30 novembro 2022

Enio Lins opina

A VAGABUNDAGEM QUER ATROPELAR A DEMOCRACIA

Enio Lins, tribunahoje.com

 

Está solta a bandidagem! Ações cada vez mais agressivas da extrema-direita vão se sucedendo. Num dia, Gilberto Gil é insultado por um grupo de bolsonaristas, quando se dirigia a seu lugar para assistir um jogo da copa. Noutro dia, defronte ao QG do Exército (!) um marginal convoca atiradores (!) para um ato contra a diplomação de Lula.

Anteontem, domingo, 27
, tiros atingiram carretas da empresa Amaggi, ligada ao ex-ministro Blairo Maggi, grande empresário também no agronegócio e pessoa simpática ao presidente Lula, no município de Novo Progresso, estado do Pará, área onde os terroristas de extrema-direita mantêm bloqueios em rodovias.

Não se trata de ações políticas
, não são apenas discursos conservadores ou retrógrados. Isto seria próprio do debate político-ideológico, como sempre houve. Quem se lembra das patadas de Roberto Campos? Quem se recorda da fraseologia furiosa do Enéas? E da contundência de Jarbas Passarinho? Não é isso o que está ocorrendo agora.

O que acontece nessa quadra
 de tempo não tem argumentação, não gera polêmicas, não existem projetos a discutir, apenas agressões e ameaças pessoais – quando não tiros e granadas. É o banditismo puro e simples. Gangsterismo apoiado numa suposta certeza de impunidade, e insuflado por poderosos chefões nem tão ocultos assim.

Jair B, com seu silêncio covarde
 e permissivo, é o principal responsável por essa onda de baderna e vagabundagem, com experimentações terroristas, que se espalha pelo Brasil desde 30 de outubro, quando o mito colheu nas urnas sua segunda e definitiva derrota nas eleições presidenciais de 2022. Mimimi violento, criminoso.

Infiltrada em organizações civis
 e, principalmente, militares, a escória bolsonarista assumiu o comando da extrema-direita brasileira e é o maior perigo para o futuro do nosso País. Caso não seja enfrentada à altura, expandirá suas metástases de forma irreversível. Aplicar a Lei é o remédio. Discussão não serve para nada frente à essa organização criminosa. Combater essas infiltrações e agressões é medida sanitária urgentíssima.

Ataques sofrido
s pelo alto comando das forças armadas, com generais acusados de “melancias", tornam óbvio que agentes subversivos do bolsonazismo estão infiltrados, ativos e atentos dentro das instituições de Estado. Isso é só um exemplo do mal que corrói o Brasil, e que exige tratamento imediato e rigoroso.

Leia também: Na transição ao novo governo Lula nada é fácil https://bit.ly/3V3Skx5

Teto de gastos questionável

Despesa com juros não tem teto

Enquanto a retórica da austeridade exigia a presença da tesoura fiscal, a conta de juros subia 44% entre 2020 e 2021
Paulo Kliass, Vermelho www.vermelho.org.br

 

Uma vez confirmados os resultados do processo das eleições de outubro pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as especulações e pressões exercidas pelos representantes do sistema financeiro voltaram-se imediatamente para a formação do novo governo. Apesar do silêncio criminoso do Bolsonaro e de sua recusa em assumir publicamente a derrota nas urnas, ampliam-se a cada dia as dificuldades políticas para que ele consiga promover algum tipo de golpe, com a ajuda do comando das Forças Armadas, para impedir a posse de Lula em 1º de janeiro próximo.

A impunidade oferecida pelo atual governo às manifestações golpistas e terroristas que se espalham pelo País afora é preocupante, pois o Brasil corre o risco de permanecer acéfalo durante este final de novembro e todo o mês de dezembro. Na verdade, o núcleo duro do bolsonarismo busca de inúmeras maneiras criar obstáculos de toda ordem para inviabilizar a transição entre governos de maneira civilizada e republicana. Como já é de amplo conhecimento, a orientação de tal estratégia política vem de fora. Steve Bannon e seus comparsas pretendem transplantar para a realidade brasileira o fiasco da tentativa de ocupação do Capitólio, quando a intenção era impedir a posse de Biden como Presidente dos Estados Unidos, após sua vitória contra Donald Trump.

No entanto, ao que tudo indica, as preocupações do povo do financismo de nossas terras passam longe desse risco de ruptura institucional ou do agravamento escandaloso do quadro de miséria social e econômica envolvendo a grande maioria de nossa população. Sua influência junto aos grandes meios de comunicação se faz presente por meio de editoriais, artigos encomendados de “especialistas” e matérias exigindo que Lula apresente imediatamente o nome de seu “comandante da economia”. A pressão é pela nomeação de alguém com perfil próximo a seus interesses, de preferência um banqueiro como Henrique Meirelles ou Pérsio Arida.

