnologia instrumentos solidários que sirvam para melhorar a acessibilidade e a qualidade de vida das pessoas com deficiência e facilitar sua participação na sociedade e seus aportes a ela.
2) Incluir plenamente crianças e jovens com deficiência nos sistemas educativos. Para isso, é necessário transcender a visão de “educação especial” e de integração, por meio da compreensão clara da diversidade das deficiências. Para que o ensino seja verdadeiramente universal, são os sistemas educativos que precisam se adaptar a todos os seus estudantes.
3) Prestar serviços de saúde especializados e acessíveis. As pessoas com deficiência são mais vulneráveis a doenças preveníveis, por isso é preciso haver um sistema de saúde adaptado a suas necessidades.
4) Assegurar a inclusão trabalhista das pessoas com deficiência. O emprego digno é o melhor caminho para sair da pobreza, e milhões de pessoas com deficiência estão esperando contar com mais oportunidades para oferecer todo seu capital humano, sua capacidade e seu compromisso com o desenvolvimento econômico e social.
5)Assegurar a vida e os direitos das pessoas com deficiência em situações de conflito e catástrofes naturais. Infelizmente, o diálogo ainda está longe de ser uma medida prioritária para resolver nossas diferenças – e são muitos os conflitos armados ao redor do mundo. Esses conflitos, além de aumentarem o número de pessoas com deficiência, geram sofrimentos adicionais a quem já está nessa condição. Por outro lado, em situações de desastre e emergências, as pessoas com deficiência requerem medidas especiais de evacuação e atenção.
6) Visibilizar as pessoas com deficiência nas estatísticas nacionais e globais. Uma informação estatística específica e independente de outras é fundamental para desenhar políticas que garantam o gozo pleno de direitos de cada pessoa que vive com algum tipo de deficiência.
7) Construir sociedades acessíveis. Devem ser eliminados quanto antes obstáculos e barreiras que impedem o acesso de pessoas com deficiência ao entorno físico, ao transporte, à tecnologia, à informação e à comunidade.
8)Acabar com a discriminação. Apenas a inclusão plena acabará para sempre com o estigma e a exclusão. Na luta contra a discriminação, os entornos social e familiar desempenham papel determinante.
Essas oito prioridades podem mudar o mundo e saldar essa dívida da sociedade com as pessoas com deficiência. O célebre astrofísico Stephen Hawking, que vive com uma doença motoneuronial e cuja vida foi retratada em um filme recente chamado A teoria de tudo, ponderou: “Percebo que, de muitas formas, sou um afortunado. Posso confiar em uma equipe de assistentes que me permitem viver e trabalhar de forma cômoda e digna. Minha casa e meu local de trabalho são acessíveis para mim. Especialistas em informática me ajudaram com um sistema de comunicação assistida e um sintetizador de voz, que me permitem redigir conferências e documentos, e comunicar-me com distintos públicos”.
O físico completou: “A eliminação de obstáculos liberará o potencial de um grande número de pessoas que têm muito a oferecer ao mundo. Os governos de todo o planeta já não podem ignorar milhões de pessoas com deficiência a quem se nega o acesso à saúde, à reabilitação, ao apoio, à educação, ao emprego; a quem se nega o direito da oportunidade de brilhar”.
Talvez Hawking seja o melhor exemplo do enorme potencial que o mundo está perdendo ao não prestar atenção a cada um e cada uma desse 1 bilhão de seres humanos que constituem a maior minoria da humanidade.
Lenin Moreno é enviado especial das Nações Unidas sobre Deficiência e Acessibilidade e ex-vice-presidente do Equador.

Publicado em Le Monde Diplomatique Brasil, em 6 de Julho de 2015

Tomara que sim

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse ontem em Washington que o período de volatilidade nos mercados globais era esperado pelo governo e que o Brasil está preparado para enfrentá-lo. “Nós já vimos esse filme antes”, disse o ministro, ressaltando que os fundamentos da economia devem estar sólidos para o enfrentamento da turbulência internacional."

Que assim seja.

Opinião consistente e certeira

Walter Sorrentino: O país precisa de uma nova Frente Brasil Popular

O dirigente comunista Walter Sorrentino tem 61 anos de idade. Antes de iniciar a entrevista ao Portal Vermelho, em sua nova sala no segundo andar do prédio do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), no centro de São Paulo, Walter confirma ao jornalista sua formação como médico pediatra e comenta, traindo uma ligeira melancolia, “até que eu fui um bom médico, de todo modo gostava”.
Os verbos no passado soam como uma referência indireta aos 42 anos de militância no PCdoB, que absorveram muito da sua dedicação, furtando tempo à prática da medicina. Na 10ª Conferência Nacional do Partido, realizada no final de maio, os comunistas apontaram Luciana Santos como sucessora de Renato Rabelo na Presidência Nacional do Partido e elegeram também Walter Sorrentino como Vice-Presidente Nacional. Nesta rica entrevista, Walter analisa a crise política no Brasil, comenta sobre a onda conservadora, tece considerações sobre os limites e responsabilidades da esquerda no Brasil e no mundo e fala sobre suas novas funções e os desafios do PCdoB.
Portal Vermelho – Walter, você assume a vice-presidência do Partido em momento de grande turbulência política no Brasil. Embora alguns apontem que a tendência da crise é a de refluir, existe grande consenso de que ela é grave e perigosa. Qual a sua avaliação?
W – Minha avaliação é que a situação ainda é instável. Ela progride com mais equilíbrio desde as últimas duas ou três semanas, mas ainda é muito instável.
Portal Vermelho – E o que levou a esta situação mais equilibrada?
W – É que esta ampla ofensiva da oposição política, midiática e judicial teve dissenções, divisões neste campo. Era uma ampla frente contra nós e de repente eles têm dissenções porque não conseguem na verdade consenso político e econômico quanto à saída. E do nosso lado se ampliou o arco de forças em defesa da normalidade política, da estabilidade institucional e do próprio mandato de Dilma. Escrevi no Portal Vermelho sobre a proclamação de Fernando Henrique, o dono da voz, digamos assim, da oposição. A declaração de Fernando Henrique, se não é uma pregação legalmente antidemocrática, é legitimamente incendiária contra os interesses do país e da democracia. Ele fez uma impropriedade política histórica ao afirmar que a renúncia da presidenta Dilma seria um gesto de grandeza. Ora, renúncia no Brasil nunca foi gesto de grandeza. Mas, mais importante do que isso, é que ele reflete um impasse da oposição. Está claro a esta altura que o impeachment seria uma violência golpista, então ele pede a renúncia porque o impeachment sai da ordem do dia imediata. Impasse também porque a oposição vem se posicionando contra importantes interesses econômicos, no “quanto pior melhor”. Todas as votações das pautas bombas têm o apoio da oposição e eles tem se apoiado no próprio Eduardo Cunha. Além do mais é evidente que Dilma não vai renunciar e a oposição não tem um programa alternativo para abrir perspectiva, então isso conferiu um pouco mais de equilíbrio.
Portal Vermelho – O próprio empresariado não está unido em torno das saídas para os problemas econômicos…
W – Há um problema na economia, a crise econômica alimenta a crise política, mas não é o centro da nossa crise. A crise econômica representou uma confluência de três movimentos distintos. Uma crise fiscal, fruto das políticas contracíclicas que tivemos que fazer para enfrentar a crise mundial. Veja, no passado o Brasil saía aleijado das crises hiper-inflacionárias e assassinado pelas crises cambiais.
O Brasil superou esta etapa, apesar do controle da inflação ainda ser um desafio. A crise fiscal é diferente, ela se criou por causa da crise mundial, e esta crise mundial é o segundo movimento. Eu leio que o Brasil vai encontrar dois anos seguidos de recessão, a mesma coisa que aconteceu em 1930, 85 anos atrás. Nada mais claro: as duas maiores crises históricas do capitalismo realmente criaram dificuldades para o nosso país, o que é evidente, e não é inesperado. E o terceiro movimento, que conflui na própria crise, é a necessidade de mudança no modelo que vigeu nos três mandatos, dois de Lula e um de Dilma, que, explicando simplificadamente precisa transformar uma economia de demanda numa economia de oferta, quer dizer, um choque de produtividade, educação, competitividade da indústria, um choque de investimentos privados e públicos. Estes três movimentos se imbricaram e formaram uma tormenta que é muito difícil de ser enfrentada. Exige grandeza, e é essa a grandeza que Dilma precisa ter e não a da renúncia. A crise também exige a união dos que lutam pelos interesses