Financismo pressiona por austeridade irresponsável.

Para além do nome do ocupante do cargo, tenta-se criar novamente o conhecido clima de antevéspera do apocalipse, caso suas propostas de natureza conservadora não sejam incorporadas pelo novo governo. Nesse caso, o foco principal é a continuidade da austeridade fiscal a todo custo. Os escribas buscam bombardear qualquer inciativa que vise flexibilizar as regras draconianas do teto de gastos orçamentários, seja por meio da revogação pura e simples da EC 95, seja através da chamada PEC da Transição ou ainda pela adoção do caminho da simples edição de créditos extraordinários. De qualquer forma, a intenção de Lula é viabilizar nos orçamentos de seu terceiro mandato a existência de recursos para cumprir com o programa para o qual foi eleito. Simples assim.

Leia também: O que está por trás da compra de cloroquina? Governo Lula vai investigar

Os termos utilizados para chantagear o novo governo junto à população são “licença para gastar”, “farra no orçamento”, “irresponsabilidade fiscal” e por aí vai. O financismo não abre mão de sua meta de obtenção de superávit primário e ameaça sempre com uma suposta explosão do endividamento público. Assim, para os setores do topo de nossa pirâmide da desigualdade, atenuar o quadro trágico do retorno da fome e da miséria não deveria estar dentre as prioridades do novo governo. Tampouco deveriam ser levadas em consideração as inciativas de recuperação do protagonismo do Estado para viabilizar o retorno do crescimento econômico e a adoção de um Programa Nacional de Desenvolvimento, tal como previsto no art. 21 da Constituição.

A questão essencial que se coloca para as forças progressistas é recuperar o desastre representado por esses últimos 6 anos de destruição do Estado e de desmonte de políticas públicas, levados a cabo pelas duplinhas Temer & Meirelles e Bolsonaro & Guedes. E isso tem um custo econômico e financeiro. A implementação de uma estratégia para recolocar o Brasil nos trilhos vai exigir também um esforço fiscal. Porém, felizmente, temos condições para encarar esse desafio sem maiores riscos de “quebradeira do país”, como bradam aos quatro cantos os arautos da austeridade irresponsável.

Lula precisa de orçamento para governar.

Até mesmo economistas do campo conservador admitem que o quadro é favorável a uma retomada da inciativa do governo federal, pois o governo tem “bala na agulha” para enfrentar a chantagem do financismo. Só quem se coloca contra a revogação do Novo Regime Fiscal e o abandono da política de teto de gastos são os defensores do liberalismo tardio e da privatização completa de nossas instituições governamentais. A tática é a de arrochar o garrote do orçamento cada vez mais para que os serviços públicos sejam assumidos pelo capital privado.

No entanto, o mantra financista de reduzir gastos e cortar despesas apresenta um sério viés. Ao insistir na tecla do superávit primário, esse pessoal procura esconder a verdadeira natureza da composição das rubricas orçamentárias. Para obter esse saldo positivo nas chamadas “contas primárias”, os responsáveis pela economia deveriam comprimir apenas as “despesas não financeiras”, uma tautologia que vem da própria definição do universo primário do orçamento. Daí surgem as propostas de cortes em educação, assistência social, saúde, previdência social, recursos humanos, ciência e tecnologia, saneamento e por aí. Mas não se ouve uma única palavra a respeito do escandaloso nível das despesas financeiras.

Leia também: Petrobras é pressionada a frear privatizações de gasoduto e refinarias 

As informações a esse respeito podem ser obtidas nas próprias páginas do Banco Central (BC) e da Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Por exemplo, a verdadeira “bomba fiscal” é representada por um valor acumulado equivalente a R$ 8 trilhões que os sucessivos orçamentos anuais da União transferiram ao sistema financeiro a título de pagamento de juros da dívida pública. Desde janeiro de 1997 até setembro de 2022, período em que o órgão do Ministério da Fazenda passou a registrar tais informações, os gastos com juros apresentaram uma média anual de R$ 300 bilhões a valores atualizados. Ou seja, essa rubrica apenas ficou apenas abaixo das despesas com benefícios previdenciários.

Despesa com juros só cresce.