do país. Neste contexto o ajuste da Dilma se tornou inevitável. Ela teve que desconstruir a política anticíclica anterior. Foi duro e, aliás, é um ajuste contraproducente porque já está aprofundando a recessão. O Partido é crítico de várias medidas do ajuste fiscal. Mas a Dilma apresenta já uma agenda econômica, e até geopolítica, de retomada de investimentos com importantes projetos, que ela foi lançando ao longo destes últimos meses. É isso: perspectiva de futuro. Vai levar algum tempo para digerir a crise, mas o Brasil é maior do que o buraco da crise. O que é preciso nesta hora é dar perspectiva, com uma agenda pós ajuste, para recompor a confiança na retomada do crescimento econômico e, claro, re-conformar a base de sustentação política da Dilma.
Portal Vermelho – Neste contexto, como você avalia a chamada “Agenda Brasil”, proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros?
W – Essa proposta, num contexto de crise política, ajuda a dar convergência às forças políticas e sociais interessadas na retomada do crescimento econômico. Claro, a agenda Brasil é também um palco de disputa política, para que não prevaleçam interesses conservadores, contrários às garantias que a Constituição deu ao povo, como saúde, educação, etc.
Portal Vermelho – Você diria então que estamos diante da busca de uma agenda mínima?
W – Eu acho que todo o nosso campo político, com Dilma à frente, está construindo esta agenda mínima. Hoje (a entrevista foi concedida na quinta-feira, dia 20) vai ter manifestação nas ruas. Dia cinco de setembro vai ter o lançamento da Frente Brasil Popular. É preciso que a gente se una em defesa da democracia, do mandato de Dilma, e em defesa de uma agenda mínima. O governo está fazendo sua parte, mas tão importante ou mais são as forças políticas e sociais de esquerda e progressistas se entenderem para disputar na sociedade essa agenda.
Portal Vermelho – Daí podemos afirmar que a agenda Brasil do Renan não joga lenha na fogueira do golpe.
W – Exatamente, ela está em aberto e em disputa. Joga para mais estabilidade política e institucional entre o Executivo e o Legislativo, no caso o Senado. Se soubermos agir, podemos jogar lenha na verdadeira usina do que o país precisa, que é unir forças amplas em defesa da democracia, em defesa das empresas nacionais, atingidas pela Lava Jato, em defesa da retomada do crescimento econômico. No plano político, esta agenda tem um vértice bem determinado, que é Dilma. Dilma e Temer, a chapa eleita por 54 milhões de votos. No plano social, a Frente Brasil Popular que precisamos vai também elaborar sua agenda em prol dos mesmos objetivos.
Portal Vermelho – Estamos enfrentando uma onda de valores conservadores que engloba inclusive parte da juventude. Temos, por um lado, esta onda conservadora e por outro, como parte do mesmo fenômeno, uma forte rejeição à política, que ficou bastante nítida nas jornadas de junho de 2013. Como você vê isso?
W – Eu creio que esta rejeição à política – que é um fenômeno mundial – é produzida. E é produzida por meio de vasto movimento de despolitização do povo. Isto é feito pela dominância dos verdadeiros poderes maiores desta sociedade, que são o poder financeiro, o poder midiático, o poder das grandes corporações, que capturam a política e isto é uma coisa muito preocupante, porque coincidiu com a quebra de referências de toda uma experiência política e social que vigeu a maior parte do século 20, que era uma experiência organizada, centrada na luta capital/trabalho. Existiam influentes sindicatos em torno dos quais se unia um poderoso movimento popular. Em grande medida este paradigma mudou, o socialismo sofreu uma derrota, e no lugar disto se instalou uma certa anomia social, que facilita esta despolitização.
Portal Vermelho – Pode-se dizer que, quanto a este aspecto da politização, a esquerda falhou nestes 12 anos da era Lula/Dilma? E se falhou onde está a falha, ou as falhas e qual o caminho para corrigi-las?
W – A esquerda falhou? Sim, nós temos sempre que nos atualizar perante o tempo, mas falando no contexto mais imediato do Brasil, já que a esquerda, com o PT e outras forças, está no governo, eu acho que falhou. Diria dois exemplos que para mim são muito importantes: o primeiro é que, surpreendentemente, uma força de esquerda ocupa o centro do governo e foi incapaz durante treze anos sequer de pautar o que eu chamo de uma agenda de Estado. Isto é uma profunda tradição da esquerda no mundo todo. O Estado que existe aí não está conforme as conquistas progressistas e avançadas, é um Estado conservador. Bom, você tem uma luta em torno disso, mas ela sequer foi pautada! As grandes reformas estruturais, que enfrentassem o caráter conservador do Estado brasileiro sequer foram pautadas.
Para dar um exemplo básico, o Brasil não tem nem regulamentado o direito de resposta, que é um direito constitucional. Mesmo nos oito anos de governo Fernando Henrique, em um período curto, eles pautaram toda uma agenda de Estado. No caso, isso representou o desmonte do Estado voltado para o desenvolvimento nacional, com as privatizações, com as agências reguladoras, com as novas leis, como a da responsabilidade fiscal e autonomia relativa do Banco Central para cumprir a tríade de ferro das metas de inflação, superávite primário e câmbio flutuante. Eles foram adequando o Estado ao modelo que perseguiam, e nós? Acho que isso revela, por parte de uma parcela destas forças da esquerda brasileira, ilusões quanto ao caráter do Estado. E o segundo exemplo, que é um pouco mais matizado: estar no governo não expressa necessariamente ter hegemonia, pois isso é um processo que implica não só hegemonia política, como social e cultural, na sociedade e não apenas no aparato de governo. Acho que nós não soubemos fazer todo o processo de educação política do povo brasileiro. É verdade que Lula, um grande líder, sempre procurava armar política e ideologicamente sua base social, mas era preciso mais do que isso, era preciso todo um processo de politização que tem relação com a agenda de estado. Como corrigir isso? Elevando o nível de politização do nosso povo. E esta é uma tarefa que não é do governo é uma disputa que se faz na sociedade, é para isso que existem os partidos de esquerda que não podem se acomodar, nem sequer porque são governo. Muito menos viver para ter mais poder na máquina do Estado, pois isso seria ter um projeto de poder, não um projeto político de nação.
Portal Vermelho – Diante da desilusão com a chamada política tradicional surgem, principalmente na Europa, opções como o Podemos, que afirma que não é de esquerda nem de direita, mas “dos de baixo”. Como o movimento comunista, a seu ver, deve se situar para influir mais decisivamente na atual conjuntura mundial?
W – Eu faço uma comparação, arbitrária, que não é precisa historicamente. O Brasil teve o seu Podemos, em outro contexto, que foi o PT. O PT era uma força original, mas se dava, naquele contexto, como uma experiência política e social que seguia predominante a via tradicional da esquerda. O Podemos surge da crise deste paradigma e surge devido à derrota do campo socialista, e de certo modo este é um processo inevitável, que a gente vai enfrentar. Eu acho que o movimento comunista, ou nós do PCdoB, fazemos muito bem quando defendemos integralmente a nossa identidade. Isso não só é prova de coerência, é uma necessidade política, exatamente para politizar o povo, porque no fundo, a política, com P maiúsculo, é a forma mais elevada da consciência social. A negação da política leva, em geral, ao fascismo, ao retrocesso, e você desconhecer as grandes forças estruturadas da sociedade, forças sociais, políticas e econômicas, com base nas quais se faz a representação política, é prestar um serviço ao adversário, aos poderes financeiros, que são onipotentes, estão em todo lugar e não estão em lugar nenhum. O PCdoB preserva sua coerência, defende a autonomia do movimento social que deve ser muito variado, e o partido defende a unidade das forças para um projeto político programático. Eu acho que ao fim e ao cabo, as forças estruturadas predominarão, assim como eu vi nas manifestações de junho de 2013, que foram muito importantes, deixam um saldo difuso, mas negando a política não mudam a sociedade. Para mudar a sociedade é preciso organização política e poder de estado. Negar a política vai nos deixar em uma situação em que o movimento é tudo e o objetivo é nada, o que no Brasil se traduz como a indignação é enorme mas o resultado é quase nada.
Portal Vermelho – Voltando ao Brasil, o centro da tática atual dos comunistas é a defesa do Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, como caminho brasileiro para o socialismo. O NPND exige ampla aliança inclusive com setores da burguesia brasileira. Como articular isso e o caráter imanente do PCdoB como força revolucionária anticapitalista?