Mas como a despesa com juros é considerada “não primária”, nada se comenta a respeito de seu crescimento sem controle. O interessante é a desonestidade escandalosa desse pessoal, pois ninguém da turma jamais levantou a voz para exigir a colocação de um teto nos dispêndios financeiros. Por exemplo, ao longo dos últimos 3 exercícios o comportamento desse tipo de gasto subiu muito acima do que os demais itens orçamentários. Enquanto a retórica da austeridade e do apelo à responsabilidade exigia a presença da tesoura fiscal nas despesas não financeiras, a conta de juros subia 44% entre 2020 e 2021. Os gráficos abaixo são a demonstração do fenômeno. Os gastos saíram de R$ 312 bilhões para R$ 448 bi no biênio. Já a comparação entre 2022 e 2021 tem que ser feita apenas para o período janeiro a setembro, em função da disponibilidade de informações. De toda forma, o crescimento foi de 49%, saindo de R$ 292 bi no passado para alcançar R$ 436 bi nos 9 primeiros meses deste ano.



A seguir essa tendência, é bem provável que 2022 seja encerrado com um volume de despesas de juros superior a R$ 600 bi. Como Paulo Guedes é chegado na cifra de R$ 1 trilhão, ele já pode botar no currículo que transferiu esse valor aos seus operadores do financismo na segunda metade de seu biênio à frente da economia a título de juros da d´vida pública. . A principal razão deste crescimento encontra-se na trajetória de elevação da SELIC, patrocinada pelo COPOM, desde o início de 2021. A taxa oficial de juros saiu de 2% e alcançou os atuais 13,75%. Como os gastos com a dívida pública têm uma ligação direta com o patamar em que se encontra a taxa referencial, a manutenção da política monetária também arrochada implica maior pressão sobre essa rubrica orçamentária.

Leia também: PEC do Bolsa Família é protocolada no Senado

O elemento complicador nesta equação é a independência do BC aprovada em 2021. Graças a ela, o atual presidente do órgão deve permanecer no cargo, assim como a maior parte da diretoria indicada por Guedes e Bolsonaro. Assim, ele pode vir a operar como um sabotador da política econômica do próximo governo. Ao vestir o uniforme desta entidade conhecida por “mercado”, Campos Neto abandona sua missão de responsável pela regulação e fiscalização do sistema financeiro. Enfim, mais um abacaxi para Lula descascar a partir de janeiro.

Leia também: Pressões do todo poderoso mercado financeiro sobre o novo governo Lula https://bit.ly/3Ao7Xak

Cida em São Paulo

Cida Pedrosa lança Araras Vermelhas em São Paulo, nesta terça. O evento será às 19h na Livraria Megafauna, sob o edifício Copan. A livraria fica na Av. Ipiranga, 200 – Loja 53, na República, centro de São Paulo. Leia aqui https://bit.ly/3VBmWWz

29 novembro 2022

Novos talentos

Em poucas Copas a seleção brasileira contou com tantos jovens super talentosos como agora. Como Richarlyson, outras estrelas poderão surgir durante a competição. 

Richarlison e Neymar adotam valores e comportamentos bem diferentes https://bit.ly/3Ub39fo

O Modernismo e o legado de Mário de Andrade

Mário de Andrade e a ideia de um Brasil democrático
Fundação Grabois
Em livro, sociólogos reavaliam papel do escritor, ao analisar sua obra e vasta correspondência. Pensou a cultura à frente de seu tempo, contra visão autoritária do Estado Novo. E articulou ampla rede de poetas e artistas em todo o país.
Publicado originalmente por Mauricio Ayer em Outras Palavras.


Reencontrar o trabalho e a trajetória de Mário de Andrade e restabelecer criticamente o sentido de seu legado e os aprendizados que ele proporciona. De maneira sintética, esta foi a tarefa que se colocaram os sociólogos André Botelho e Maurício Hoelz na escrita do livro O Modernismo como M ovimento Cultural – Mário de Andrade, um aprendizado, lançado neste ano pela Editora Vozes. 

Tarefa mais do que necessária no centenário do marco do modernismo brasileiro, a Semana de Arte Moderna de São Paulo, que teve Mário como principal liderança. Não por acaso, a empreitada foi assumida por dois sociólogos, que se propuseram a sopesar o papel do intele ctual paulista na malha das configurações históricas da sociedade e do pensamento social brasileiro. André Botelho é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é o atual presidente da ANPOCS, a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Maurício Hoelz é professor do Departamento de Ciências Sociais e do PPGCS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). 

Retomando a volumosa fortuna crítica do autor de Macunaíma e do Ensaio sobre a Música Brasileira, além de seus escritos literários e teóricos, suas interve nções na imprensa e a vasta correspondência, André e Maurício procuraram aproximar-se do trabalho de Mário de Andrade no calor de suas interações sociais. Ao fazê-lo, procuram distingui-lo da imagem que se construiu, à sua revelia, de um Mário identificado com visões restritivas, e até autoritárias, da cultura brasileira, da brasilidade e do nacionalismo. Lendo esse corpus a contrapelo, os autores resgataram uma visão do Mário mais próxima das intenções estratégicas de seus gestos sociais face à resistência do contexto. 