W – Para ser uma força revolucionária, consequente, anticapitalista, é preciso ter um programa de superação do capitalismo que seja viável, exequível. Este é o grande esforço que o PCdoB busca fazer vis a vis a história política real do país. Não um socialismo que fosse implantado das nuvens, mas um processo longo, prolongado, complexo. Nas condições do nosso Brasil, que é um país que ainda nem sequer completou a sua construção nacional, é preciso um caminho, que seja o caminho de um desenvolvimento com algumas características: soberano, democrático, de integração regional, com defesa do meio ambiente, que seja profundamente distribuidor de renda, que é a principal chaga da história do nosso país, não só renda para o povo e os trabalhadores como também para combater as desigualdades regionais. Então, nós temos um caminho. Um velho debate da esquerda que permanece atual é o seguinte: o mundo mudou. O mundo mudou por uma assimetria de poderes fantástica que, talvez, nem sequer Lênin pudesse dar conta quando dizia que uma das características do imperialismo é a de ser uma força tão poderosa que arrasta nações inteiras. Naquele momento talvez fosse inadmissível considerar que esta força pudesse ser tão poderosa quanto é hoje, expressa pela força do capital financeiro. Capital financeiro que fez com o Tsípras (Aléxis Tsípras, então primeiro-ministro grego), que no domingo ganhou um plebiscito com 61%, na terça-feira fosse rendido pelos poderes financeiros. Eu acho que resistir a esta situação, sem contar com a força de um Estado nacional, é muito difícil. De modo que o projeto nacional de desenvolvimento estaria destinado a trazer desenvolvimento ao país, o fortalecimento da soberania nacional, o fortalecimento do Estado nacional e a afirmação nacional, com este conteúdo democrático e popular, de tal forma que a gente possa, no concerto internacional, resistir e se afirmar enquanto nação, que seria o caminho para o rumo socialista. Mais precisamente, para abrir caminho à transição ao socialismo.
Ou seja, na luta de classes ferrenha que se trava hoje, a forma nacional desta luta toma vulto e tem papel muito central sem desconhecer também a luta de classe entre capital e trabalho, a luta de classe em todos os demais terrenos, e acho que o Partido Comunista do Brasil se dispõe, com esta compreensão, a ser uma verdadeira força nacional popular, capaz de disputar a hegemonia, estar presente em todos os acontecimentos, lutas e processos, infundindo em cada um deles os valores do seu programa. A burguesia brasileira é ambígua quando se trata de inteira defesa dos interesses nacionais, mas vários setores podem e precisam ser disputados para um projeto nacional de desenvolvimento. Quanto à esquerda, que é muito variada, nós não temos problema com isso, mas nós defendemos este rumo. Eu acho que hoje no Brasil, para dizer numa palavra, perante esta crise e os desafios da retomada do crescimento, e da afirmação do nosso projeto, eu acho que o Brasil precisa de mais frentismo, digamos assim. Uma força só, por mais poderosa que fosse, não daria conta disso. O Brasil é um país complexo, não é um país para amadores, como dizia Tom Jobim. É preciso uma ampla frente, uma estratégia frentista que conte com o PT, que conte com o PCdoB, que conte com essas forças sociais politizadas que existem na rica sociedade civil do nosso país, e conte com outras forças político partidárias, de esquerda, progressistas, que conte com a intelectualidade progressista. É isto que o Brasil precisa. Sempre achamos isso. A melhor formulação do PCdoB sempre foi essa: a de unir amplas forças. Hoje, numa dimensão imediata, amplas forças democráticas e progressistas que precisam se unir em defesa da democracia, das empresas nacionais e da retomada do desenvolvimento, mas também, no seio dela, de uma Frente Brasil Popular, desse bloco político social que citei. As contradições da esquerda, a gente busca fazer com que elas não sejam contradições insanáveis, ou contradições antagônicas. Sempre haverá este debate, mas vamos encontrar os pontos da unidade de ação, de todas estas forças de esquerda para levar nosso país adiante.
Portal Vermelho – Depois de 14 anos como Secretário de Organização, como você encara e o que representa este novo desafio de ser vice-presidente nacional do PCdoB?
W – Do ponto de vista político, com muito entusiasmo e responsabilidade, do ponto de vista pessoal com alívio, porque 14 anos na organização de fato é um trabalho muito pesado, mas também com o sentimento de dever cumprido. No discurso que fiz num Encontro partidário falo um pouco desse sentimento. Eu completei a transição apenas no domingo passado (16) com a decisão do Comitê Central (que elegeu como novo Secretário de Organização, Ricardo Abreu – o Alemão) porque até então eu estava acumulando as funções. Eu acho que o Partido completou a transição de sua direção, com a Luciana Santos na liderança de um novo núcleo, que é um núcleo reforçado e cujo destino vai ser decidido pela capacidade de enfrentamento desta crise política do país. O Partido tem tido um papel muito destacado, de sagacidade política, destacado na frente social, no movimento de massa. Eu acho que este novo núcleo herdou um legado muito rico e muito potente, e nós vamos ter que honrá-lo. Acho que a principal missão que eu tenha como parte desta direção é consolidar esse novo núcleo, sob a liderança da presidenta Luciana Santos. Acho que esta é a nossa primeira missão e, claro, o enfrentamento desta crise. Mas também terei missões definidas na condição de vice presidente.
Portal Vermelho – Quais as suas funções como vice-presidente nacional do PCdoB?
W – Eu sou o sétimo vice-presidente nacional eleito pelo PCdoB, e nenhum teve funções definidas nessa condição, a não ser substituir o presidente no caso de impedimento, mas no meu caso eu vou ter funções. Neste novo núcleo de direção as tarefas são muitas e eu pretendo retomar um papel político mais público, que eu já tive como presidente do Comitê Estadual do Partido em São Paulo durante onze anos, e algumas funções próprias porque eu vou coordenar a frente institucional que é uma frente já complexa, com inúmeros quadros de alto valor, envolvidos com inúmeras políticas públicas, sobretudo a responsabilidade no ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, e a responsabilidade no governo do Maranhão. O Partido já vai mostrando que não é apenas um partido bom de luta, mas é também bom de governo e isso exige muita responsabilidade, vou cuidar desta frente. Além disso, eu sou membro do grupo de trabalho eleitoral do Comitê Central e vou fazer a secretaria executiva deste grupo, coordenando a construção do nosso projeto eleitoral nos 27 estados, que é uma tarefa ao qual eu já me dedicava. Pessoalmente, o que eu vou fazer também com muito gosto, é me dedicar mais à luta de ideais. Eu sempre dei muita aula, escrevia, sempre escrevo no blog, isso me atrai muito, me motiva, me estimula, mas eu não tinha tanto tempo. Estes novos desafios temperam e promovem superações, não só para mim como para todos os novos membros da direção. É o que eu sinto e me dedicarei a isto de corpo e alma.
Portal Vermelho – Já que você falou no Grupo de Trabalho eleitoral do PCdoB, consegue arriscar alguma avaliação do cenário político em que acontecerão as eleições municipais de 2016?
W – Na minha opinião o cenário eleitoral de 2016 será marcado, coerentemente com o que eu já afirmei nesta entrevista, por uma grande despolitização e também pela grande ofensiva que fizeram contra a imagem do PT, que atinge toda a esquerda. São dois fenômenos que para mim terão influência. Embora eleições locais sejam sempre mais próximas do cotidiano do povo, e eu não desconsidero a capacidade do eleitor em traduzir seu interesse em voto. O PCdoB sempre luta para encontrar seu lugar político próprio, autônomo, independente, embora sempre compromissado com os problemas maiores da nossa nação e do nosso governo, o Governo Dilma. Nós precisamos encontrar em 2016 qual é o eixo de acumulação de forças que permitirá ao PCdoB dar prosseguimento à sua inserção eleitoral, nas condições atuais, que são condições mais desfavoráveis do que as eleições anteriores, no geral, mas, para o PCdoB, se inscrevem numa trajetória de acúmulo. Eu acho que o eixo principal de acumulação de forças do PCdoB será disputar cidades médias, e isto é muito importante. Cidades médias no Brasil vão se fazendo um polo muito dinâmico em todos os terrenos, e o Partido está presente em todas as cidades com mais de cem mil habitantes. Mas pela primeira vez nós temos condições de lançar candidatos a prefeito, e chapas próprias de vereadores em grande número delas, e em grande número delas de modo competitivo. O PCdoB nunca foi um partido de ter deputados pelo interior. Hoje já é uma realidade e você tem deputados ou fortes candidatos comunistas de várias cidades médias do Brasil. Isto é uma realidade nova. A gente já se acostumou, mas é rigorosamente nova. Eu acho que por aí a gente pode encontrar as condições de conquistar novas prefeituras, fazer boas gestões e preparar o terreno para retomar o nosso objetivo de eleger 20 ou mais federais em 2018 e alguns senadores. Eu estou obcecado por isso (risos). Nós sofremos um prejuízo na bancada federal nas últimas eleições. Vamos tirar lições disso mas vamos continuar perseguindo este objetivo. Minha maior preocupação tem sido e continua sendo alertar o partido nas capitais, para que renovem raízes de inserção social e trabalhem em função de aguçar a representação social que o partido tem, para constituir redutos eleitorais mais permanentes. Do ponto de vista eleitoral (mas também da luta política e social em geral), sinceramente, esse é o maior desafio que vejo de imediato, inclusive para 2016.
Fonte: portal Vermelho
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Ivan Ferraz