Poucos formularam um projeto tão democratizante da cultura no Brasil quanto Mário de Andrade, e menos ainda investiram tanto empenho em implementá-lo por todos os meios que encontrou. Esses meios envolvem a sua produção literária pessoal, mas também sua atuação no debate público e, com extrema dedicação, pelo diálogo com um amplo leque de person alidades da cultura em todo o país, realizado essencialmente por cartas. Mário pretendia, por um lado, assegurar foro de cidadania pleno às múltiplas e diversas manifestações culturais populares do Brasil, e para isso viajou o país e procurou conhecê-lo, documentá-lo e difundi-lo. Por outro lado, ampliar radicalmente o acesso à cultura letrada a todos os públicos de todas as classes sociais; nessa linha, destaca-se sua atuação no Departamento de Cultura de São Paulo, criado por ele, quando criou concertos populares, bibliotecas itinerantes e muitas outras iniciativas que se tornaram os embriões de muitas políticas públicas na área de cultura que até hoje têm sentido e lugar.   

No entanto, no meio do caminho de Mário tinha uma baita de uma pedra: uma ditadura, que deu grande centralidade à questão cultural. O Estado Novo, mesmo com suas contradições, teve um papel crucial na rotinização de certas ideias sobre a cultura brasileira e nacionalismo que apontavam no sentido oposto ao construído pelo modernista paulista, ou seja, no sentido da homogeneiza&cce dil;ão dos traços “nacionais”, a irradiação de certas concepções a partir da capital, e sobretudo nenhuma abertura para que os artistas do povo tivessem uma voz própria na construção da nação. O nó que André e Maurício procuraram desatar é que, em muitos âmbitos, sedimentou-se uma identificação simplificadora – e, por isso mesmo, falsa – entre Mário de Andrade e concepções nacionalistas que eram opostas àquilo que ele dedicou sua vida para construir. 

Nesta entrevista, André e Maurício partilham um pouco das ideias que sustentam o livro e essa revisita ao legado de Mário de Andrade. Uma das noções mais importantes é justamente a de “movimento cultural”, que desloca o entendimento do modernismo da lógica da vanguarda – que acaba dando um peso agigantado para o evento da Semana de Arte – para a lógica de uma construção coletiva, difusa e transgeracional, sem um centro irradiador único, mas com uma interação de múltiplos agentes e múltiplas centralidades. 

Ao construir a visão do modernismo brasileiro como movimento, o lugar de Mário de Andrade se revela ainda mais importante. Uma parte notável do livro consiste em tomar em consideração as cartas e verificar que Mário exerceu uma liderança efetiva na relação que estabeleceu com jovens escritores e artistas praticamente de todo o Brasil. Dialógico, socrático, Mário manteve-se o tempo todo à escuta, em um muito sensível exercício de admirar os novos autores e de incentivá-los a manter-se firmes na busca de uma nova linguagem para si e para o país. 

O caso de Minas Gerais é analisado com especial atenção por André Botelho e Maurício Hoelz – que aliás coordenam, com Mariana Chaguri, Pedro Meira Monteiro e Eneida Maria de Souza (in memoriam), o projeto Minas Mundo, que busca pensar o modernismo brasileiro a partir de Minas Gerais, no fértil embate e encontro de regionalismo e cosmopolitismo. Vemos o quão importante foi a troca epistolar entre Mário e Carlos Drummond de Andrade para que este perseverasse como poeta modernista e construísse sua obra poética, por muitos considerada uma das mais importantes do século XX no Brasil.  

Revista 'Princípios' publica dossiê de 200 anos de uma independência incompleta https://bit.ly/3Rv2FAw

Minha Casa, Minha Vida

Retomada da política habitacional será desafio após abandono de Bolsonaro.
Governo Lula planeja resgatar Minha Casa Minha Vida, abrir frentes de financiamento para trabalhadores formais e informais e reconstruir área arruinada por Bolsonaro. Leia mais
https://bit.ly/3Vx8pLB

 

Quem governa

Bolsonaro entende nada de economia e deixou tudo ao bel prazer do desastroso ministro Paulo Guedes. Agora, o mercado financeiro cobra que Lula deva fazer algo semelhante. Mas quem vai governar é Lula, ora! Inclusive a economia.

A pressão para tornar o próximo governo Lula um Frankenstein político-administrativo https://bit.ly/3UOW6KA