Com Janaina Granja, recebi Ivan Ferraz, baluarte de nossa cultura regional. Há 15 anos, valoriza novos talentos no programa "Forró, Verso e Viola", na Rádio Universitária FM, todo fim de tarde.

Orientação nutricional

Recebo, com prazer, estudantes do curso de Nutrição da Faculdade Guararapes, que iniciam agora estágio curricular na Prefeitura do Recife. Farão o inventário nutricional de funcionários e prestação orientação nutricional. Bom para a formação dos futuros profissionais, ótimo para todos nós que trabalhamos na PCR.

24 agosto 2015

Roda de Conversa hoje: ótimo debate


Ótimo debate hoje em nossa Roda de Conversa: da real dimensão da crise econômica à necessidade (ou inconveniência) de alianças amplas e diversificadas para a reconquista da governabilidade e, dessa forma, a superação da crise política, diversos temas vieram à tona. A insatisfação (legítima) dos que foram às ruas tanto no domingo, quanto na quinta-feira e o direito democrático de manifestaram sua opinião, tirante o preconceito e o ódio (que em nada ajudam o processo democrático). Razões dos banqueiros, grandes industriais e parte da mídia hegemônica para se manifestarem contra a tentativa de impeachment. Ajuste fiscal combinado com a política de juros altos como dificultadores da grupo Roda de Conversa). Dia 14 de setembro tem mais.
retomada do crescimento. O foco da luta dos que querem prosseguir as mudanças que se operam no País – a bandeira da democracia, da retomada do crescimento e da preservação dos direitos fundamentais dos trabalhadores – e as incompreensões à esquerda, que dificultam a unidade. O combate à corrupção implica necessariamente o fim do financiamento empresarial privado de campanhas eleitorais. O desencanto com a política, que envolve amplas parcelas da população e contribui para a resistência de parte considerável da juventude (segundo pesquisas) em tirar o título de eleitor para votarem pela primeira vez. Finalmente, o desejo de seguir o bate papo pelo WhatsApp (

É fogo!

Energia é fogo mesmo! Com o verão, que por aqui significa muito calor, há o risco de se retomar o uso das usinas térmicas, para compensar a escassez de energia de origem hídrica. Com as inevitáveis repercussões sobre as tarifas industriais e domésticas. Faz parte da crise geral da economia - e dos esforços para superá-la, apesar das pressões externas e internas. Inclusive climáticas.